Lugar de mulher

A discussão sobre o papel da mulher na sociedade tomou fôlego nessa semana em razão de uma reportagem da revista Veja que retrata a esposa do vice-presidente Michel Temer e gerou uma forte reação nas redes sociais. A matéria foi considerada machista por vincular o conceito de mulher ideal às seguintes características: “bela, recatada e do lar”. Algumas ideias vêm à mente.

Em primeiro lugar, não há crítica a se fazer à mulher bonita, àquela mais reservada ou à outra que se dedica exclusivamente aos cuidados do lar e da família. Que utilidade teria tanta luta por liberdade se as escolhas possíveis fossem limitadas? A discussão que se trava, portanto, não representa crítica às escolhas de Marcela Temer. Onde está o problema, então?

Vamos começar pelo primeiro adjetivo: bela. O belo sempre fascinou o ser humano e seu conceito sofreu algumas variações ao longo dos séculos. O texto de hoje, porém, não se volta ao estudo filosófico da estética. Estamos falando de nosso cotidiano em que o culto à beleza é um fardo imposto às mulheres. Não importa o quão inteligente, bondosa, educada ou bem-sucedida seja, a mulher permanece sendo avaliada em função de seus atributos estéticos. E mais: essa exigência recai apenas sobre a parcela feminina da população. Aliás, a grande maioria dos homens que julgam as mulheres exclusivamente em função de  sua aparência não passaria pela mais rasa seleção estética. Cultivam barrigas protuberantes enquanto classificam as mulheres, utilizando expressões grosseiras. Infelizmente, é um comportamento disseminado na sociedade, compartilhado por ricos e pobres, cultos e ignorantes. Lembro ter ouvido, há cerca de quinze anos, a infame piadinha: “Quando a menina estava para nascer, Deus perguntou: você quer ser juíza ou quer ser bonita?” A piada sexista era contada por alguns magistrados que certamente não dispunham de espelho em suas casas. Sejamos sinceros: a beleza agrada. É, sem dúvida, uma qualidade. Os belos são admirados por isso. As mulheres também admiram os homens bonitos, como é o caso de Gianecchini ou Cauã Reymond. O que não dá é para se replicar um pensamento materialista e superficial que julga o ser humano exclusivamente em função de sua aparência.

O que vem a seguir? Recatada. “Em que sentido foi utilizada a palavra recatada?”, perguntou minha mãe. Pensemos a respeito. Recatada seria a mulher que não bebe nem fuma, que não dá vexame em festas, que não se expõe, que não usa minissaia, que não dança funk e pagode, que não usa biquini fio-dental? Ou recatada seria a mulher que não interrompe a conversa dos adultos, não discorda de seu homem em público (e talvez nem em particular), que não emite suas opiniões? Seja lá o que se queira conceituar assim, esse tão elogiado recato faz pensar nas sociedades islâmicas e no papel nelas reservado para as mulheres. A se permanecer no culto a pensamento tão repressor, em breve estaremos cogitando o uso das burcas, símbolo supremo do recato. Não muito distante de nós, penso em todos os casos de estupro em que se atribui responsabilidade à vítima, em razão da roupa que vestia. Ora, tal argumento irracional tenta minimizar ou justificar o comportamento do ser incapaz de se conter diante da recusa feminina. Vestir minissaia ou dançar numa festa não significa convite ao sexo. Eventualmente, pode até significar, desde que haja mútua concordância. Se não for assim, não haverá como se distinguir os homens dos animais selvagens. Vivemos em uma sociedade ocidental, moderna, que tem a liberdade como um se seus maiores valores. Sendo assim, no exercício dessa liberdade, cabe à mulher, e apenas a ela, decidir se quer ser ou recatada, ou não.

Vamos ao terceiro ponto: do lar. Durante toda a sua vida, a minha mãe dedicou-se à casa e à família. Ela é o que se convencionou chamar de “uma mulher do lar”. Ela deu muita sorte nessa loteria, pois, ao desistir de seguir os estudos, optando pela vida doméstica, arriscou-se a uma vida de muita infelicidade. E se meu pai não fosse, como é, um marido amoroso, um provedor responsável, um pai maravilhoso, uma amigo compreensivo? E se ele fosse um mulherengo, perdulário, ou algo do gênero? Qual teria sido o destino dela? Ela conta que, na época em que abandonou os estudos, meu avô ficou muito triste, pois desejava que ela, como a irmã, frequentasse a faculdade, tivesse uma profissão. Bem, ela foi protegida por Deus, que colocou um anjo chamado Ronaldo em seu caminho. E, apesar do êxito em sua escolha por uma vida doméstica, minha mãe sempre incentivou e aplaudiu a minha independência.

