Os livros que minha amiga me emprestou (parte 1)

Eu tenho permanentemente um monte de livros em minha cabeceira, cada um esperando a sua vez. No final de abril, uma amiga me emprestou uma pilha com cinco volumes, sem prazo para devolução. Um deles veio com um bilhetinho num post-it, anunciando que se tratava de um livro cuja leitura não fluíra para a minha amiga, que me desafiava a desbravá-lo. Não foi o primeiro que li.

Comecei pela biografia de Ozzy Osbourne, que eu já tinha vontade de conhecer. Sobre Ozzy, uma coisa me chamou a atenção: embora tenha alcançado fama mundial como astro de rock pesado, o “louco comedor de morcegos” surge como uma pessoa surpreendentemente humilde, que nunca acreditou estar fazendo grande coisa (e realmente não estava). Apesar de todas as suas loucuras, o livro despertou grande simpatia pelo ex-vocalista do Black Sabath. Ao menos em sua biografia, não se nota a arrogância que acreditamos caracterizar as celebridades. Pelo contrário, Ozzy parece estar sempre surpreso com tudo o que conquista. Gasta muito dinheiro, bebe demais, usa drogas, tem uma vida sexual descontrolada, enfim, tudo o que se imagina de um rock star. Há, porém, certa doçura e encanto na forma como se relaciona com a família, especialmente com os filhos. Mostra, também, sincero arrependido pela forma como tratou a primeira esposa, o que revela amadurecimento. O seu amor por sua segunda esposa, Sharon, louca como ele, também é descrito com ternura. Em suma, Ozzy é um sujeito simpático, apesar de todas as suas insanidades. Já li outras biografias de roqueiros famosos e, até hoje, a mais tocante de todas foi a de Eric Clapton. A história de Ozzy, porém, nos lembra que, por trás de toda máscara, há um rosto, que, na maioria das vezes, não corresponde ao que se imaginava ser. No fundo, ninguém é aquilo que parece ser.

Em seguida, parti para a leitura do livro-desafio, “Pequena Abelha”, de Chris Cleave. Quando postei o texto com as capas, contracapas e orelhas dos livros emprestados (http://marcia.sampaio.me/2016/05/uma-pilha-de-livros-emprestados/), minha prima Isabella comentou: “Mais de duas pessoas já me indicaram Pequena Abelha, mas confesso que nunca me interessei a fundo. Tenho receio desses livros que se pretendem e avisam que serão especiais em nossas vidas! rsrsrs… É similar ao que sinto quando vejo aqueles que já vem anunciando que precisarei de uma caixa de lenços ao lado, sei lá, meio que me sinto obrigada a me emocionar e perco todo o gosto pela leitura. Por isso, irei aguardar sua resenha, na qual confio bastante!”

Pois é, Isabella, chegou a hora da resenha e não vou obedecer às recomendações do autor. Na verdade, nunca vi uma contracapa tão ruim, ou como já dito, pretensiosa. Bem, sabemos que Hitchcock pedia que não se comentasse sobre “Psicose” a quem ainda não havia assistido ao filme e proibia a entrada no cinema após o início da exibição. Truques de gênio do suspense que, no que toca ao filme “Psicose”, muito se justificavam. Em relação a “Pequena abelha”, porém, acredito que o tiro saiu pela culatra e a apresentação não está à altura do livro. Sobre a história, a contracapa apenas diz que “Esta é a história de duas mulheres cujas vidas se chocam num dia fatídico. Então, uma delas precisa tomar uma decisão terrível, daquelas que, esperamos, você nunca tenha de enfrentar. Dois anos mais tarde, elas se reencontram. E tudo começa…” Convenhamos que tal descrição não significa absolutamente nada, nem desperta interesse. Tentando não revelar muito sobre a história, poderia ser acrescentado algo como: “O destino de um casal inglês em plena crise conjugal cruza com o de uma garota que foge de uma sangrenta guerra no coração da África”. 

