Descartes e o cinema

Em fevereiro, li apernas um livro: Cinefilô, de Olivier Pourrioul, que se propõe a apresentar a filosofia de Descartes e Spinoza através da análise de filmes. De modo empolgante, Pourriol investiga em profundidade os conceitos filosóficos ocultos em filmes de ação, como Highlander, Colateral e Clube da luta. Sou suspeita, pois tanto cinema quanto filosofia são assuntos que se atraem. Sendo assim, recomendo a leitura a todos.

Segundo Descartes, a condição humana está relacionada a duas faculdades espirituais: o entendimento, que é essencialmente finito, e a vontade, esta infinita. Eis o dilema: o conhecimento, por ser finito, jamais poderá acompanhar a vontade, que é, por natureza, ilimitada. Qual seria a solução? Para Descartes, depois de esgotados os limites do conhecimento, à vontade cabe a solução para as ações a serem adotadas. Ou seja, como dito por Alain (pseudônimo de Emile Chartier, filósofo, jornalista e professor francês), o segredo da ação é engajar-se nela. Ou seja, uma ação torna-se correta muito mais em razão do quanto perseveramos nela do que do teor da escolha realizada.

Além do conhecimento finito, há uma outra variante a ser considerada nessa equação: a potência. É sabido que apenas Deus é onipotente. Sendo assim, além do conhecimento, também a nossa potência é finita. Cada escolha implica, portanto, em alguma renúncia, em razão dos próprios limites já mencionados. Pourriol apresenta um excelente exemplo cinematográfico de tal conflito. No filme O sentido da vida, o grupo inglês Monty Python apresenta uma cena em que um homem obeso vai a um restaurante chinês e, incapaz de escolher, devora todas as opções de um cardápio quase ilimitado. A cena é repulsiva, por sua natureza escatológica: o homem tanto come e bebe quanto vomita para poder continuar a comilança, até que literalmente explode após o último bombonzinho de menta.

Vemos assim retratada, com tintas fortes, a importante questão filosófica levantada por Descartes. Estando limitados em nossa potência e conhecimento, as nossas escolhas, como expressão de nosso querer infinito, devem ser a manifestação de nossa liberdade: existindo uma grande variedade de escolhas possíveis, a decisão por apenas uma das alternativas não representa a negação das demais, mas a expressão do bom uso da liberdade.

Pobre homem, condenado a desejar infinitamente, embora limitado por sua força e entendimento… A vida é, porém, muito mais complexa do que um cardápio de restaurante chinês, pois as possibilidades não estão relacionadas em um menu. Na maioria das vezes, ser livre significa imaginar as opções, muitas das quais nunca apresentadas, para, então, escolher. Por fim, o problema relacionado à escolha não acaba ai, pois a vontade não pode ser substituída. Não podemos delegar nossas escolhas. Afinal, uma escolha só pode ser razão de orgulho quando realizada livremente.

Ainda navegando em mares cartesianos, Pourrioul nos apresenta o Discurso do Método.

O primeiro preceito do método de Descartes consiste em “não aceitar coisa alguma como verdadeira, a não ser que eu a conhecesse evidentemente como tal: isto é evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção; e somente abarcar em meus juízos o que se apresentasse tão distintamente ao meu espírito que eu não tivesse motivo algum para duvidar”. Como distinguir o que é preconceito do que é evidência? A evidência é uma ideia dotada de clareza e distinção.

O segundo preceito remete à divisão de “cada uma das dificuldades em tantas parcelas quanto possível e necessário e que seria requisitado para melhor resolvê-las”. Trata-se aqui da decomposição da dificuldade em partes que serão sucessivamente enfrentadas.

O terceiro preceito cartesiano orienta à invenção de uma ordem progressiva, não-natural, que vai do mais simples ao mais complexo: “conduzir ordenadamente meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e os mais fáceis de conhecer, para subir pouco a pouco, como que por degraus, até o conhecimento dos mais compostos e, supondo uma ordem inclusive entre os que não se precedem naturalmente uns aos outros”.

O quarto e último preceito consiste na enumeração: “fazer em toda parte enumerações tão complexas, e revisões tão gerais, que tivesse a certeza de nada omitir”. Eis o método de Descartes: dividir, proceder com ordem, enumerar e sempre, sempre prestar atenção.

Por fim, ao analisar o filme Matrix, Pourriol traz o conceito do Deus enganador ou gênio maligno, apresentado por Descartes, em suas Meditações Metafísicas: “um ser todo-poderoso capaz de me fazer tomar o falso pelo verdadeiro. (…) E se Deus me enganasse, pergunta Descartes, se Deus, com sua maiúscula, não passasse de um mentiroso absoluto, como, com meu entendimento finito, resistir-lhe? Como escapar à sua onipotência? Se nada do que penso é verdade, não devo considerar que meus sentidos também me enganam, que tudo que me rodeia é uma ilusão, que meu próprio corpo não existe?” Essa é, sem dúvida, a essência de Matrix, onde nada do mundo conhecido é real. Após estabelecer a dúvida absoluta, decorrente do embuste perpetrado por tal gênio enganador, Descartes conclui que a existência é condição necessária ao pensamento, dai porque “Penso, logo existo!”

Avançando, Pourriol analisa filmes como X-Men, Blade Runner, O sexto sentido, à luz da filosofia de Spinoza. Mas isso já é assunto para outro post.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

12 − nove =