Depois do vendaval

A Copa do Mundo acabou há uma semana. Parece que já se passaram meses desde então. E ainda bem que acabou. Não que eu desgoste da competição, devo logo esclarecer. Aliás, assisti pela TV a quase todos os jogos em todas as fases. Vamos colocar os fatos em termos mais diretos: eu gosto de futebol. Nasci em uma família de apreciadores de futebol. Apaixonados por futebol. A minha avó, que hoje tem mais de 90 anos, já foi técnica de futebol, árbitra de futebol, dona de time de futebol. Contudo, por mais que eu me identifique com o esporte, creio que um mês de hipnose coletiva já basta.

Eu já dizia, desde o início, há oito anos, que um país como o Brasil tinha coisas mais importantes a fazer com o dinheiro dos impostos do que investir em estádios. Sempre duvidei do propalado retorno positivo dos investimentos que seriam feitos.Talvez essa desconfiança ocorra porque eu sou uma pessoa chata, do tipo que ainda acha escola mais importante do que campo de futebol. O fato é que o Brasil se ofereceu e foi escolhido para sediar a Copa do Mundo. E, embora continue não concordando com a destinação dada ao dinheiro, pensei que, depois que o meu/nosso rico dindim foi gasto, seria um desperdício não desfrutar daquilo que de concreto teríamos: uma competição esportiva emocionante, a Copa das copas. Como diria uma certa personagem humorística: “Tô pagando…”

Eu acompanho as Copas do mundo desde criança. Chorei apenas na Copa da Espanha,  primeira a que assisti, em 82, com a seleção de Zico, Sócrates, Falcão, Junior, Toninho Cerezo, Éder e outros. Após a nossa derrota, no estádio do Sarriá, amaldiçoei a descendência de Paolo Rossi. Posteriormente, acompanhei, sem dar muita atenção, a glória da Argentina na Copa do México, contando com o talento de Diego Armando Maradona e a ajudinha de “la mano de Dios”. Em 90, na Copa da Itália, assisti à vitória da Alemanha. Foi a Copa com que menos me envolvi. Finalmente, em 94, eu assisti ao Brasil ser campeão na Copa dos Estados Unidos. Agora, nesse mês que passou, enquanto via o comercial em que as crianças lamentavam nunca terem visto o Brasil ser campeão, pensava em mim, já casada quando vi pela primeira vez a seleção canarinho, contando com Romário, Cafu e Bebeto, erguer a taça. Mais quatro anos se passaram e, em 98, nos “campos de França”, assisti à patuscada envolvendo o estado de saúde de nosso craque Ronaldo, que teria sofrido uma convulsão na véspera do jogo e, ainda assim, entrou em campo para testemunhar a gloria de Zidane. O tempo passou e, em 2002, na copa asiática (Coreia do Sul/Japão), vi o Brasil se tornar pentacampeão, contando com o gênio de Ronaldo, vulgo Fenômeno, agora completamente saudável, livre de convulsões e ostentando o corte de cabelo mais horroroso e ridículo da história da humanidade. Quatro anos voaram e, em 2006, a Itália ergueu a taça, na copa realizada na Alemanha. Em 2010, na primeira Copa do Mundo realizada no continente africano, a glória coube à Espanha.

Chegamos a 2014. Finalmente, após 64 anos, o Brasil voltou a sediar o campeonato. Paralelamente aos jogos, muita coisa aconteceu em nosso país: protestos nas ruas deixaram saldo de presos e feridos, mas foram quase ignorados pela imprensa; pipocaram escândalos envolvendo a venda de ingressos para os jogos da copa; príncipes, reis, rainhas e primeiros ministros, além de uma batelada de celebridades, visitaram nosso país; a Fifa Fan Fest reuniu a galera extra-estádio em clima de muita torcida e paquera. E o futebol rolou nos gramados.