Vamos ao livro. Gosto de histórias densas e temas fortes, características reunidas em “Pequena abelha”. Este é mais um livro que alterna pontos de vista e passeia pelo tempo, avançando no futuro e retornando ao passado, indo e voltando da África para a Inglaterra para apresentar seu enredo. No centro de tudo, duas mulheres absolutamente distintas, seja pela origem, cor, idade, nacionalidade, condição social, escolaridade, perspectiva de sobrevivência. Em “Pequena abelha”, o tédio e o desespero se chocam, alterando os rumos. Sobretudo, é uma história de luta pela sobrevivência, sendo muito pertinente e contemporâneo o tema relativo ao tratamento dado pelos países ditos civilizados aos refugiados/fugitivos de guerra.

Há um trecho que achei espetacular e sinaliza a beleza do texto: “… uma cicatriz nunca é feia. Isto é o que aqueles que produzem as cicatrizes querem que pensemos. Mas você e eu temos de fazer um acordo e desafiá-los. Temos de ver todas as cicatrizes como algo belo. Combinado? Este vai ser nosso segredo. Porque acredite em mim, uma cicatriz não se forma num morto. Uma cicatriz significa: sobrevivi!”

O terceiro livro da pilha de emprestados foi “E nós chegamos ao fim”, de Joshua Ferris. Esse, sim, foi de difícil leitura. A narrativa das picuinhas corporativas e pequenos desentendimentos entre colegas de trabalho não me cativou e cheguei a abandonar a leitura, no final do mês de maio, retomando-a agora, pouco antes do São João. O livro, que narra, do ponto de vista dos funcionários, o declínio de uma firma de publicidade, ora se apresenta como uma pequena comédia do meio publicitário, ora o relato dramático das reações à demissão. Confesso que me arrastei por suas páginas. Não que seja ruim, mas pareceu uma colcha de retalhos mal costurados, ou pior, uma versão mais ou menos de alguma coisa muito melhor. De fato, em muito momentos pareceu-me uma versão piorada de um episódio do seriado Mad Men, com as piadinhas e competição entre redatores, diretores de conta, artistas gráficos. E olha que Mad Men é uma das minhas séries favoritas. Mas, aquilo que é interessante em Mad Men perde a graça em “E nós chegamos ao fim”, talvez por não se identificar no livro um protagonista de peso, como Don Draper, da série de TV. Bem, reconheço que a disputa é inglória, e exigiria a construção de um personagem que ultrapassasse a complexidade de Draper, veterano de guerra, alcoólatra, mulherengo e genial. Não que fosse uma missão impossível, mas, como leitora, direi à minha amiga que esse, sim, foi o livro difícil de ir até o final. Talvez o problema seja comigo…

2 thoughts on “Os livros que minha amiga me emprestou (parte 1)

  1. Adorei as resenhas! Agora fiquei curiosa para saber o que achou dos demais! Vamos ver se nossos gostos (desta vez) serão convergentes ou não! Esperando a parte 2! Enquanto isso, estou lendo “tempo é dinheiro” – indicação sua – e gostando MUITO, como todos os anteriores de Shriver. Beijos!

  2. Márcia,
    Estive lendo seu texto.
    Desses livros que você citou, me interessei por ” Pequena abelha”. Não gosto de histórias muito tristes… Não gosto de nada que me faça chorar. Espero que este não seja assim!
    Por falar em livros difíceis de se ler, lembro de “VIVA O POVO BRASILEIRO” de João Ubaldo.
    No início achei muito maçante. Deixei o livro várias vezes. Quase não lia!
    Foi você quem me incentivou a prosseguir. Pois bem; foi um dos melhores livros que já li. No início parecia difícil, mas só o início. O livro é ótimo!
    Gostei muito do livro de Freitas Jr. “O Bebê de Rosineyde”.
    Beijo!

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