95 anos

Era sua festa de 95 anos. Os festejos foram antecipados para aproveitar o final de semana e reunir a grande família. Durante o mês anterior, filhos e netos envolveram-se, direta ou indiretamente, nos preparativos da comemoração, um almoço em família. No dia da festa, aos poucos os convidados foram chegando e logo os filhos, genos, noras, netos, bisnetos e amigos ocuparam todos os espaços.

Há algum tempo a família vinha aproveitando as festas para se reencontrar. É verdade que nos últimos dois meses aconteceram três grandes festas. Ao final de cada uma delas, tios e sobrinhos já se despediam esperando o próximo encontro. Nesses momentos, reviviam-se os dias em que todos riam, cantavam e brincavam na casa da mãe/avó.

Animada por música ao vivo, a festa dos 95 anos prosseguia, com crianças correndo para lá e para cá, um grupinho reunido em torno da mesa das batidas, outros acomodados em mesas na sombra. A aniversariante, privada da audição, apreciava a festa, para ela silenciosa. Seus descendentes se alternavam ao seu lado, embora a comunicação praticamente estivesse limitada a sorrisos, beijos e abraços.

Após o almoço, um amigo da família emocionou-se ao recordar sua infância pobre, abrandada pelo carinho e apoio recebido da aniversariante. Ao vê-lo chorando, ela, que nada ouvira do relato, ergueu-se, discursando: “Não quero saber de choro nem tristeza. Meu lema é animação! Nada de choro aqui, nada de tristeza!” O amigo, acostumado à sua velha amiga, secou as últimas lágrimas, entre um suave sorriso.

Enquanto isso, o samba seguia solto, contagiando a todos: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz…” Em certo momento, a aniversariante, aos 94 anos, 11 meses e 28 dias, ergueu-se da cadeira e dirigiu-se ao grupo, sambando. Rapidamente os músicos começaram a tocar o “Parabéns pra você”, enquanto os demais, profundamente emocionados, marcavam o ritmo com palmas, acompanhando os passos de dança de sua mãe/avó. Ela delicadamente aproximou-se de seus descendentes, até estar no centro da roda, rindo até não mais poder.

Acomodada em uma cadeira, ao lado de seus irmãos, e cercada por sua família e amigos, ela assistiu à apresentação de um jogral. Cuidadosas, as netas providenciaram legendas, para que a aniversariante pudesse acompanhar a homenagem. Os corações batiam forte enquanto os bisnetos encenavam um de seus contos, que narrava o início daquela imensa família.

Eis as lições de seus 95 anos de vida: acolher a todos, sorrir indistintamente, cultivar amigos, distribuir bondade e doçura, ser paciente e perseverante, encarar o trabalho com coragem e gratidão, acreditar na Força maior que guia e protege, amar imensamente, sem limites nem pudor. E assim, colher a felicidade que plantou durante 95 anos.

Eu gostaria de chegar aos 95 anos do mesmo modo: sambando…

3 ideias sobre “95 anos

  1. Márcia, você descreveu muito bem a festa de 95 anos de d. Peró, bem como, o espirito Peró de ser. Foi, sem sombra de dúvida, mais uma linda confraternização da família. ” Nada a pedir Senhor, só a agradecer”, temos muito a agradecer ao Criador, por muitas bençãos derramadas em nossas vidas. Gratidão!
    Parabéns, Márcia!!

  2. Olá Márcia!
    Como você descreveu bem a sua avó… que texto lindo!
    O nome Perolina significa pérola pequenina, porém, a nossa Peró é uma imensa pérola!
    Na minha opinião, o nome Peró quer dizer: Paz, amor, fé, e muita sabedoria!

  3. Amiga, que texto lindo. Fui lendo e me emocionando, terminando a leitura em lágrimas de ternura. Que doce pessoa é D. Peró. Uma lição de vida pra sua família e amigos. Mostra, com sua jovialidade interior, o caminho para uma vida. Parabéns!!! Abraços afetuosos pra todos vocês, os privilegiados pela convivência com D. Peró.

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