A culpa materna

O que é uma mãe sem culpa? Por muito tempo pensei integrar essa estranha e seleta seita. Um dia, porém, numa conversa corriqueira com minha filha, encontrei a minha culpa. Aquela que permaneceu adormecida por 19 anos de maternidade. “Quando eu tiver meus filhos, vou fazer diferente.” Tanta meiguice em sua voz não bastou para reduzir o golpe. Doce e suave como sempre, ela descortinou a minha falta como mãe. Não era nada grave, mas para mim bastou.

Naquele momento, pensei em todas as ocasiões em que disse que agiria de forma diferente de minha mãe. Lembrei das vezes em que despejei sobre a minha amada mãe a culpa por algumas dificuldades que experimentei. Recordei, ainda, que ela, a minha mãe, atentamente escutou minhas queixas e se aproximou ainda mais de mim. Hoje somos mais amigas, as melhores amigas. Ao encontrar a minha própria culpa como mãe, primeiro senti uma pontada no peito. Em seguida, arrependi-me por ter atribuído à minha mãe tanta responsabilidade pelos rumos que a minha vida tomou, principalmente pelos percalços. Ruminei por dias.

Passadas duas semanas, não havia mais arrependimento. Apenas uma certeza: ser mãe é sentir culpa. De alguma coisa. De qualquer coisa. Algumas sofrem por deixar o filho em casa enquanto trabalham, outras se ressentem por não terem muita paciência com seus rebentos. O menor insucesso do filho desencadeia a culpa materna. Ai da mãe cujo filho não seja completamente feliz (e ninguém é feliz todo o tempo)… Por pequena que seja a rachadura na perfeição da vida do rebento, sofre a mãe, atraindo para si a responsabilidade.

Tolas? Loucas superprotetoras? Perfeccionistas obcecadas? Não é o que me importa. Penso que a culpa é essencial à maternidade. E deveria ser à paternidade pelas mesmas razões. Sem culpa, viveríamos na ilusão de sermos criadores perfeitos. E quem pode pretender ser perfeito? Como humanos, apenas somos capazes de fazer o melhor possível, o que é muito distinto da perfeição. Sem a culpa, nos tornamos pobres e arrogantes. A certeza da falibilidade nos humaniza.

O encontro com a culpa pôs na berlinda muitas das minhas escolhas como mãe. Conservei a maior parte das minhas convicções, julgando-as acertadas. Restou, porém, espaço para algum arrependimento. O suficiente para que possa dizer que, se voltasse no tempo, faria algumas coisas diferentes. Para vislumbrar que, se tiver a ventura de conhecer e conviver com netos, não conservarei aquelas convicções. Após o choque inicial, descobri que sentir-me culpada não era mau. Aliás, era um sentimento bom, embora doloroso. Era a lição de humildade que eu precisava aprender. A minha mãe não foi perfeita para mim, mas sempre foi maravilhosa. Em todas as coisas boas que já aconteceram em minha vida, eu vejo a mão deles, meus pais, que, imperfeitos como são, fizeram o melhor que podiam. Eu não fui nem sou perfeita para a minha filha, mas esforço-me por ser o melhor possível.

É o que há de mais belo na vida: refletir, a cada dia, sobre si e sobre os outros, ponderando circunstâncias, perdoando falhas. Evoluir e, reconhecendo erros e acertos, viver com gratidão e humildade.

5 thoughts on “A culpa materna

  1. Nossa, como bateu forte em mim o seu texto!
    Ser mãe é maravilhoso e você conhece essa minha relação com a maternidade.
    Sempre tive consciência que a culpa faz parte do ser mãe. Na verdade, estamos sempre tentando acertar, orientando os caminhos que os filhos devem tomar, ainda que saibamos que no caminho os erros serão inevitáveis, mas essa a condição de sermos humanos, portanto, falíveis.
    Erramos, sim, mas por amor. Esta é a nossa recompensa.

  2. Como você conhece a natureza humana, Márcia! Não sei se todas as mães têm ou tiveram algum dia esses sentimentos . Mas eu, me identifico muito, com tudo que diz hoje o seu texto.
    Eu também já falei isso um dia: “quando for mãe vou fazer tudo diferente. Para começar, não sairei de casa para trabalhar fora, nunca deixarei meus filhos com outras pessoas…”
    Cumpri tudo que prometi a mim mesma e aos meus futuros filhos. Fui mãe por tempo integral. Mas nem por isso fui uma mãe perfeita.
    Senti culpa todas as vezes em que vi um filho com dificuldades, principalmente, dificuldades emocionais. Mas já estou conseguindo superar isso. Afinal, sou apenas uma mãe. Não sei tudo. Só sei amar, e isso, eu sei demais!
    Beijos, minha filha. Te amo!

  3. Marcia lendo esse texto me senti um pouco melhor por também sentir culpa …..
    Acho que todas nós mães sentimos culpa por ter feito alguma coisa ou deixar de ter feito…
    Hoje com meus amadíssimos netos achei que não sentiria culpa mas quem sabe lá mais adiante também sentirei
    E não se preocupe pois nossos filhos também sentirão algum dia mais adiante culpa de alguma coisa que fizeram ou deixaram de fazer
    O importante de tudo isso é que culpadas ou inocentes fizemos fazemos e faremos tudo só POR AMOR
    Bjs querida

  4. Que texto redentor, Márcia! Acredito que na maior parte dos casos, nasce a mãe, nasce a culpa. Mas acolhê-la e enxergá-la como elemento de humanização, que permite a evolução através do reconhecimento da própria falibilidade, dá sentido útil à culpa. Libertador! Adorei.

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