Na primeira fase, o destaque foi a aguerrida equipe da Costa Rica, que desbancou três campeões mundiais, no chamado grupo da morte: Inglaterra, Itália e Uruguai. Em minha opinião pouco abalizada, a Inglaterra, com apenas um título, conquistado há quase 50 anos, e o Uruguai, cujo último título foi obtido aqui no Brasil, em 1950, não podem viver de glória tão remota. Voltando à Copa. O time da Colômbia encantou, com seus craques James Rodriguez e Cuadrado. A Argentina, com seu super-maxi-mega-hipercraque Lionel Messi, enfrentou uma fase de grupos muito amena, encarando Bósnia, Irã e Nigéria. Surpresa mesmo foram as goleadas que aconteceram no estádio da Fonte Nova: a surra (5×1) que a então campeã do mundo, Espanha, levou da Holanda; a lavada que os alemães deram em Portugal (4×0) e o baile (2×5) que a Suíça levou da França. Foram escores tão generosos que nossa arena baiana foi rebatizada como “a Fonte dos gols”. Os holandeses ainda voltaram a Salvador, para derrotar a revelação Costa Rica, reforçando ainda mais os laços com a Bahia.

Outro aparte inoportuno: João Ubaldo Ribeiro sempre foi um dos meus escritores brasileiros preferidos e compartilho da tristeza e saudade de todos os leitores, por conta de sua morte precoce, logo após o fim da Copa. Pois bem, quem, como eu, é fã da obra de João Ubaldo gostará de saber que seu romance “Viva o povo brasileiro” é popularíssimo em terras flamengas, sendo ali reeditado quase todo ano, segundo informação do próprio autor, em entrevista dada há cerca de dois anos (Entrevista). Mais uma prova de que o povo holandês é mesmo diferente, sem preconceito: vai lá entender porque gostam tanto da ideia de serem canibalizados, ou pior, “criados para gado” pelo Caboclo Capiroba…

Mas vamos ao que interessa: Alemanha, campeã do mundo em 2014. Se, para alguns, ser campeã na casa dos outros já pode ser considerado falta de educação, espancar o anfitrião, então, é escandaloso. Poucos dias antes do fatídico jogo no Mineirão, os jornais anunciavam, animados, que a seleção alemã havia sido infectada pelo vírus da gripe. Estavam adoentados, febris, abatidos. Até eu cai nessa. Havia esperança de desfalques na equipe germânica. Se fôssemos espertos, teríamos nos dedicado aos nossos próprios problemas, sem nos regozijar do sofrimento alheio: enquanto os alemães convalesciam, o Brasil amargou a suspensão de Thiago Silva, além da tão falada lesão de Neymar Jr., vítima de uma joelhada colombiana.

O jogo. Não tenho as palavras adequadas para descrever o confronto entre Brasil e Alemanha, mas arrisco algumas observações fora da seara futebolística: qual a utilidade prática da exibição da camisa de Neymar Jr., durante a execução do hino nacional? Teria alguma propriedade mágica, funcionando como uma espécie de amuleto ou sei-lá-o-quê? O que dizer das lágrimas nos olhos dos jogadores? Ninguém imaginou ou avisou que aquilo podia atrapalhar a concentração em campo? Aliás, tenho que confessar minha absoluta impaciência com a história do hino brasileiro cantado à capela. A execução dos hinos de todos os países competidores foi limitada a certo número de minutos. Por que nós, sempre desobedientes e indisciplinados, não podíamos nos submeter à limitação imposta aos demais? Por sermos os donos da casa? Somos mesmo crianças mal-criadas? E por que vaiar o hino alheio (chileno) quando aquele povo apenas copiou a nossa lição e cantou seu hino até o fim? O que estamos ensinando às nossas crianças sobre hospitalidade e bons modos?

O jogo foi aquilo que todo mundo viu: um vexame. Minha avó, que passou mal após o quinto gol, disse que, em mais de 90 anos, nunca vira coisa igual. Quem não viu o jogo certamente não gosta de futebol e já deve ter largado esse texto no primeiro parágrafo. Quem viu, ainda está digerindo a goleada ou prefere esquecer. Eu, que, além de teimosa, sou chata, assisti à reprise do jogo, transmitida naquele mesmo dia pelo Sport TV. Não se trata de masoquismo, como me disseram, mas eu queria/precisava ver direito aquela série de quatro gols em seis minutos, que me confundiram e deixaram uma estranha sensação de déjà-vu. Vi a reprise e continuei sem entender.

