O retorno da resenha de livros

Durante os quatro meses em que estive afastada do blog, li muito menos do que pretendia. Na verdade, nem mesmo conclui a leitura dos livros relacionados em 29/03/2015: Lista de livros. Bem, eu também não obedeci rigorosamente à tal lista, pois alguns livros novos furaram a fila, por motivos variados.

Daquela relação, o que li até hoje? “O que o dinheiro não compra”, de Michael J. Sandel; “Judas”, de Amós Oz; “A senhora das águas”, de Philippa Gregory; “Dupla falta”, de Lionel Shriver; “A sangue frio”, de Truman Capote. Interrompi a leitura de “On the road”, de Jack Kerouac, li alguns livros não relacionados: “Crianças francesas dia a dia”, de Pamela Druckerman; “Objetos cortantes”, de Gillian Flynn; “A nova república”, de Lionel Shriver, e, atualmente, estou completamente absorvida pela leitura de “O pintassilgo”, de Donna Tartt. O saldo desses quatro meses? Li oito livros, além dos dois cuja leitura ainda não foi concluída (On the road e O pintassilgo). Restam, daquela lista, “Uma nova história do tempo”, de Stephen Hawking e Leonard Mlodinow, “A era do ressentimento”, de Luiz Felipe Pondé, e “Orlando”, de Virginia Woolf. Hoje inicio a resenha dos livros.

Há pouco menos de um ano, conversava com minha filha sobre educação de crianças, estabelecimento de limites, estimulação de bons hábitos e outros temas que as mães gostam de falar com os filhos que se aproximam da idade adulta. Afinal, a essa altura, o objetivo dessa conversa é orientá-la para a sua futura vida familiar. Em um de meus passeios aleatórios pela livraria, comprei esse livro : “Crianças francesas dia a dia”. É um livro pequeno (123 páginas), com 100 dicas para educar filhos à moda francesa. A autora traz sugestões práticas destinadas, dentre outras coisas, a ensinar paciência às crianças, fazê-las experimentar alimentos diferentes, encorajá-las a dormir a noite inteira, permitir aos pais uma vida social e momentos românticos a dois. Bem, a minha única filha já cresceu, o que esvazia a minha possibilidade de aplicação prática dos ensinamentos do livro, principalmente porque sempre acreditei que ninguém deve palpitar na educação dos filhos alheios, nem mesmo de netos ou sobrinhos. De qualquer maneira, fica a sugestão de leitura para quem deseja, ao menos, conhecer um pouco uma outra cultura e sua dinâmica. Ah! E ao final, o livro traz algumas receitas dos principais pratos servidos nas creches de Paris, como Saumon à la Creóle (salmão creole) ou Pomme au Four à la Cannele (maçã assada com canela).

“Objetos cortantes” foi escrito pela mesma autora de “Garota exemplar”, obra que não li, nem assisti ao respectivo filme. “Objetos cortantes” é um thriller psicológico e tem o jeito de livro feito para virar filme, o que talvez seja realmente o objetivo de sua autora. Pensando na relação entre literatura e cinema, existem grandes obras literárias que podem ser maravilhosamente adaptadas para o cinema. Mas alguns livros parecem ter sido escritos com o deliberado objetivo de virem a se transformar em filmes, o que parece ser o caso do livro em questão. Sei que os fãs da autora irão discordar, mas “Objetos cortantes” não me impressionou nem despertou o desejo de conhecer outros livros de Gillian Flynn. É uma boa história de suspense, envolvendo crimes, autoflagelação e traumas do passado, mas não considerei nada excepcional, principalmente levando em conta que eu havia acabado de ler “A sangue frio”, de Truman Capote. Talvez a minha má vontade com “Objetos cortantes” venha daí: do fato de ter sido comparado com outro livro muito, muito bom mesmo e que também trata de crimes, só que não ficcionais. De qualquer modo, fica a dica: para quem busca uma leitura ligeira e gosta do gênero de suspense, “Objetos cortantes” é uma sugestão válida.

Falando em escritoras norte-americanas contemporâneas, li, de abril para cá, dois livros de Lionel Shriver, “Dupla falta” e “A nova república”. Por conta de outros livros de sua autoria anteriormente lidos, sempre identifiquei uma característica em Shriver: a partir da abordagem de um tema amplo, aprofundar a discussão sobre delicadas questões familiares. É o caso de “O mundo pós-aniversário”, que trata de infidelidade, segurança e paixão, “Grande irmão”, que gira em torno de obesidade, relações familiares e amor fraternal, e “Precisamos falar sobre Kevin”, que se debruça sobre casamento, carreira, maternidade, maldade e responsabilidade.

