“Só estou dando uma olhadinha…”

Nunca fui muito consumista e, nos últimos tempos, tenho adotado uma atitude ainda mais desinteressada, o que, todavia, não me impede de realizar passeios periódicos no shopping. Ou melhor, fazer o “footing”, como diria meu avô Sampaio.

Nessas andanças, em geral não faço compras, mas aproveito para ficar informada sobre as lojas, as modas, os preços. Analiso detidamente as vitrines e já houve ocasião em que chamei a vendedora para dizer que o manequim não favorecia o produto exibido. Ela deve ter me achado maluca, ainda mais porque eu não tinha o menor interesse em comprar nada que era vendido naquela loja. Há alguns anos, quando descrevia o prazer contemplativo desfrutado nos templos do consumo, uma colega brincou: “Você vai ao shopping como quem visita um museu. Só para olhar.” Ela captou o espírito da coisa. Essa é a ideia. Assim, quando, eventualmente, quiser efetuar alguma compra, saberei onde ficam as lojas e até mesmo qual é o preço médio daquilo que procuro.

Voltemos ao shopping.

Para o almoço, minha sugestão é o restaurante árabe, com suas delícias: kebab, costela de cordeiro, kafta, babaganuche, homus, cuscuz marroquino, belewa… Se a ideia é meter o pé na jaca, há, em cada corredor, uma cafeteria que, além de uma infinidade de bebidas à base de café, expõe uma vitrine recheada de tortas e doces.

Gosto das lojas de brinquedos, que fazem recordar as crianças de minha família. Meu sobrinho mais jovem, porém, já está às portas dos quinze anos. Ou seja, as lojas de brinquedo já não são visitadas com a mesma frequência. Quando minha filha era criança, íamos à loja de brinquedos pelo menos uma vez a cada quinze dias, apenas para conhecer as novidades. Embora sempre tenha adorado a Barbie, ela sabia que só ganhava brinquedo nas épocas próprias: aniversário, dia das crianças e Natal. Com isso, não lembro de jamais ter enfrentado birra por conta de algum desejo não satisfeito. Mas, embora não fosse comprar naquele momento, ela gostava de conhecer os lançamentos. Passávamos mais de uma hora passeando pela loja. A princípio, os vendedores se aproximavam, cobiçando a venda, mas logo se afastavam, percebendo que dali não sairia nenhum tostão.

Na época, eu lutava para que ela aceitasse uma alimentação mais saudável, o que era bastante difícil. Fizemos um acordo: eu daria o dinheiro para ela comprar o lanche na cantina da escola, mas, se ela levasse o lanche saudável de casa (uva-passa, frutinhas descascadas, suco natural, biscoitinho integral e coisas do gênero), poderia ficar com o dinheiro para gastar como bem entendesse. Ora, ora… Não precisou mais. A partir dali, ela diligentemente procurava um lanche saudável para levar para a escola e guardava o dinheiro do lanche. Quando verificava que já tinha o suficiente para uma boneca nova, pedia que a levasse ao shopping. Antes de sairmos de casa, ela, que a essa altura já havia feito amizade com um vendedor da PB Kids chamado Daniel, ligava para  a loja e pedia que reservasse tal Barbie para ela. E assim ela alimentou uma belíssima coleção de bonecas, com as quais brincou até quase os doze anos. Algumas ainda estão aqui guardadas, destinadas a uma filha que ela hipoteticamente venha a ter.

Ainda entramos em lojas de brinquedos, embora eu não consiga gostar das bonecas monstro que hoje fazem sucesso. Para não deixar morrer a criança em nós, em 2010, nós duas ficamos encantadas com as bonecas expostas na loja FAO Schwartz:

Vintage

Vintage

100_1440

Flashdance

 

Saga Crepúsculo

Saga Crepúsculo

Mad Men

Mad Men

100_1445

100_1475

Além das lojas de brinquedos, gosto de visitar livrarias. Aliás, as livrarias são os únicos estabelecimentos em que sempre faço alguma compra. Hoje, por exemplo, enquanto acompanhava minha filha, que queria procurar um livro, acabei escolhendo outro para mim, “Pai Goriot”, de Balzac. Entro em livrarias em todas as cidades que visito. Gosto de observar a disposição das estantes, os critérios utilizados para exposição dos volumes. E sempre encontro pessoas conhecidas em livrarias, pois tenho a felicidade de ter um grande número de colegas e amigos inteligentes e amantes de uma boa leitura. Desde um breve cumprimento com a cabeça até longos papos sobre livros, música ou a vida em geral, esses encontros são extremamente prazerosos.

Por fim, gosto das vitrines das joalherias. Esse hábito de parar para apreciar as joias em exposição já nos rendeu algumas divertidas situações, como naquele dia em que a vendedora da H.Stern saiu da loja para nos avisar que o grama do ouro estava muito valorizado e, no dia tal, a loja iria promover um evento, comprando o ouro dos clientes, que poderiam utilizar o valor auferido na aquisição de joias novas. Segundo a vendedora, seriam aceitas correntes quebradas, brinco sem o par, tarrachas e outras sucatas áureas. Pois é… Com a economia caminhando em passos lentos, até o comércio de luxo precisa ser agressivo. Enfim, eu precisei explicar à vendedora que não tinha a menor intenção de comprar qualquer das joias expostas na vitrine. Aliás, contive a vontade de dizer que, apesar da bela campanha publicitária, as joias daquela coleção não eram nem um pouco bonitas. As mais lindas vitrines de joias que já vi foram da Van Cleef & Arpels, e não estavam em um shopping. A concha se abria ao som de uma música maravilhosa, exibindo o anel impressionante:

100_1674

100_1675Bem, é isso… Meu conselho a todos, consumistas e frugais: aproveitem o passeio ao shopping como quem vai a um museu. Afinal, todo já dissemos alguma vez a um vendedor insistente: “Só estou dando uma olhadinha…”

3 thoughts on ““Só estou dando uma olhadinha…”

  1. Márcia, lendo seu texto faz me lembrar que o colega de John, Sabino, passeava no shopping como terapia.
    Com relação ao livro Pai Goriot, quando o ler comente, pois o li há alguns meses e não achei tão brilhante quanto A Pele de Onagro, também de Balzac.
    Por fim, não posso deixar de mencionar que seu estilo fácil de escrever cativa o leitor.

  2. Amiga, à proporção que lia seu texto a minha inveja do seu comportamento não consumista foi aumentando alhures.
    Só o oposto de você: consumista contumaz.

    Bj

  3. Olá, Márcia!
    Sou sua fã número um (peço licença a Luíza)!
    Nisso, somos bem diferentes: Não gosto de Shoppings, nem para dar uma olhadinha. Se preciso de algo assim como livros, perfume, hidratante, peço que Ronaldo escolha e traga pra mim. Ele sabe o que eu gosto. Só para comprar roupas, sapatos, ou escolher algum presente para alguém, vou ao Shopping.
    Reconheço que é o melhor lugar para se fazer compras, pelo conforto que oferece.
    Lembro que quando íamos ao shopping com Luíza, ela ficava observando as Barbies… Então o avô queria comprar, ela não aceitava de maneira alguma. Até zangava se insistíssemos. E dizia: “Vô, só estou olhando, não quero comprar!”
    Eu ficava ansiosa para que chegasse logo o Natal, Dia das Criança, ou aniversário, que era quando a nossa netinha linda aceitava receber presente!
    Ah! Gosto de ir ao cinema (no shopping).
    Beijo!

Deixe uma resposta para lucinha Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

6 + dezesseis =