Não acredito na história de apagão coletivo. Posso acreditar que um ou dois jogadores mais jovens estivessem chocados, mas a equipe inteira? Aliás, sejamos sinceros, do lado brasileiro, não havia time nem equipe, harmonia ou entrosamento. A seleção brasileira era pura emoção. E só. Quanto ao futebol, os jogadores brasileiros insistiam em estratégias infrutíferas como se atirar ao chão para cavar faltas ou chutar a longa distância, crendo-se todos possuidores do talento de Pelé. Acreditavam no mito criado, obedeciam cegamente o mestre e pareciam não se dar conta da mediocridade dos jogos anteriores. Assim chegaram à semifinal. Ali a história foi diferente, pois sempre havia um alemão completamente livre correndo pela esquerda ou pela direita, pronto a, eficientemente, finalizar a jogada. O vexame podia ter sido pior. O placar poderia ter sido ainda mais amplo, e todos ficaram com a impressão de que os alemães desaceleraram após o quinto gol, por pena ou vergonha alheia.

Apesar de considerar vergonhosa uma derrota por um placar tão amplo, não concordo com o expurgo ou depreciação simples dos jogadores. Eles lutaram com as armas de que dispunham e da maneira como fora treinados. Faltou tática, estratégia, experiência, tranquilidade, equilíbrio emocional, muita coisa, o que não significa que os rapazes não sejam craques da bola ou não possam vir a ser campeões na próxima Copa. São grandes jogadores, mas não estavam preparados para enfrentar a pressão de jogar em seu país, enfrentando equipes muito bem treinadas e entrosadas. Os meninos merecem o apoio da torcida, pois fizeram o que podiam, o que sabiam e o que foram instruídos a fazer. São jovens, a vida continua e ainda farão muito sucesso nos gramados.

Por outro lado, após a derrota na final da copa, muitos argentinos surtaram e, infelizmente, houve quebra-quebra em Buenos Aires. Irritados com a torcida brasileira pelos campeões, alguns jornais argentinos ainda ventilaram a suposta falta de dignidade do brasileiro, que, acometido de subespécie da síndrome de Estocolmo, devotara lealdade ao seu algoz, o time da Alemanha.

Dessa reação argentina, mais algumas ideias surgem, sendo que a mais importante é: futebol é apenas um jogo, um esporte, uma forma de diversão. Não é a nossa vida, não nos veste nem nos alimenta, a não ser que estejamos envolvidos profissionalmente com ele. A torcida festeja e sofre, mas vitórias e derrotas não alteram as suas lutas cotidianas. Não há, portanto, porque desesperar-se nem patrulhar a torcida. Os brasileiros preferiam ver campeões a Alemanha que os derrotara à vizinha Argentina. Por que? Cada um tem as suas razões. Houve quem vibrasse pela Argentina, dizendo que assim a taça permaneceria com um país sul-americano. A maioria preferia entregar a taça “Àquele-que-não-se-diz -o-nome” do que ver os hermanos levarem o campeonato. Está em cada um escolher por quem torce. Eu sou Bahia e você é Vitória? Ótimo, continuamos amigos.

A dignidade de uma pessoa ou de um povo não é medida em campeonatos esportivos. A Alemanha, tão festejada, é um país que vive em permanente processo de superação de traumas. Ao lado dos desafios comuns a todos os povos, os alemães amargam o sentimento de vergonha e culpa pelas consequências nefastas do apoio popular dado ao nazismo. Esse reconhecimento do próprio mal é indispensável à evolução. Infelizmente, não ouço contar com a mesma ênfase que os americanos envergonhem-se ou sintam-se culpados pelas mortes causadas pelas bombas em Hiroshima e Nagasaki. Para mim, o holocausto judeu foi trágico, nefasto, pavoroso, do mesmo modo que as mortes após a hecatombe nuclear e todas as mortes em guerras. Todas resultam da estupidez humana.

