O regresso

Entre os anos de 1989 e 1990, a Rede Globo exibiu a novela Tieta, baseada na obra de Jorge Amado, e estrelada por Betty Faria. A história gira em torno do retorno de Tieta, expulsa do povoado de Santana do Agreste por seu pai, que não aceitava o seu comportamento liberal. Após vinte e cinco anos vivendo em São Paulo, Tieta volta à sua cidade natal em busca de vingança. A partir daí, o enredo se desenrola.

A trilha sonora da novela era belíssima, valendo a pena mencionar algumas das músicas: “Tenha calma”, com Maria Bethânia, “Tudo o que se quer”, com Emílio Santiago e Verônica Sabino, “Alguém me disse”, com Gal Costa, “No rancho fundo”, com Chitãozinho e Chororó, “Luar do sertão”, com Roberta Miranda, “Cadê o meu amor”, com Quinteto Violado, dentre muitas outras… Havia, também, uma linda canção interpretada por Fafá de Belém, chamada Coração do Agreste:

“Regressar é reunir dois lados
À dor do dia de partir
Com seus fios enredados
Na alegria de sentir
Que a velha mágoa
É moça temporã
Seu belo noivo é o amanhã
Eu voltei pra juntar pedaços
De tanta coisa que passei
Da infância abriu-se o laço
Nas mãos do homem que eu amei
O anzol dessa paixão me machucou
Hoje sou peixe
E sou meu próprio pescador
Rio, voltei no curso
Revi o meu percurso
Me perdi no leste
E a alma renasceu
Com flores de algodão
No coração do agreste
Quando eu morava aqui
Olhava o mar azul
No afã de ir e vir
Ah! Fiz de uma saudade
A felicidade pra voltar aqui”

Todo regresso vem acompanhado de alguma forma de reflexão, mesmo que não deliberadamente. Pode significar recomeço, renovação, mudança, resgate. Ou apenas a retomada de uma trajetória interrompida. As lembranças trazidas à tona com o retorno afeta até a mais superficial das pessoas. A reação varia, portanto, de acordo com a personalidade de cada indivíduo. Os mais sensíveis abalam-se mais ao lidar com as recordações, principalmente se forem dolorosas.Os menos sentimentais racionalizam os fatos passados, comparando-os ao momento presente. Com o regresso, todos vivem a experiência de atar dois instantes da vida: antes e depois da partida.

Comigo as coisas não podem ser diferentes. Durante a minha vida, já lidei com mudanças variadas, fazendo parte do time dos pouco sentimentais, já mencionados acima. Pois bem, há quatro meses publiquei o último post deste blog. Hoje volto às minhas publicações semanais, sempre aos domingos.

No princípio, pensava que o silêncio era provocado pela falta de tempo, pelo acúmulo de atividades profissionais e domésticas. Logo percebi que não era verdade, pois havia tempo ocioso. Passei, então, a acreditar que havia sido atingida pelo fantasma que assombra quem se dedica a escrever: falta de inspiração, vácuo criativo, vazio mental. Mais uma vez convenci-me de que não era bem assim, pois continuava cheia de ideias, inclusive para bons posts. pensava em vários temas, prontos a serem desenvolvidos, trabalhados, finalizados. Por que, então, parecia tão difícil voltar a escrever? Conclui que a real carência era de vontade de escrever. E só.

Pois bem, afinal de contas, qual foi o motivo da interrupção das publicações? Falta de tempo, inspiração ou vontade? Qual é a diferença entre as três justificativas? Usamos muitas desculpas “nobres” para não assumir que alguns projetos são abandonados apenas por não termos vontade de prosseguir.

De fato, soa corriqueiro dizer que deixei de escrever por estar muito atarefada com o trabalho, com minha família, minha saúde, minha casa, o que for. Não vou fazer isso. A falta de tempo é a desculpa mais comum para não a realização de atividades. “Ah! Estou sem tempo para atividade física, para voltar a estudar, para cuidar melhor de minha alimentação, para limpar minha casa, para ler historinhas para meus filhos, para escutar as histórias de meus pais ou avós…” Todos dizem que falta tempo, o que é amplamente aceito: “Tadinho… Ele queria muito fazer isso, mas está tão sem tempo…”

Dou o exemplo da atividade física. O que diz o cardiologista? Não precisa ir à academia para se exercitar. Pode se movimentar ao ar livre, em casa… Caminhada vale como exercício. E não precisa ser muito longa, bastam trinta minutos diários. Se o dia estiver muito corrido, que tal acordar um pouco mais cedo e fazer alguns movimentos em casa mesmo? Ou colocar uma música gostosa e dançar à noite, antes de tomar banho e dormir?