Uma das melhores amigas de minha mãe era Telma, vizinha no prédio em que morávamos na década de 80, mulher independente, profissional liberal, que gostava de fumar, beber e foi provavelmente a primeira pessoa divorciada que conheci. A amizade delas permanece até hoje e muitas vezes penso na coragem de Telma que, nos idos dos anos 80, enfrentou preconceitos para escolher os caminhos que desejava seguir, não se conformando com o roteiro previamente traçado para sua vida. Telma e Lucinha formavam uma dupla inusitada. Lucinha, a tranquila dona-de-casa. Telma, a aguerrida profissional. Ambas mulheres, mães, filhas. Ambas lutadoras, sempre respeitando as escolhas e pontos de vista da amiga.

Hoje em dia é difícil encontrar mulheres como minha mãe, dedicadas apenas à casa e à família. Ou talvez a minha vida não propicie tais encontros. As minhas amigas, como eu, escolheram suas profissões e a elas se dedicam. São médicas, dentistas, arquitetas, engenheiras, advogadas, juízas, professoras, contadoras, empresárias, jornalistas, servidoras públicas. Algumas são belíssimas. Outras, nem tanto. Algumas são recatadas, tranquilas. Outras, espevitadas. Do lar, acho que nenhuma. Quando penso em cada uma delas, vejo o retrato da bravura, da coragem que a todas anima e impulsiona, desde as mais idosas, como Dona Wanda, que, ficando viúva após os 50 anos, decidiu voltar aos estudos e formar-se em Direito, até as mais jovens, como minha filha e suas amigas, conscientes que são de que a defesa dos direitos femininos vai muito além da mera queima de sutiãs. Enfim, sem importar a idade, classe social, grau de escolaridade, cor, religião,  lugar de mulher é onde ela quiser estar.

3 thoughts on “Lugar de mulher

  1. Muito lúcido esse seu comentário, Márcia, principalmente no que toca ao direito de escolha que o ser humano deve ter! É mais um brado contra a intolerância!

  2. Marcia você falou e falou tudo como sempre!
    Realmente lugar de mulher é onde ela se sinta bem.
    Eu por exemplo fiz engenharia civil em 1971, quando poucas mulheres faziam esse tipo de carreira, pois era tida como profissão de homem rsrsrs
    Trabalhei alguns anos e depois tive que me ausentar uns tempos da profissão para “cuidar” da minha sogra que se encontrava doente , mudando com meu marido para a casa dela, pois só tinha filhos homens, o que me levaram 4 anos e poucos meses de afastamento da profissão, tempo que durou a doença dela vindo a falecer.
    Durante essa jornada perdi duas gravidez e engravidei de minha filha Nanda a qual tinha 1 aninho e 11 meses qd a vovó faleceu.
    Resolvi dar um tempo a mais para ter mais tempo com a minha filha que era ainda tão pequena qd tudo aconteceu.
    Assim qd minha filha já estava com 9 anos meu marido e eu fomos convidados para trabalhar no saneamento da cidade de Imperatriz no Maranhão o que me trouxe de volta a profissão.
    Porem mais uma vez tive que deixa-la de lado para irmos morar em Brasilia onde meu marido iria tb a trabalho e eu não.
    Lá compramos uma agência de viagem a qual eu tomava conta.
    Voltando para Salvador 5 anos depois coloquei uma empresa a qual tb fechei a uns anos atrás .
    Hoje em dia não exerço mais a profissão.
    Realmente minha mãe Wanda após os 50 anos fez faculdade de Direito pois era um sonho dela mas não exerceu a profissão, o que não tira o mérito dela nesse sonho realizado.
    Hoje exerço a profissão melhor do mundo …. sou vovó de duas coisinhas lindas meu neto Bernardo 8 anos , e Marina 3 anos.
    Bjs

  3. Pois é…
    Lugar de mulher é onde ela quiser ficar!
    Sou muito feliz no lugar que escolhi estar. Faria tudo de novo!
    No seu texto você expressa o sentimento de todas nós. Não importa qual tenha sido a opção de cada uma!
    No mais, quero repetir o que sempre digo: Lhe adoro e tenho muito orgulho de você!
    Beijos!

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