Mãe e pai, ou “As doze tribos de Hattie”

Para o dia das mães, trago uma breve resenha sobre um livro que me encantou no mês de abril: “As doze tribos de Hattie”, de Ayana Mathis.

No início do ano, comprei alguns romances de autores estreantes. É o caso de Ayana Mathis (http://ayanamathis.com/), professora de inglês que leciona escrita criativa na Oficina de Escritores de Iowa. Em seu primeiro romance, ela nos revela, com delicadeza extrema, a luta de uma mãe pobre, sofrida, dedicada e incompreendida.

Inicialmente, vale a pena falar sobre a estrutura do livro. Tendo Hattie como ponto em comum, cada capítulo corresponde a um conto independente, que apresenta um flash da vida de cada um dos descendentes da matriarca. Deste modo, a narrativa, partindo de múltiplos pontos de vista, resulta em um rico mosaico, colorido pelas dores, alegrias, descobertas, tragédias da família. Essa estrutura multifacetada, encontrada em outras obras, como em “Enquanto agonizo”, de William Faulkner, nos oferece perspectivas distintas de uma mesma história. Em “As doze tribos de Hattie”, não há simultaneidade nas narrativas. Cada personagem conta fatos acontecidos em um determinado período ou década, como se fossem instantâneos, que nos permitem viajar no tempo e acompanhar o amadurecimento e envelhecimento de Hattie.

Logo no início do romance, a jovem Hattie, com apenas 17 anos, vê seus bebês gêmeos morrerem de pneumonia. Essa primeira tragédia deixa profundas marcas na moça negra, que, após a morte do pai, mudou-se com a mãe e irmãs para a Filadélfia, deixando para trás a segregação racial do Sul. A partir daí, cada um de seus filhos enfrentará dificuldades distintas, que, na maioria das vezes, tentarão ocultar da mãe.

Uma palavra define Hattie: resiliente. Trata-se de uma mulher corajosa, que atravessa o século XX enfrentando a pobreza extrema, convivendo com a infidelidade do marido e, na medida do possível, sufocando as próprias paixões por amor aos filhos. Aliás, August, o marido, é o modelo de marido que ninguém deseja: mulherengo, irresponsável, passa as noites em bares e gasta os escassos recursos familiares com roupas novas ou mimos para namoradas. As histórias contadas pelos filhos de Hattie abrangem um amplo leque de temas: desde a sexualidade e religião até o tratamento dispensado aos negros.

Ao final do romance, permanece o desejo de conhecer mais a história daqueles personagens, cujas vidas foram apresentadas em flashes. Mas, refletindo melhor, não creio que esgotar a história fosse o melhor recurso. Há uma infinidade de possibilidades nas entrelinhas, cabendo ao leitor deixar fluir a imaginação a partir do quadro brilhantemente pintado por Mathis.

É impossível não associar a história de Hattie Sheppard à de tantas mulheres reais de gerações anteriores, que, fora do casamento, mesmo que desastroso poucas alternativas tinham para sua vida e de seus filhos. A bravura de Hattie e a postura rígida adotada na criação dos filhos resgatou a lembrança de minha bisavó – mãe de Dona Peró – que, tendo ficado viúva com dez filhos para criar, um dos quais recém-nascido, foi obrigada a enfrentar a realidade, trabalhando muito para sustentá-los e adotando uma atitude implacável, como única via por ela imaginada para conservá-los no “bom caminho”.

Minha bisavó, assim como a personagem do livro, dedicou-se durante toda a vida aos filhos. As circunstâncias de sua vida (filhos, viuvez, pobreza) obrigaram-na a “vestir” uma armadura. Agindo rigidamente, ela repartia o alimento, as roupas, as tarefas. Depois de trabalhar durante todo o dia e cuidar de tantas crianças, já não sabia como ser doce. Enfrentou a rebeldia de muitos filhos, que não compreendiam o seu esforço. O seu cansaço e abatimento nunca significou ausência de amor maternal. Como ela, muitas mães cuidam sozinhas de seus filhos, seja em razão de uma viuvez precoce, de uma separação difícil ou das próprias circunstâncias do nascimento de seus rebentos. Cada uma a seu modo assume integralmente a responsabilidade pelos filhos, amando-os, protegendo-os, formando-os.

Ao chegar o mês de maio, vemos, para todos os lados, imagens e vídeos de mães e filhos. As redes sociais se enchem de lindas fotos, os filhos declaram o imenso amor que nutrem por suas mães, outros recordam saudosos as mães que já se foram. Não sou diferente. Também costumo me empolgar nesse período. Dessa vez, fui tomada por uma reflexão diferente: é fácil falar em dia das mães em termos comerciais, incentivar a compra de presentes, a celebração em almoços especiais. Quem lembra, porém, das mães pobres que não têm como alimentar os filhos? Daquelas que não conseguem trabalhar por não terem com quem deixá-los, que da maternidade poucas alegrias podem extrair, diante da falta de perspectiva para suas vidas e de seus rebentos? Ser mãe é uma dádiva, mas não é uma tarefa fácil. Traz muitas alegrias, acompanhadas de uma infinita preocupação com o bem-estar dos filhos. Se esse sentimento é comum a todas as mães, ainda mais opressivo se torna quando não há com quem dividir responsabilidades.

Definitivamente, ser mulher, chefe de família, única responsável pelo sustento e formação dos filhos não é tarefa para os fracos. A homenagem hoje é especialmente endereçada à minha bisavó e a todas as mulheres que, por qualquer motivo, cumprem o duplo papel de mãe e pai de seus filhos.

2 thoughts on “Mãe e pai, ou “As doze tribos de Hattie”

  1. Como sempre , perfeito !! Acho que tem muito do DNA de vovó na sua filhota , Lucinha !! Márcia escreve super bem . Tem o dom de fazer o leitor ter vontade de que o texto não acabe … Adoroooooo

  2. É linda homenagem que você faz à sua bisavó materna…
    A grande responsabilidade de criar e educar dez filhos sem nenhuma ajuda fez dela uma pessoa muito dura; muito severa!
    Custou muito para que eu entendesse que ela não era má, ao contrårio; era uma pessoa muito boa.
    Precisava se impor. Até porque, criou filhos em uma época em que não havia tanta permissividade como hoje. As moças tinham que se manter castas para que encontrassem um bom casamento. Era para isso que se criava filhas!
    Minha avó criava as filhas e os filhos ensinando- os a trabalhar. Ela queria que os seus filhos fossem pessoas de bem; honestas e decididas, iguais a ela.
    Quando a minha avó chegou a uma idade em que já não precisava se preocupar em mostrar-se tão rígida, pois os filhosj já estavam criados… Se tornou uma pessoa doce, amorosa, e compreensiva com os bisnetos!
    Minha avó Nonô foi uma heroína!
    Parabéns, Márcia. Sua bisa lhe adorava!

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