Leituras de março

Mal havia desabrochado o mês de março e a mesinha de cabeceira já transbordava com novos títulos. Inaugurei o mês com um livro maravilhoso, que me foi emprestado por uma leitora ávida e compulsiva com quem trabalho: O enigma de Espinosa, escrito por Irving Yalom, mesmo autor de “Quando Niezsche chorou” e “A cura de Schopenhauer”.

Apesar do interesse que nutro por temas de filosofia, nunca havia estudado Spinoza, o que, após a leitura do livro, me parece uma falha imperdoável. Além dos temas filosóficos, o livro reúne alguns dos assuntos históricos que, de maneira regular, me interessam: os costumes da comunidade judaica, a história da Europa na primeira metade do Século XX, a religiosidade em contraponto ao racionalismo. Como brinde, visitamos Amsterdam, vislumbramos o cotidiano de Vermeer e Rembrandt, passeamos por outras pequenas cidades da Holanda. E, também, acompanhamos a ascensão e queda do Terceiro Reich.

A história gira em torno de dois personagens principais, separados por trezentos anos: Bento Spinoza e Alfred Rosenberg. O primeiro, um dos maiores pensadores da História; o segundo, um artista frustrado que aderiu ao movimento nazista, do qual foi um dos ideólogos. Rosenberg foi um dos oficiais nazistas julgados e condenados à morte em Nuremberg.

Partindo de um estranho fato real – Rosemberg, durante a ocupação alemã em Amsterdan, mandara confiscar a biblioteca de Spinoza – Yalom faz um paralelo entre as duas vidas: Spinoza e Rosemberg. Ao descobrir a importância e o valor dados por Goethe à obra de Spinoza, o jovem Rosemberg ficou intrigado com o que chamava de enigma de Spinoza: se os judeus eram, como ele acreditava, serem inferiores, como o maior escritor alemão poderia valorizar tanto Spinoza, que era judeu? Com seu antissemitismo irracional, Rosemberg via como paradoxal a existência de um grande filósofo de origem judaica. A filosofia de Spinoza, brevemente traçada no livro, avança sobre questões relativas à natureza, ao livre-arbítrio, à razão, à fé.

Dois personagens fictícios se aproximaram dos protagonistas, como artifício para a inserção de debate de ideias. No Século XVII, um judeu português, recém-chegado a Amsterdam e aparentemente confuso quanto à fé, iniciou uma amizade com Spinoza, criando a oportunidade de  exposição dinâmica das principais ideias do filósofo. No Século XX, um psiquiatra alemão, amigo de infância do irmão de Rosemberg, tentou investigar as origens do anti-semitismo do jovem nazista.

Não é um livro fácil, seja pelos elementos históricos apresentados, seja pela profundidade das ideias de Spinoza, mas, sem dúvida, instila o desejo por mais estudo e conhecimento a todo leitor que se interesse por temas como “as origens do bem e do mal, a filosofia da liberdade e a tirania do terror”.

Em seguida, iniciei a leitura, via kindle, de O mundo pós aniversário, de Lionel Shriver, autora de “Precisamos falar sobre Kevin”. Por conta do impacto da história de Kevin e sua família, há muito desejava ler mais alguma obra dessa escritora. No início, fiquei um pouco decepcionada, pois esperava uma história tão impactante quanto a de Kevin. Contudo, agradei-me, de pronto, da proposta estrutural do texto. Ao final do primeiro capítulo, os personagens foram postos em uma determinada situação. O livro se desdobra, então, em dois capítulos nº 2, dois capítulos nº 3, e por ai em diante, apresentando paralelamente os desdobramentos da história se, ao final do primeiro capítulo, a personagem principal tivesse ou não beijado o amigo do marido. Apesar da imensa antipatia despertada pela protagonista (isso acontece muito comigo: ora amo, ora odeio os personagens), não consegui escapar às reflexões que se escondem por trás da prosa simples de Shriver. A nossa vida seria melhor ou pior se fosse diferente do que é? E se pudéssemos voltar no tempo e mudar nossas escolhas, o resultado seria melhor ou mais agradável? Pode ser que sim, pode ser que não…

Chegando ao dia 14 de março, comecei um novo livro: É isto um homem?, de Primo Levi. O tema do livro não é nada agradável: a vida em um campo de concentração nazista.

Primo Levi foi um químico italiano, judeu, que, em fevereiro de 1943, tornou-se mais um prisioneiro em Auschwitz, onde permaneceu por onze meses, até ser libertado pelo exército vermelho. No prefácio, Levi esclarece que o livro foi escrito para satisfazer a necessidade de “contar ‘aos outros’, de tornar os outros ‘participantes'”, ou seja, com a “finalidade de libertação interior”. Alerta, ainda, acerca da natureza não ficcional da narrativa.

Apresentando a absurda rotina dos prisioneiros, Levi expõe sua conclusão: o objetivo do campo de concentração é desumanizar o homem. Em um dos episódios, é indagado por outro prisioneiro acerca do motivo de não mais se lavar. Questiona: “E por que deveria me lavar? Me sentiria melhor do que estou me sentindo? Alguém gostaria mais de mim? Viveria um dia, uma hora a mais?” O outro prisioneiro explica que o ato de manter a própria limpeza representa uma forma de resistência à desumanização que caracteriza a vida de prisioneiro: “justamente porque o Campo é uma grande engrenagem para nos transformar em animais, não devemos nos transformar em animais; até num lugar como este, pode-se sobreviver, para relatar a verdade, para dar nosso depoimento; e, para viver, é essencial esforçar-se por salvar ao menos a estrutura, a forma da civilização. Sim, somos escravos, despojados de qualquer direito, expostos a qualquer injúria, destinados a uma morte quase certa, mas ainda nos resta uma opção. Devemos nos esforçar por defendê-la a todo custo, justamente porque é a última: a opção de recusar nosso consentimento.

