Leituras de abril

Após a tranquilidade do mês de março, abril chegou como uma avalanche, um tornado, bem ao estilo de seus nativos, arianos. E de arianos eu entendo, pois, logo no início do mês, fiz aniversário. O mês passou muito rápido e as horas do dia pareceram insuficientes para o cumprimento de tantas metas traçadas.

Com as férias marcadas para a semana seguinte ao feriadão da Semana Santa, precisei reorganizar minha agenda para dedicar mais horas ao trabalho e, assim, conciliar a ambição das metas com a exiguidade dos prazos. O resultado dessa maratona é que não dispus de muito tempo para a leitura.

Iniciei o mês lendo mais uma obra de Carlos Ruiz Zafón: “Marina”. A mesma atmosfera sombria, os velhos casarões de uma Barcelona esquecida e, dessa vez, o elemento sobrenatural assume dimensões cinematográficas. Lançado em 1999 e apresentado como livro juvenil, “Marina” conta a história de um garoto, aluno de um colégio interno, que, durante cerca de uma semana, envolve-se em uma história misteriosa, envolta em sombras há mais de cinquenta anos. Ao lado de sua amiga Marina, o jovem Óscar Drai investiga histórias de paixão, vingança, destruição. Nesse romance, fui tomada de especial simpatia pelo pai de Marina, Germán, um cavalheiro à moda antiga.

Ainda não descobri se os livros de Zafón me provocam insônia ou se a sua leitura flui por coincidir com períodos de sono raro. Para quem ainda não conhece a obra do autor catalão, sugiro que inicie pela leitura de “A sombra do vento” que, em minha opinião, é, até hoje, o seu melhor romance. De qualquer modo, achei encantadora a proposta de Zafón ao falar de seus primeiros romances, voltados para o público juvenil: “Ao criá-los eu estava tentando escrever o tipo de romance que gostaria de ter lido na infância, mas que continuariam a me interessar aos 23, 40 ou 43 anos”.

Após uma semana de insônia, conclui a leitura de Marina e comecei a ler uma biografia muito boa: “Agassi”.

Já li diversas biografias de figuras populares, como Eric Clapton, Paul McCartney, Kurt Cobain, Marilyn Monroe, Frank Sinatra. Em cada uma dessas histórias, revela-se o lado humano desses ídolos. Há, todavia, uma grande diferença entre ser tema de um livro escrito por terceiro e escrever as próprias memórias. Há pouco tempo, a questão das biografias não autorizadas foi exaustivamente discutida, com debates jurídicos acerca da liberdade de expressão e o direito à intimidade. Não é esse o assunto que interessa no momento. Vamos falar sobre memórias.

Escrever um livro de memórias é uma das maiores armadilhas em que uma pessoa pode se enfiar. Existem muitas formas de contar uma vida, dentre as quais duas se destacam: na primeira, escolhe-se as partes mais agradáveis e oculta-se as dificuldades e fraquezas, editando os fatos ao bel-prazer do escritor/personagem principal; a segunda, mais difícil, representa uma catarse absoluta, pois, ao desvendar todos os seus segredos, tanto os fatos e feitos positivos quanto o lado obscuro da vida, o autor de memórias torna-se completamente livre de julgamentos.

Confesso que só consigo gostar da segunda categoria de autobiografias. E não por ânsia de conhecer os “podres” dos ricos e famosos. Admiro, principalmente, a coragem de quem assume as suas quedas, reconhece a dureza da vida e não desiste, perseguindo seus sonhos. As falhas fazem parte de sua história e devem ser respeitadas, tanto quanto os feitos grandiosos, afinal, sem a noite não existiria o dia. O sucesso tem um sabor inebriante quando sucede uma fase de sombras. Vivi esse encantamento após ler a autobiografia de Eric Clapton. Encantei-me com a sua sinceridade, o que apenas incrementou a admiração que já nutria pelo artista.

Com Agassi, foi um tanto diferente. Não sou uma pessoa alienada e o nome Andre Agassi era conhecido: um grande tenista americano. Mas, por não ser aficionada por tênis, meus conhecimentos paravam ai: sei o nome dos atletas, mas ignoro todas as regras do esporte, assim como o funcionamento dos campeonatos e o nome dos vencedores. No alvorecer do mês de abril, iniciei a leitura e rapidamente fui tragada pela história. Agassi despe-se com tal franqueza que se torna impossível não admirá-lo. Imperfeito, fraco, inseguro, explosivo, são alguns adjetivos que servem para descrevê-lo. Assim como obstinado, dedicado, leal. Em sua trajetória de menino-prodígio, Agassi compartilha o sofrimento com as exigências paternas, a excessiva competitividade. Agassi saiu da infância e atravessou a adolescência obstinadamente dedicado ao tênis, que ele insiste em dizer que detesta. As lesões, as derrotas humilhantes, a volta por cima, a rivalidade com Pete Sampras, o encontro com Federer e Nadal, nada escapa das suas recordações. Poucas vezes vi tamanha valentia quanto a demonstrada por Agassi ao narrar/confessar alguns fatos constrangedores, que, embora maculem sua biografia, foram corajosamente expostos.

Os exemplos de superação dados por Clapton e por Agassi são inspiradores e fazem acreditar que é possível, sim, cair e levantar. Assim eu gostaria de me portar, se algum dia vier a crer que minha vida justifica um livro, escrevendo-o com as cores da realidade, pois, sem bravura para assumir a imperfeição, não há razão para biografias ou memórias.

Terminei o livro no domingo de Páscoa, dia 20 de abril. Com a viagem de férias marcada para a quarta-feira seguinte, hesitei em escolher o próximo livro, pois praticamente todo o tempo seria consumido com muitas caminhadas, passeios, visitas a museus e noites no teatro. Primeiro, pensei em levar “Cem anos de solidão”, de Garcia Marquez, mas desisti, pois quero reler esse livro com calma, sem tropeços ou distrações. Depois, cogitei levar mais um livro de Lionel Shriver, “Grande irmão”. Desisti pela mesma razão. Acabei escolhendo o “Guia politicamente incorreto da História do Brasil”, cuja leitura, enfim, com tantos atropelos, não consegui concluir em abril. Fica a resenha para o próximo mês.

1 thought on “Leituras de abril

  1. Olá Márcia,
    Por sua causa, fiquei muito interessada em ler algum livro desse autor Carlos Ruiz Zafón. Você já falou em muitos escritores, mas esse foi o que mais me interessou.
    Não creio que a leitura provoque insônia. O livro deve ser tão interessante que você até esquece que tem que dormir. Isso acontece comigo.
    Você fala sobre autobiografia. Acho difícil alguém que tenha coragem de se desnudar totalmente quando fala sobre si.
    Vou começar pelo primeiro livro, como você sugeriu. “A sombra do vento.”
    Beijos

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