Em “Dupla falta”, mais uma vez Shriver mergulha no interior de um casamento, trazendo uma questão que não recebe muita atenção ou é negada, para não ferir a ideia de união conjugal: a competição entre os casais, a inveja do sucesso de quem se ama. Os personagens principais são um casal de tenistas que busca ascender no ranking mundial. Todavia, como acontece muitas vezes na vida, tudo o que um dos membros do casal conquista com muito esforço e dedicação, parece cair do céu no colo do outro. Além do óbvio tema da inveja dentro da família, o livro traz outra questão muito interessante, relacionada ao talento.

Há duas semanas, eu citei Thomas Edison: “Talento é 1% de inspiração e 99% de transpiração”. O que dizer, então, daqueles que parecem não suar, para quem a habilidade física ou intelectual desenvolve-se em ritmo acelerado, exigindo menor dedicação ao treinamento? Não nego a importância da “transpiração”, da boa utilização dos talentos. Todavia, é fato que existem grandes talentos em todas as áreas, seja esporte, arte ou ciência. O que resta aos demais, não agraciados com tais dádivas? Apenas aceitar a desigual divisão de talentos e buscar o seu próprio caminho, sem medir seu ritmo de crescimento com seu par. Parece que estou fazendo um discurso contrário à competição. Não é o caso, pois o talento pode ser ultrapassado pelas conquistas da dedicação.

Muito se dizia que Romário detestava treinar, pois sabia de seu dom para o futebol. Ele simplesmente já sabia o que fazer e, por isso, dispensava ou evitava os treinos. Ora, o fato de Romário ter sido um grande jogador de futebol não significa que a dedicação e o treinamento podem ou devem ser dispensados, afinal, times campeões são formados por jogadores que se exercitam em grupo, coordenando passes e lançamentos, defesa e finalização. Que nos diga a seleção alemã de 2014…

Essa discussão sobre a distribuição dos talentos e o poder destrutivo da inveja são os temas centrais de “Dupla falta”, cuja leitura recomendo, como, aliás, ocorre com todos os livros de Lionel Shriver. Como gosto muito da autora, apostei na leitura de “A nova república”, livro escrito no final da década de 90 e apenas lançado recentemente. Há algo em torno da demora no lançamento desse livro que chama a atenção. Diz-se que ele não foi publicado na época em que foi escrito por conta da natural dificuldade encontrada por um escritor iniciante. Após o sucesso de “Precisamos falar sobre Kevin”, a autora passou a despertar o interesse das editoras. Todavia, com o ataque terrorista de 11 de setembro, os editores e a autora temeram que o lançamento de “A nova república” fosse interpretado como mero oportunismo, por ter o terrorismo como um de seus temas. Passaram-se muitos anos e finalmente o livro foi lançado.

Contrariando a temática comum à obra de Shriver (pelo menos o que conheço), “A nova república” não trata de relações familiares. E, embora adiado por tantos anos, o momento histórico e político atual renova a possibilidade de se falar em oportunismo, já que, além do terrorismo já mencionado, o livro trata da rejeição aos refugiados que buscam melhores condições de vida na Europa. Dá para acreditar? Não pode haver tema mais atual. No livro de Shriver, uma península ao sul de Portugal, chamada Barba, busca a sua independência, alegando que o governo de Lisboa não se importa com os problemas causados pela chegada dos refugiados marroquinos. Como sempre, Shriver nos envolve com a sua história, trazendo um personagem totalmente perdido: um advogado que abandonou a profissão para se tornar correspondente internacional e se mete na barafunda de Barba. A desconexão mental do protagonista alinha-se perfeitamente à confusão política retratada. A história de “A nova república” é, ainda, pincelada com toques de humor, apresentando um lado até então desconhecido na obra de Shriver.

Com isso encerro a primeira parte da resenha de livros. Até o final de setembro comentarei outros três livros, já que haverá um terceiro post literário, dedicado exclusivamente à resenha de “Judas”, de Amós Oz. Por fim, como não tardarei em concluir a leitura dos livros pendentes, já estou planejando a próxima lista de livros, que pretendo publicar em outubro, incluindo, se possível, as sugestões de amigos e leitores, que podem encaminhá-las nos comentários do blog. Antecipadamente agradeço a participação de todos. Até o próximo domingo!

3 thoughts on “O retorno da resenha de livros

  1. Márcia,
    As sugestões que você dá sobre livros são sempre muito boas!
    Desses, li PRECISAMOS FALAR SOBRE KEVIN! É um livro muito bom… que nos leva a refletir bastante sobre tudo! Principalmente sobre a decisão de colocar um Ser no mundo! O que deve ser feito com muita segurança e, principalmente muito amor!
    Beijos!

  2. Márcia, gostei muito das sugestões de livro, estou lendo um livro ”Dinastia” de Robert Elegant que fala dos ingleses na China em 1900 à 1970, uma trama maravilhosa.

    Bjs,

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

19 + 9 =