Não acredito na encenação de gestos patrióticos. Aliás, tenho uma grande aversão por extremadas demonstrações de patriotismo. Não me importo com países, raças, religiões, etnias. Acredito na vida, no valor da Humanidade. Pensem bem, que diferença faz nascer no Brasil, no Cazaquistão, em Angola ou na Inglaterra? Não estou falando sobre as condições de vida, sobre riqueza ou miséria. Falemos apenas desse espírito nacionalista que alimenta tantas guerras. Há diferença entre ser russo ou ucraniano? Judeu ou palestino? Brasileiro ou argentino? Se pensarmos bem, com o coração puro, não há diferença porque, no final das contas, o que todos querem é viver em paz, sem privações, desfrutando da maneira mais leve e agradável possível essa curta viagem em nossa planeta. Qualquer país me serviria, mas nasci brasileira. Isso é um fato, não uma escolha. Sou brasileira, baiana, soteropolitana e gosto daqui, apesar de todos os nossos problemas. E o nosso Brasil não se tornaria um lugar mais amistoso ao seu povo por ser campeão de futebol.

Coloquemos as coisas em seus devidos lugares. Futebol, como todos os esportes, é fonte de prazer, como as artes. Perdendo ou ganhando, continuamos a viver. Essencial na vida é comida na mesa, um teto seguro, escola para os filhos, acesso aos cuidados de saúde, que, além de médicos e hospitais, passam pela melhoria da estrutura de saneamento. Assim, encerrada a Copa do Mundo, vale recolher os escombros, refletir sobre os fatos e dedicar-se à construção do que efetivamente impacta em nossas vidas. Aliás, é sempre bom lembrar que o Brasil não deixará a condição de eterno emergente através de competições esportivas.

Se é para demonstrar amor à pátria, que seja em gestos cotidianos. Para começar, podemos deixar em paz os técnicos e jogadores de futebol e cobrar grandes ações dos políticos. Esquecer um pouco a bola e exigir mais atenção para a educação. De que nos adianta tanta paixão pelo futebol, se, após anos e anos alisando os bancos escolares, uma grande parte dos brasileiros continua a ser considerado analfabeto funcional? É preciso lutar para que a nossa educação evolua como a dos países do Primeiro Mundo, para que nossos jovens sejam estimulados a estudar, para que se extinga em nosso país essa ideia imbecil de que uma pessoa não precisa estudar para se tornar grande e que não ter frequentado a escola é motivo de glória. Não dar acesso à educação à sua população é razão de vergonha para o Brasil. Aqueles que não puderam estudar devem ser respeitados, apoiados, mas é preciso ter em mente que um povo instruído, culto, educado é a base sobre a qual se apoia a grandeza do país. Creio que é um tema que merece mais atenção e preocupação do que o futebol.

E quem sabe daqui a quatro anos as criancinhas do comercial possam ver o Brasil ser campeão?

3 thoughts on “Depois do vendaval

  1. Marcia mais uma vez adorei seu texto.
    Assisti a várias copas e nenhuma foi igual a de 1970, com um time de craques como Jairzinho, Carlos Alberto, Tostão, Rivelino, outros tantos e Félix o goleiro que era um verdadeiro “paredão”, pegava todas.
    Só posso sentir tristeza por termos estadios (ops) ,”arenas” rsrs, tão “faraônicas” mas não temos saúde, governo que se preze, escolas para ensinar aos pequeninos e grandes, educação e boas maneiras.
    Espero que essa copa sirva pelo menos para prestarem mais atenção as escolhas dos nossos governantes e saibam votar melhor dessa vez.
    Um abraço .

  2. Olá Márcia! Mais belo texto. Fez um resumo da Copa. Minha mãe sempre diz: “futebol é para quem tem nervos”. Parabéns Márcia.

  3. Olá Márcia,
    Pois é, a Copa do mundo passou. Perdemos. Mas nada seria mudado se ganhássemos. Então, cuidemos de nossas vidas, que é o melhor que temos a fazer.
    O mais importante é, que se cuide melhor da educação do nosso povo.
    Seu texto está muito bom!
    Beijos.

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