Em uma manhã de domingo

No início da manhã, nuvens cinzentas prenunciavam um domingo chuvoso. Contudo, em pouco tempo, o sol surgiu resplandescente e o céu tornou-se azul. Será um domingo de muito calor, sem dúvida alguma.

Com o dia claro, planejamos um domingo na praça, aproveitando o projeto que, quinzenalmente, traz uma feira de artesanato e comidas para uma pracinha de Salvador. Hoje, além de atividades físicas, como Ioga e Fit Dance, e as tradicionais brincadeiras infantis, há uma ampla programação musical, com DJ, roda de choro e a banda Scambo. Para almoçar, estamos de olho na deliciosa comida de guerrilha…

Enquanto a hora do almoço não chega, a manhã de domingo vai avançando preguiçosamente. E hoje amanheci desejando ouvir samba. Depois de Clara Nunes, Beth Carvalho, acabei voltando à minha querida Elza Soares – e não por acaso, cantora favorita de minha filha – e ao seu último CD, “A mulher do fim do mundo”. Em janeiro tivemos a oportunidade de assistir ao show, no teatro Castro Alves, e, mais uma vez, fomos tomadas, eu e minha filha, pela forte emoção provocada por sua voz e presença.

A emoção começa com “Coração do mar”, poema de Oswald de Andrade, musicado por José Miguel Wisnik:

Coração do mar
É terra que ninguém conhece
Permanece ao largo
E contém o próprio mundo
Como hospedeiro
Tem por nome “Se eu tivesse um amor”
Tem por nome “Se eu tivesse um amor”
Tem por nome “Se eu tivesse um amor”
Tem por nome “Se eu tivesse um amor”

Tem por bandeira um pedaço de sangue
Onde flui a correnteza do canal do mangue
Tem por sentinelas equipagens, estrelas, taifeiros madrugadas e escolas de samba

É um navio humano quente, negreiro do mangue
É um navio humano quente, guerreiro do mangue

Mas não para aí. Sempre surpreendente, Elza encarna uma verdadeira rock star, em “Luz Vermelha”, de Kiko Dinucci e Clima, que poderia integrar o repertório de uma banda de heavy metal:

Telhado agora é porão tira de cima de mim esse pedaço de pedra
Me dá um abraço que o chão se abriu debaixo de nós e até o coxo tropeça
Bem que o palhaço falou que o laço vai se fechar e o laço sempre se fecha
Bem que o anão me contou que o mundo vai terminar num poço cheio de merda

Quem tinha tudo na mão quem não prestou atenção quem tem tamanco não sobra
Quem tem cabeça, pulmão bexiga, rim, coração já vai pulando na cova
Quem é doente do pé? O pai de todos quem é? Cadê o rei da cocada?
Tá na quebrada quebrou e o mundo todo afundou no dia da pá virada

Do meio-dia no meio do tiroteio
Me deu receio do feio que veio lá
De ficar velho no meio do mundo inteiro
Me deu receio da bomba que vou soltar

Quem tem cadarço não sobra
Quem tem um pão pra comer
Quem tem cadarço não sobra
Meu amor
Meu amor

Olha não tem ninguém na rua
Não vi ninguém no açougue
Não tem ninguém lá pra abandonar
Olha não tem ninguém na praça
Só tem um sol sem graça
Não tem ninguém para ver e contar

Não podemos esquecer a maravilhosa performance em “Benedita” – composta por Celso Sim e Pepê Mata Machado – falando em travestis e crack:

Benedito não foi encontrado
Deu perdido pra tudo que é lado
Esse nego que quebra o quebranto
Filho certo de tudo que é santo

Benedito e uma fera ferida
Traz na carne uma bala perdida
Uma bala de prata guardada
Pro meganha incauto, arremata
Arremata, arremata, arremata

Ele que surge naquela esquina
É bem mais que uma menina
Benedita é sua alcunha
E da muda não tem testemunha

