“Onde posso ver as crônicas?”

Venho de uma família numerosa. Embora tenha apenas dois irmãos, os meus avós, tanto do lado materno quanto do paterno, tiveram muitos filhos (oito e seis, respectivamente). Assim, são muitos tios e tias, primos e primas, maridos e esposas de todo esse povo, sem falar nos filhos e filhas dos primos. Não posso esquecer dos tios, tias, primos e primas de minha mãe. Mas não acaba ai, pois tenho imensa consideração e afeto pela família paterna de minha filha, que, por sua vez, é enorme. E não terminou ainda, pois o meu lindo namorado também tem uma família grande, tanto aquela em que nasceu, quanto aquela formada pelos parentes da mãe de seus filhos. E as famílias de minhas cunhadas, não conta? Conta, sim. É muita família… Pode não dar para encher a Arena Fonte Nova, mas lota um pequeno ginásio.

O resultado dessa vastidão familiar é que há sempre alguma coisa nova acontecendo. Tem sempre alguém nascendo, casando, fazendo vestibular… Graças a Deus, as mortes são mais raras, embora inevitáveis. E há gente espalhada pelo Brasil, desde o Paraná a Fortaleza, sem falar no garotão em intercâmbio na Carolina do Norte. Tem médico? Tem. Tem advogado? Tem. Tem policial? Tem. Tem bancário? Tem. Tem engenheiro? Tem. Tem professor? Tem. Tem dona-de-casa? Tem. Tem contador? Muitos. Tem agrônomo, nutricionista, fisioterapeuta, psicólogo, analista de sistemas, estatístico, servidor público… E tantas outras profissões que não tenho como lembrar. É um povo trabalhador.

Cada segmento tem suas características próprias. Tem aqueles que não levam desaforo para casa e estão sempre estremecidos uns com os outros, mas se amam demais e viram bichos para defender um irmão que julguem ofendido. Tem aqueles que só encontramos uma vez por ano, no dia da festa de Santo Antônio. Tem outros que só aparecem no aniversário de Dona Peró.

Ah! E essa senhora balança o coreto. Com seus noventa e três anos, está sempre a par de todos os acontecimentos, sempre conectada no Whatsapp. Ah, Dona Peró.. De tanto ficar “teclando” está sofrendo com dor na cervical. Depois dos oitenta anos, quando passou a morar com meus pais, não houve um dia em que não procurasse alguma coisa para se distrair: crochê, ponto de cruz, bolsas trançadas feitas com sacolinhas plásticas recicladas, palavras cruzadas… Como gosta muito de ler, um dia resolveu começar a escrever suas historinhas. E não parou mais: publicou dois livros de memórias. Na Quarta-feira de Cinzas, estive na casa de meus pais e a minha avó, muito preocupada, perguntava se daria tempo publicar o texto dela, pois ainda não havia sido digitado. Explico: minha avó prepara os manuscritos, que minha mãe digita e me envia por email. Tranquilizei-a, dizendo que, se não desse tempo incluir o texto da semana, eu já tinha outro material dela preparado. Deu tempo e minha “pérola pequenina” nos contou o que viu do Carnaval.

Durante toda a minha vida, sempre mantive contato próximo com pessoas idosas, algumas da família, outras apenas amigas. Meus pais sempre cuidaram para que convivêssemos com bisavós, avós. Sei, porém, que falho imensamente por não estar mais presente em suas vidas.

As lembranças que guardo de meu avô Sampaio, de meu avô Joubert, de minhas tias-avós Cota, Lurdes, Hilda, de Dona Zinha, de Dona Lalinha, de Dona Elza, são fruto das horas despreocupadas que dedicava a ouvi-los. As histórias rocambolescas que minha tia-avó Lurdes inventava para me divertir (“Juro por Deus que é verdade”), as rusguinhas de meu avô Sampaio com a “moça da farmácia”. Meu avô Joubert declamando Castro Alves, minha tia-avó Hilda não precisava fazer nada, apenas me olhar sorrindo. Minha mãe não entendia como eu podia gostar tanto dela, que sempre foi um tanto brava. Não sei, nossos corações se entendiam. Dona Lalinha, com seu medo de trovoada e uma queda por uma cervejinha gelada (“Quando vou em festa, não sento em mesa de velho porque o garçom não serve cerveja”). Minha tia-avó Cota sempre foi uma figura tão marcante em minha vida que nunca consegui escrever sobre ela, mas hoje vou falar de uma lembrança singela: o banho perfumado com alfazema que preparava amorosamente para seus hóspedes. Dona Elza faleceu antes de conhecer minha filha, sua bisneta. Foi uma pena, pois sempre fomos muito amigas. Quando a conheci, ela estava em seu quarto assistindo a um programa em que se apresentavam Zezé de Camargo e Luciano, ainda no início da carreira. Ela adorava…

Eram todos idosos, uns mais, outros menos. Mas, naquela época, a minha vida parecia correr mais lentamente e eu nunca pensei no tempo que dedicava aos meus “velhinhos” como um item na agenda. Por que, então, estar com a minha amada Perolina virou uma anotação no calendário, um compromisso a cumprir? Ela é doce, meiga, amorosa, divertida, antenada, bem disposta, criativa, conversadeira. Ou seja, ela é tudo o que sempre gostei em uma companhia. Por que, então, não estou com ela mais frequentemente? Gostou do desfile da Mangueira, vovó? Acha que o Bahia vai se sair bem no Campeonato Baiano? Ela adora ler e devora com avidez os livros que lhe chegam à mão. Será que ela gostou de “O sol é para todos”? Está sentindo calor neste verão? Conte mais de sua infância e de sua mocidade. Conte sobre Hilda. Adoro as histórias das duas irmãs, tão diferentes que parecem personagens de “Orgulho e preconceito”. Dona Peró já me disse que Hilda era voluntariosa como Elizabeth.

É isso ai. Vou mudar. Agora não vou mais anotar na agenda, não vou marcar dia para tomar café da manhã, nem programar almoço no domingo. Eu vou bater na porta sem avisar. Vou chegar de surpresa, correndo o risco de não encontrar ninguém em casa (“Fomos levar sua avó na fisioterapia”). Não quero nem saber. Não vou economizar amor. A minha casa vai ficar ainda mais bagunçada, mas paciência. Entre amar sem medida e ter uma vida perfeitinha, fico com a primeira opção.

Pode ir se preparando, Lucinha! Em qualquer dia, a qualquer hora, passo ai para beber um copo d’água, contar umas duas fofocas e dar um beijo em cada um. Porque o amor que você recebe é igual àquele que você oferece, já cantavam os Beatles.

5 thoughts on ““Onde posso ver as crônicas?”

  1. Máricia, eu me lembro dessa turma toda de saudosa memória e pontifico o meu tio Hamilton. Morávamos em São Bento, eu era adolescente e sempre tive sede de conhecimento. Pois bem, quando Hamilton chegava eu ficava atento para ouvir suas ideias a respeito da questão sionista; sua defesa intransigente aos palestinos; e toda a política mundial da época.
    Minha mãe pode confirmar.

  2. Márcia,
    Segue o comentário da sua avó Peró:

    “Márcia, Fiquei encantada com a sua história da família. Me fez balançar o coreto! Mesmo não sendo emotiva, quase choro!
    É verdade, seu avô recitava muito bem!
    Admiro muito sua inteligência. Jesus conserve!
    Te amo!
    Avó Peró! “

    • Lindo texto, Márcia!
      Incrível como a clareza de suas palavras penetra em nosso imaginário.Como é importante a validação da referência familiar.
      Embora não me faça presente sempre, também valorizo demais a família que tenho.

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