A vida passa enquanto o tempo é esbanjado com atividades vazias. Perdemos horas, minutos, segundos…  Esse patrimônio raro – o tempo – é dedicado ao que nos importa verdadeiramente ou desperdiçamos horas plantados em frente à TV, ou nas redes sociais? Enfim, a falta de tempo só pode ser aceita como justificativa plausível se a pessoa em questão mantém distância de televisão, internet e smartphones. Ou seja, quase nunca. Em regra, a falta de tempo é apenas a desculpa mais banal para não realizar alguma coisa.

Passo ao segundo motivo alegado: falta de inspiração. Eis uma questão que merece um pouco mais de atenção. Afinal, é de se pensar que a atividade de criação brota magicamente das mentes de pessoas inventivas. Sem querer me auto-classificar como inventiva, mais uma vez discordo. Atribuem a Thomas Edison, inventor da lâmpada elétrica, uma frase muito boa: “Talento é 1% de inspiração e 99% de transpiração”. Ele teria, ainda, dito que “a oportunidade é perdida pela maioria das pessoas porque ela vem vestida de macacões e se parece com trabalho.”

Não estou negando que a inspiração exista. Creio que todas as pessoas, mesmo aquelas que não se envolvem em projetos criativos, já experimentaram, em algum momento, o sopro mágico, revelador, que traz respostas às perguntas não formuladas. É o instante da inspiração. Parece evidente que essa magia não é permanente. O que fazer após o retorno desse reino encantado? É o momento de seguir o conselho de Edison: vestir o macacão e por as mãos à obra. Considerado um dos maiores inventores da história, Thomas Edison sempre fez questão de creditar o seu êxito ao trabalho árduo, aos repetidos testes, à investigação de todas as possibilidades, à aceitação dos erros e à persistência. 1% de inspiração e 99% de transpiração. Pensando assim, a falta de inspiração também não justifica o temporário abandono do blog.

Chegamos, portanto, à última hipótese: a falta de vontade. Partindo de uma definição bem concisa, segundo o dicionário Michaelis, a vontade é “a principal das potências da alma, que inclina ou move a querer, a fazer ou deixar de fazer alguma coisa”. É isso. para escrever, é preciso querer. Por meses, perdi a vontade de escrever. Aquele instinto que me movia a ocupar quase todo o tempo livre entre pesquisas e redação evaporou-se. Aconteceu subitamente, tal como, há um tempo atrás, perdi a vontade de praticar exercícios ou de zelar por minha alimentação.

Por ai vemos o quanto a vontade é poderosa, embora nem sempre benéfica. Comer errado e ficar sem fazer exercícios causou alguns danos à minha saúde, felizmente reversíveis. Fui obrigada a retomar a atividade física e a observar atentamente a alimentação, não por vontade, mas por necessidade. Eis o contraponto. As nossas ações ora são movidas pela vontade, ora pela necessidade. É preciso equilíbrio. Não podemos, portanto, ser escravos da vontade, sob pena de descuidarmos do que é necessário.

E eis-me aqui, divagando, divagando… Porque a vontade me fez voltar a escrever, retomando as publicações neste blog tão querido. Obrigada aos leitores que não desistiram de mim. Até o próximo domingo.

4 thoughts on “O regresso

  1. Querida, que bom que voltou a escrever. Estava sentindo falta das suas belas publicações.
    Parabéns pelo retorno.
    Um forte abraço
    Lindoia

  2. Márcia,
    Foi com grande alegria que descobri seu retorno… que bom!…
    Seu texto muito inteligente, como sempre acontece!
    Não importa qual foi o motivo que a fez parar!… O importante é que voltou!
    Te amo!

  3. Márcia ainda bem que voltou a escrever , estava sentindo falta….
    Falou muito bem e correto sobre a “parada” que fez ….
    Bjs
    Marilu

  4. Oi Márcia,o seu retorno sempre tem sabor de quero mais, falar em retornar sempre é renovar e descamar nossa vida, para mim é como tirar a pele e partir para modificar sempre, cada vez que retorno me torno um ser algo melhor de mim, então fico mil a frente do tempo, na qual sempre surpreendo minha família, agora estou passando por algo, que está dando o que falar, mas lá na frente meus netos dirão essa é minha avó, avançada para época, inovadora desbravadora, ousada e sempre quebrando os paradigmas , falem de mim sou assim que vou fazer! Bjs, querida feliz retorno!

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