Ela leva o cartucho na teta
Ela abre a navalha na boca
Ela tem uma dupla caceta
A traveca é tera chefona

Benedita da zona é o crack
(É o crack, é o crack, é o crack)
A policia milícia o choque
Na surdina preparam o ataque
(É o crack, é o crack, é o crack)
Ela jura que era um achaque
Na bocada os cliente só rock
Ela morre ela, ela mata, ela é craque
(Ela é craque, ela é craque, ela é craque
Ela é craque, craque, craque)

Homicida, suicida, apareceu, aparecida
É maldita, é senhora, é bendita, apavora
Vem armada, não rendida, faz do beco sacristia
Crack agora, não demora, joga a pedra, nessa hora

E a favorita é, sem dúvida,  “Maria da Vila Matilde” (composição de Douglas Germano), que já se tornou um hino contra a violência doméstica, apresentando uma mulher valente, que enfrenta o agressor e exige respeito:

Cadê meu celular?
Eu vou ligar prum oito zero
Vou entregar teu nome
E explicar meu endereço
Aqui você não entra mais
Eu digo que não te conheço
E jogo água fervendo
Se você se aventurar

Eu solto o cachorro
E, apontando pra você
Eu grito: péguix guix guix guix
Eu quero ver
Você pular, você correr
Na frente dos vizinhos
Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim

Cadê meu celular?
Eu vou ligar prum oito zero
Vou entregar teu nome
E explicar meu endereço
Aqui você não entra mais
Eu digo que não te conheço
E jogo água fervendo
Se você se aventurar

Eu solto o cachorro
E, apontando pra você
Eu grito: péguix guix guix guix
Eu quero ver
Você pular, você correr
Na frente dos vizinhos
Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim

E quando o samango chegar
Eu mostro o roxo no meu braço
Entrego teu baralho
Teu bloco de pule
Teu dado chumbado
Ponho água no bule
Passo e ofereço um cafezim
Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim

Cadê meu celular?
Eu vou ligar prum oito zero
Vou entregar teu nome
E explicar meu endereço
Aqui você não entra mais
Eu digo que não te conheço
E jogo água fervendo
Se você se aventurar

Eu solto o cachorro
E, apontando pra você
Eu grito: péguix guix guix guix
Eu quero ver
Você pular, você correr
Na frente dos vizinhos
Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim

E quando tua mãe ligar
Eu capricho no esculacho
Digo que é mimado
Que é cheio de dengo
Mal acostumado
Tem nada no quengo
Deita, vira e dorme rapidinho
Você vai se arrepender de levantar a mão pra mim

Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim
Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim
Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim
Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim

Mão, cheia de dedo
Dedo, cheio de unha suja
E pra cima de mim? Pra cima de muá? Jamé, mané!

Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim.

Elza Soares não canta para trazer conforto. A sua música incomoda. O repertório é desafiador e denuncia o preconceito contra pobres, negros, mulheres…  Admiro a sua coragem artística e postura audaciosa, que não vejo em artistas mais jovens.

Nessa manhã de domingo, enquanto nos preparamos para o almoço na praça, ouvindo Elza Soares, ouço o papo-cabeça de minha filha, que, tão afinada comigo e reconhecendo seu gosto extravagante e inusitado, entre risos, solta essa pérola: “Ser filha de Márcia é ruim, mas ser mãe de Luíza é pior ainda”.

 

Uma ideia sobre “Em uma manhã de domingo

  1. Olá Márcia!
    Hoje está difícil comentar, mas… como estou sempre reaprendendo…
    Veja só, conheço Elza Soares faz tanto tempo… no entanto, são vocês – minha filha e minha neta- que me fazem enxergar o valor dessa fantástica intérprete!
    Sempre que você fala em Elza Soares fico encantada por ela!
    (Aqui você não menciona aquela música em que ela fala sobre a “carne negra”)
    Beijos!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

7 − 1 =