Sobre o bebê de Rosineyde…

Como contei na semana passada, Vovó Perolina está de férias. Durante sua ausência, ocuparei o espaço das quintas-feiras. Sei que a leveza e lirismo dos seus textos não podem ser substituídos, mas vou tentar…

Conheci Freitas Junior em outubro de 1992, quando nos tornamos colegas de trabalho. Estive em seu casamento, celebrado na Igreja do Salete, no ano seguinte. Acompanhei o nascimento de seus dois lindos filhos, de idades próximas à de minha filha. E assim os anos foram passando. Por conta de mudanças no trabalho, deixamos de trabalhar lado a lado, o que jamais significou perdermos a camaradagem. Freitas Junior, mais conhecido pelos colegas de trabalho como Valter, ou Valtinho, sempre foi dono de uma língua ferina, autor dos mais sagazes apelidos, das tiradas mais bombásticas. Aliás, creio que foi dele a autoria de meu apelido mais notório: “Marciavélica”.

Sem descuidar de suas responsabilidades profissionais, Valter sempre nos premiou com suas criações. Acredito que, para a maioria dos colegas, a revelação de seu talento aconteceu quando, durante uma gincana realizada para comemorar o mês do servidor público, enfrentamos a tarefa de montar uma peça teatral. Eu e Valter fazíamos parte da mesma equipe, que, por sinal, sagrou-se vencedora. Na peça “Escrava Isaura Reloaded”, que tinha por cenário a secretaria de uma vara federal, Valter expôs com maestria o assédio moral infligido pela diretora aos pobres servidores estressados, em especial à novata Isaura, criando algumas cenas memoráveis, muitas das quais baseadas em fatos reais. Não me surpreendi com o sucesso de nosso dramaturgo, pois já conhecia, há muitos anos, a sua criatividade e sua verve humorística. Assim como também não foi surpresa para mim o lançamento, em maio de 2016, de seu primeiro romance, “O bebê de Rosineyde”.

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Em razão de minhas férias, estive ausente da festa de lançamento. Inquietei-me até conseguir o meu exemplar, carinhosamente autografado pelo autor. Iniciei a leitura, exatamente no dia 12 de junho. Apesar do excesso de compromissos e da escassez de tempo, três dias foram suficientes para a conclusão da leitura. Desde então estive ansiosa por compartilhar minhas impressões sobre o livro. Já aviso: não vou escrever spoiler. Não quero estragar o prazer e a surpresa reservados aos leitores. Algumas considerações, todavia, podem ser antecipadas.

Freitas Junior segue uma tradição de excelentes escritores regionais. Enquanto a leitura avançava, fui identificando semelhanças de seu estilo com as narrativas de Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro e, ao final, Ariano Suassuna. Aliás, encontrei semelhanças até com o José de Alencar em “As minas de prata”. Pois é, Valtinho anda ao lado dos grandes.

Acima de tudo, seu livro é uma rasgada, desavergonhada, avassaladora declaração de amor à cidade de Salvador. O Comércio, o Pelourinho, a Praça da Sé, o Campo Grande, a Barroquinha formam o cenário dessa história que transpõe para a Bahia a lenda de Fausto, o homem que vendeu a alma ao diabo. O tema, por si somente, já bastaria para prender o leitor, tendo inspirando, além de Goethe, Thomas e Klaus Mann, Oscar Wilde, Fernando Pessoa. Na música, a lenda de Fausto inspirou compositores como Wagner, Schumann, Lizst e Gounod.

Valter vai além. Ao trazer a sua versão de um arquétipo da alma humana, ele nos premia com a mais impecável reprodução do dialeto local conhecido como “baianês”, que, aliás, já foi objeto de um post publicado aqui nesse blog (http://marcia.sampaio.me/2013/04/dialeto-baiano/). A essa altura, reconhecemos na obra de Freitas Junior mais uma inspiração: a peça “Ó paí ó”, de Márcio Meirelles. Após reconhecer tantas referências, fui tomada por uma imensa curiosidade e expectativa acerca do destino de Rossini e Rosineyde, jovem e sonhador casal nascido em Cachoeira que chega à capital baiana para tentar a sorte e construir sua vida em comum. Os demais personagens também encantam, especialmente Dona Dete e Robercleydisson. Reconhecemos nos personagens a parcela mais simples da população baiana. Valter, porém, os trata com respeito, destacando a solidariedade, a amizade e a garra de um povo que não desiste de lutar por um pouco de dignidade em meio à pobreza.

Finda a leitura, estou ansiosa por emprestar o livro à minha mãe, minha principal interlocutora literária. Ainda mais após constatar as semelhanças com a obra de seu autor favorito, Jorge Amado. Acho que livro bom é assim mesmo. A gente termina de ler e a língua começa a “coçar”, num desejo louco de sair contando, comentando e recomendando a todos. Segundo Valter, a comercialização em livrarias ainda está sendo providenciada pela editora. Ou seja, por enquanto, quem quiser comprar o livro precisa entrar em contato com o autor. Mas, em se tratando de leitura tão divertida, eu volto a falar no livro quando souber onde pode ser adquirido.

É isso ai, Valtinho! Demorou, mas valeu a pena. Adorei sua prosa.

6 thoughts on “Sobre o bebê de Rosineyde…

  1. Oi marcia
    Desculpa minha ausência nos comentários mas estou passando uma fase complicada
    Marcio meu marido desde maio ficou com uma deficiência no lado esquerdo (extinção) proveniente de uma infecção no cérebro detectada depois de muitas ressonâncias e tomografias etc resultando em uma cirurgia para retirada da infecção
    Enfim muito complicado
    Até hj está com sequelas que poderá ser sanada ou não
    Não tenho tempo para nada
    Só entro na internet para pagar as contas da casa
    Bjs
    Fique com Deus
    Marilu Tourinho

  2. Amei! Vc traduziu as minhas sensações ao terminar o livro, que praticamente “comi” em menos de 2 dias! Sua capacidade de síntese é incrível, “Marcífera Marciavélica”!

  3. Márcia,
    Depois de ler seu comentário a respeito do livro de Valter, fiquei muito interessada. Tenho certeza que esse livro é bom…
    Ninguém melhor que você para fazer uma crítica literária.
    Beijo!

  4. Marcinha, Estou sem palavras. Obrigado por dedicar a mim tão generosas linhas. Apenas faço uma ressalva: Não é “Marciavélica”. É “Marcífera”, no intuito de dizer que você é uma fera em dois sentidos: Na inteligência e quando se “reta”. Beijos.

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