A dura realidade da vida no Campo não admite o maniqueísmo, nem transforma todos os prisioneiros em personagens capazes de atos de heroísmo, pelo simples fato de serem prisioneiros. Espoliados de sua condição humana, os prisioneiros utilizam, na luta pela sobrevivência, as armas de que dispõem, seja a astúcia, a força física, a inteligência ou a desonestidade. Encontram-se reduzidos à mesma mísera condição homens da mais diversa natureza e condição: aqueles que, fora do Campo, eram ladrões, médicos, professores, comerciantes, alfaiates, industriais… “Fechem-se entre cercas de arame farpado milhares de indivíduos, diferentes quanto à idade, condição, origem, língua, cultura e hábitos, e ali submetam-nos a uma rotina constante, controlada, idêntica para todos e aquém de todas as necessidades; nenhum pesquisador poderia estabelecer um sistema mais rígido para verificar o que é congênito e o que é adquirido no comportamento do animal-homem frente à luta pela vida”.

No campo de concentração, a saúde, a aptidão para o trabalho e a sorte são tesouros que podem garantir a sobrevivência. A escassez de alimentos, o frio inclemente, a exaustão provocada pelo excesso de trabalho são instrumentos de execução, tanto quanto as câmaras de gás e os fornos crematórios.

Com a aproximação do exército russo, os alemães fugiram, abandonando o campo de concentração e os doentes que estavam nas enfermarias. Primo Levi havia contraído escarlatina e estava no dormitório destinados aos portadores de doenças infecto-contagiosas. Durante dez dias, os doentes, padecendo de moléstias como tuberculose, difteria, tifo, escarlatina, disenteria, permaneceram sozinhos no campo de concentração. Extremamente debilitados, não podiam fugir, mesmo quando já estavam certos de que os alemães estavam distantes. Viveram um pesadelo similar àquele descrito por Saramago em “Ensaio sobre a cegueira”. Uma diferença essencial: a história de Levi não é ficção.

A leitura de É isto um homem? é uma experiência dolorosa. Mas, embora desesperador, o livro nos confronta com o real sentido de humanidade: “uma parte da nossa existência está nas almas de quem se aproxima de nós; por isso, não é humana a experiência de quem viveu dias nos quais o homem foi apenas uma coisa ante os olhos de outro homem”.

Quanto a Levi e aos demais prisioneiros, restaram algumas perguntas: como sobreviver a uma tamanha tragédia? Como viver depois que o pesadelo acaba? O pesadelo pode acaba no mundo real, mas como extirpar as lembranças? Como viver com elas? O que fazer com as recordações?

Ao concluir a leitura da obra de Primo Levi, comecei a ler “O talentoso Ripley”, de Patricia Highsmith, conhecida autora de novelas policiais. O primeiro romance da autora,”Pacto sinistro”, foi vertido ao cinema por Hitchcock, tornando-se um clássico do suspense. Muitos anos depois, fizeram uma terrível versão com pretensão de ser cômica: “Jogue a mamãe do trem”.

A historia de Tom Ripley também rendeu alguns filmes. Em 1960, Alain Delon, dirigido por René Clement, estrelou “O sol por testemunha”. A refilmagem, de 1999, trouxe Matt Damon no papel de Tom Ripley, formando um intrigante triângulo amoroso com os personagens de Jude Law e Gwyneth Paltrow.

Em seu início, quando a cena se passa em Nova York, o livro de Highsmith traz a mesma atmosfera da cidade que sentimos em “O apanhador no campo de centeio”, uma cidade onde a solidão é a regra e o seus habitantes encontram-se absolutamente desamparados. Tom Ripley é um jovem que vive de pequenos golpes. Ele é abordado por um rico empresário, Sr. Greenleaf, que, acreditando tratar-se de antigo amigo de seu filho, propõe a Ripley uma viagem à Itália, com todas as despesas pagas, a fim de que convença o jovem Dickie Greenleaf a regressar aos Estados Unidos. Ripley aceita a proposta e parte para uma pequena aldeia litorânea no sul da Itália, onde conhece o jovem Dickie e sua namorada, Marge. A atração que Ripley sente por Dickie fica subentendida, mas a ambiguidade do personagem não está limitada à sua sexualidade. Inicialmente Ripley deseja uma vida com Dickie. Ao se desiludir, ele decide se tornar Dickie, levando tal plano às últimas consequências. Bem, quanto ao resto, é preciso ler o livro, pois não vou estragar o prazer dos leitores, antecipando o final. Para os aficcionados por literatura policial, é uma boa opção.

Não é que acabou o mês de março? E abril vem chegando cheio de novidades: meu aniversário, viagem de férias, mais leituras…

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– Yalom, Irving. O enigma de Spinoza; trad. Maria Helena Rouanet – 1. ed. – Rio de Janeiro: Agir, 2013

– Shriver, Lionel. O mundo pós-aniversário; trad. Vera Ribeiro – Rio de Janeiro: Intrínseca, 2011 (e-book)

– Levi, Primo. É isto um homem?; trad. Luigi Del Re – Rio de Janeiro: Rocco, 1998

– Highsmith, Patricia. O talentoso Ripley, trad. Alvaro Hattnher – São Paulo: Companhia das Letras, 2012

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