O real valor das coisas

Tenho plena consciência do quanto sou abençoada e privilegiada. Embora enfrente dificuldades em meu cotidiano, sei que elas não se comparam às situações dramáticas enfrentadas por tantas pessoas ao redor do mundo. Não gosto de supervalorizar os obstáculos ou limitações que enfrento, pois a minha vida é completa, com paz, amor, saúde e conforto material.

Todavia, quando fui à última sessão de massagem, avisei a Beto que haviam “nós de marinheiro” em minhas costas. Dizer que a tensão está relacionada ao trabalho é mentira. Sim, temos metas a cumprir, planos de produtividade, prazos a serem obedecidos, limitações em recursos humanos e materiais, cobranças externas. Mas lidar com essas dificuldades faz parte do trabalho, assim como traçar as estratégias para extrair o melhor resultado dos recursos disponíveis. E, apesar dos obstáculos, temos tido sucesso, graças a muito trabalho e organização.

Se não é o trabalho, seria o stress provocado pelo trânsito, pela correria da cidade grande? Olha, se eu disser que sim, novamente estarei mentindo. Eu enfrento congestionamentos quase todos os dias, sendo que alguns bastante longos. Aprendi, contudo, a converter os minutos ou horas de tensão em momentos de lazer. Em meu carro tenho sempre dois ou três CDs muito bons, que ouço em meus deslocamentos pela cidade. Se hoje estou meio desanimada, coloco um disco velhinho de Edson Cordeiro, cantando sucessos da disco music dos anos 70, e já começo a sorrir. Se acordei muito zen, posso ouvir qualquer coisa. Na semana passada, escutei Chico Buarque ao vivo. Às vezes ouço Beatles, às vezes Haydn. Ah! E, para evitar atrasos, sempre planejo meus horários com bastante folga e saio de casa com antecedência. Ou seja, o trânsito não me estressa.

E as dificuldades da economia? Ora, todos temos de enfrentá-las. A nossa primeira reação é de indignação. E como não seria assim, ao ver o quilo do tomate cotado a quase dez reais? O custo de vida, porém, é uma realidade com a qual precisamos lidar, programando despesas, contendo gastos desnecessários, evitando desperdícios, ou seja, planejando a vida. Bem, a meu favor conta o fato de não ser uma pessoa muito materialista. Gosto de conforto, como todos, mas não me importo com luxo. O glamour não me seduz.

Então, de onde vem o stress? A família vai bem, obrigado! Na verdade, eu tirei a sorte grande ao nascer em minha família e crescer rodeada de tanto amor. Tenho a filha mais maravilhosa que pode existir, muito melhor e mais amiga do que eu poderia desejar. Moro perto de meus pais, sempre prontos a receber e distribuir amor. Tenho irmãos que são verdadeiros prêmios. E um namorado feito sob medida para o meu coração. A tensão não vem daí.

Foi um exame de rotina tirou a minha paz de espírito. Ao longo de quase dois meses, entre a consulta com a médica e o resultado da biópsia, senti como se minha vida tivesse sido revirada. Ao final, a cirurgia foi um sucesso, os exames foram favoráveis, mas acumulei trezentos nós de tensão em minhas costas. Milhares de pensamentos tenebrosos apareciam e iam embora. Fiz um exame de consciência, buscando entender de onde vinha esse medo. Talvez do fato de ter perdido a minha avó paterna, ainda jovem, em decorrência de um câncer. Esses pensamentos martelavam em minha cabeça, mesmo quando eu ouvia música, assistia a um filme, ou tentava me concentrar no trabalho. E, no fundo, eu própria achava que estava fazendo tempestade em um copo d’água. Reconheço o exagero em minha reação, porém não conseguia controlar meus sentimentos.

E, se extraímos lições de tudo na vida, o que aprendi? A primeira coisa é que jamais devemos nos descuidar da saúde. Se mesmo fazendo exames regularmente é possível surgir alguma coisa inesperada, o que dizer quando nos descuidamos do corpo? A segunda lição é  que é preciso ter consciência da importância da amizade, da família, dos relacionamentos que cultivamos ao longo da vida. E saber que podemos perder tudo e ainda assim permanecermos ricos, se nos restar saúde, paz e amor. E a terceira lição é que a vida existe hoje, no momento presente. O futuro, ninguém sabe como será. Devo buscar viver com responsabilidade, mas sem adiar a felicidade para amanhã. Sem postergar a alegria para “quando“: quando concluir a faculdade, quando casar, quando os filhos crescerem, quando comprar uma casa, quando

Bem, o susto passou. Agora, como dizem os garotos,  “tá tranquilo, tá favorável”. Vamos à vida!

3 thoughts on “O real valor das coisas

  1. Márcia boa noite
    Lhe escrevo do Hospital Aliança pois estamos eu ,meu marido e uma galera acompanhando os exames de meu marido, por causa de uma dor de cabeça e tontura os quais a equipe está desconfiada pelas tomografia e ressonâncias de uma inflamação no cérebro bem perto a calota craniana, graças a Deus, zona favorável .
    Olha só ele vence todas as batalhas uma a uma com muita maestria .
    É transplantado renal em SP desde 2001 (com 47 anos) depois de passar 1 ano e meio fazendo hemodiálise, enfartado não 1 vez mas 3 vezes tem stent para completar surge muitos cânceres de pele os quais retira , por causa dos imuno supressores que toma para o transplante que tb causou diabetes 2 .
    Tudo isso acompanhado de tomar 23 comprimidos por dia e a Lantus , os quais , acredite, ele nem sabe direito nem faz questão de saber os nomes pois eu sou quem entrego 16 pela manhã e 07 à noite com um copo de água ou suco e ele ingere.
    Trabalha todos os dias com o maior prazer , fazendo o que gosta , é engenheiro civil , tem uma fábrica de argamassa , ama o que faz tem funcionários queridos e fiéis que compactuam com a força de trabalho que ele tem .
    Mas , o que há de melhor , não se abate por nada,
    É uma pessoa fantástica de bem com a vida é muito querido por todos que o conhece.
    Passeia, viaja, curte nossos netos , nossa filha enfim a família e diz :
    “Ainda tenho muito o que viver!”

  2. Oh minha filha querida…
    “Tá tranquilo, tá favorável”!… Sigamos nossa vida, com muita fé em Deus! Ele é amor é paz é vida… Ele é tudo!
    Te amo!

  3. Belo texto Márcia!
    Você expressou muito bem a insegurança que sentimos quando surge algo inesperado.
    A fé nos dá forças para vencermos os obstáculos.
    Beijos.

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