O que aprendi com Stephen King

Quando adolescente, eu gostava muito de escrever. Poesia, na maioria das vezes. Contudo, à medida que avançava o estudo de literatura na escola, comecei a me sentir pequena, incapaz, incompetente, sem graça. Adquiri consciência de que meus poemas estavam a anos-luz de meus autores favoritos. Sentia que jamais seria capaz de escrever como Cecília Meireles, Mário Quintana, Manuel Bandeira ou Carlos Drummond de Andrade, este o meu favorito. O encanto de suas palavras terminou por me silenciar. Parei de escrever.

Ao longo dos anos que seguiram, escrevi alguns versos que logo descartei. Vivi como se não tivesse nada a dizer, sentindo, porém, que alguma coisa estava errada. Há pouco mais de cinco anos, voltei a escrever. Permaneço pensando que não escrevo tão bem. Tenho consciência da bondade de quem elogia meus textos. Superei, porém, a barreira da vergonha, passando a escrever sempre que desejo.

Além de escrever, tenho paixão pela leitura, não tendo estilo ou tema favorito. Leio tudo, absolutamente tudo. Gosto muito de alguns autores; outros, embora elogiados, não me conquistaram. E, dentre a gama variada de interesses literários, tenho predileção por livros que falam de livros, bibliotecas, escritores e leitores.

Foi assim que comecei a ler “Sobre a escrita”, obra em que Stephen King fala sobre a sua vida e a arte de escrever. Trata-se de um livro absolutamente apaixonante, que logo se tornou um dos meus favoritos. Ao lado do relato autobiográfico corajoso, apresenta generosamente lições práticas sobre o ofício do escritor, com seus desafios, alegrias, bloqueios, motivações e, principalmente, a sensação de plenitude que proporciona.

Muitos anos se passaram – anos demais, eu acho – até que eu perdesse a vergonha do que escrevia. Acho que só depois dos 40 anos me dei conta de que praticamente todos os escritores de ficção e poesia que já publicaram uma linha que seja foram acusados de desperdiçar o talento que Deus lhes deu.” 

Como já mencionei antes, a vergonha dos próprios textos sempre foi uma realidade que me acompanhou ao longo da vida, bloqueando-me. Quando crianças, não sentimos vergonha. A inocência nos poupa desse sofrimento. Logo, porém, somos levados a nos importar com a aprovação alheia e, em geral, passamos a evitar a exposição. Apenas o passar da vida e a reflexão sobre as experiências vividas podem reduzir a importância que damos aos julgamentos dos outros. Perder a vergonha é, portanto, uma atitude que exige maturidade.

Escrever é um ato solitário. Ter alguém que acredita em você faz muita diferença. Eles não precisam fazer discursos motivacionais. Basta acreditar.” 

É solitário, sem dúvida, o momento em que, diante do papel ou da tela do computador, extraímos a essência de nossos pensamentos. A perda da vergonha ocorre quando nos libertamos da preocupação em agradar e expomos ao mundo o que escrevemos. As críticas são esperadas, afinal, a perfeição é um ideal inatingível. Sobre esse desafio, um grande amigo, extremamente bem-sucedido em tudo que faz, disse-me, há muitos anos: “não se preocupe em ser perfeita; faça o melhor, do jeito que puder”. Busco assimilar essa lição. Mas ter uma mãe como a minha, que me apoia incondicionalmente, lendo todos os textos, comentando-os em público e em particular, compartilhando reflexões e lembranças, é extremamente motivador. Saber que ela deseja ler o que escrevo aumenta minha inspiração.

A leitura é o centro criativo da vida de um escritor.” 

Ler é a minha diversão predileta. Acordo muito cedo para ler antes de ir à academia. Leio antes de dormir. Leio durante as refeições. Leio em consultórios médicos e salões de beleza. Leio sempre que posso. Em cada livro descubro um novo olhar sobre a vida, uma nova abordagem, um novo tema. Se não amasse tanto a leitura, provavelmente não gostaria tanto de escrever.

Escreva o que quiser, depois encharque a história de vida e a torne única, acrescentando seu conhecimento pessoal e intransferível do mundo, da amizade, do amor, do sexo e do trabalho.” 

Lembranças, ponderações, tudo se mistura na construção de um texto que, para ser bom, tem que ser amalgamado com a verdade do autor. Não é raro que eu termine de escrever com o rosto banhado de lágrimas. No início, isso me incomodava, já que, por natureza, não sou uma pessoa emotiva. Depois de algum tempo, aceitei que a emoção que não externo em meu cotidiano faz parte da verdade a ser transmitida naquele momento. É a minha vida, a minha perspectiva, minhas alegrias e tristezas que compõem a essência do texto.

Escrevo porque é algo que me completa. O trabalho pode ter pagado a hipoteca da casa e garantido a universidade para meus filhos, mas tudo isso é consequência – sempre escrevi por paixão. Pela alegria sincera que a escrita me dá. E, se você consegue escrever porque sente alegria, vai escrever para sempre.”

Essa lição final de Stephen King resume o sentimento de que desfruto semanalmente ao escrever uma nova crônica. A alegria que faz parte de minha vida familiar, profissional, amorosa, está também presente nesses momentos criativos. Essa é a felicidade: escrever sempre, ainda que o texto final não alcance muitos leitores, ainda que seja muito criticado, ainda que seja imperfeito. Nada há a temer quando o amor pela escrita é a motivação.

Escrever é mágico, é a água da vida, como qualquer outra arte criativa. A água é de graça. Então beba. Beba até ficar saciado.”

P.S.: Citações extraídas de “Sobre a escrita”, de Stephen King, Ed. Suma das Letras.

2 ideias sobre “O que aprendi com Stephen King

  1. Amiga, que bom que se encorajou a escrever porque nos presenteia semanalmente com textos deliciosos. E mais,. aguardo as poesias guardadas na gaveta!

  2. Olá Márcia!
    Que bom que você “perdeu a vergonha”, e resolveu publicar tudo que escreve; senão teríamos perdido a oportunidade de conhecer o seu talento. Talento sim, pois você escreve muito bem! Sou sua fã desde que você era bem pequena. Foi você quem me fez gostar tanto de literatura. Eu já gostava de ler, mas com o seu incentivo cada dia gosto mais.
    Lembro de você adolescente sentada na mesa da cozinha; enquanto eu preparava as refeições me deliciava com as poesias que você lia para mim. Fiquei admirando vários autores, por seu intermédio.
    Agradeço a Deus todos os dias pelo tesouro que ELE me deu!
    Te amo, minha princesa!

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