E ainda dizem que é esporte…

Dizem que é esporte. A televisão anuncia as lutas de UFC/MMA como atração especial. A juventude reúne-se em bares para acompanhar a carnificina. Brutamontes e mocinhas delicadas vibram na mesma sintonia, a cada chute, a cada soco. Aplaudem o sangue. A mim não convencem.

Não há novidade no fascínio das plateias por espetáculos violentos, desde que o espectador acredite estar a salvo. Em sua época de glória, as lutas de Muhammad Ali ou Mike Tyson também atraíam grande assistência. Não há, porém, como dissociar a imagem do público de tais combates da plateia romana que vibrava com os gladiadores e suas lutas de vida e morte ou com o triste destino dos cristãos diante de leões esfomeados. Séculos se passaram, sem evolução.

O culto pela violência assusta em uma sociedade em que, a cada instante, percebemos o recuo aos instintos básicos e o abandono ou desinteresse pela civilização. Encurralados em condomínios fechados e carros hermeticamente lacrados, assistimos à escalada inclemente da violência urbana, que não escolhe hora nem lugar. Todos, sem exceção, estamos em frente à jaula do leão.

A cada esquina, encontramos lutadores e ardorosos fãs a defenderem a natureza esportiva dos combates de vale-tudo e afins. Dirão que não existe relação entre as lutas e a violência que assombra nossas cidades. Não existe? A plateia dos combates torna-se gradativamente imune ao horror causado pela violência gratuita, mascarada sob a alcunha de esporte. Os lutadores, por outro lado, vendem sua integridade física. Pode a integridade moral permanecer intacta? A inviolabilidade do corpo e a dignidade do ser humano não são afetadas quando se aceita apanhar e bater por dinheiro? O que dizer, então, do público? A que remota era primitiva desejam retornar? Ao tempo das cavernas, lutando com feras pela sobrevivência? Ou, mais recentemente, sentem-se atraídos pela crueldade das guerras?

O que pode levar jovens bem nutridos e, acredita-se, educados a se acotovelarem em bares, vibrando com a exibição de violência extrema, que, arrogante, se apresenta como esporte? Torcem pelos seus campeões como se acompanhassem uma rinha de galos e, naquele instante, esquecem que ali, naquele ringue, naquele “octógono”, existem homens. Sim, ninguém os obriga a lutar. Dedicam-se a tal “esporte” por uma inclinação natural, uma propensão à violência, uma agressividade inerente ao ser. Qual seria a alternativa aos lutadores se não pudessem lutar por dinheiro? Poderiam estudar, não? O que seduz os lutadores é a possibilidade de ganhos financeiros mais elevados do que poderiam obter com uma profissão mais comum, correspondente à sua qualificação. No final, mesmo o argumento financeiro não pode afastar a conclusão: não é falta de opção que os leva a lutar profissionalmente, é a escolha pela venda da integridade física.

A mesma carência de princípios motiva os veteranos que, arrogantes, divertem-se em impor trotes humilhantes ou dolorosos em estudantes que ingressam nas universidades. O que deveria ser um momento de alegria, o início de uma intensa jornada de estudos e crescimento pessoal, fica marcado pelo mal-estar causado pelos atos praticados por criminosos disfarçados de estudantes. Em grande parte comandados por líderes estudantis e presidentes de diretórios acadêmicos, os trogloditas exercitam o seu sadismo, com o conivência de servidores da universidade, obrigando os novatos a rolarem na lama, a pedirem esmolas ou a caminharem descalços no asfalto quente. É um tanto óbvio que esse grupo só pode ser formado pela ralé das faculdades. Por alunos que repetem disciplinas, que estão às portas do jubilamento ou que se interessam mais pelas disputas de poder dentro das escolas do que pela produção acadêmica ou desenvolvimento profissional.

Imaginem, fãs dos combates, se, em lugar de lutadores profissionais, os campeonatos de luta fossem disputados pelos estudantes engraçadinhos que aplicam trotes idiotas nos calouros em universidades pelo Brasil afora. Aí, para animar, alguém podia ter a ideia de soltar um leâozinho faminto na arena… Alguém acharia graça? Eu não.

4 thoughts on “E ainda dizem que é esporte…

  1. Márcia.
    Gostei muito do seu texto.. Interessante que todos os comentaristas repudiaram os esportes e as brincadeiras violentas. Não podia ser diferente, as pessoas de bom senso não podem aprovar os trotes nem as lutas livres e os vale-tudo.Como podem, pessoas ditas civilizadas, se divertirem e sentirem prazer em ver derramamento de sangue? É sinal de sadismo!
    Quanto a selvageria dos trotes, acho uma tremenda estupidez. Os veteranos poderiam tirar proveito dos calouros de maneira muito mais inteligente: Poderiam fazer uma festa para recepcionar os novos colegas, com a participação de todos. Incentivaria a prestação de serviços comunitários, os da área de saúde fariam doação de sangue, visitariam abrigos, dariam banhos em doentes e idosos etc..
    Quanto aos vale-tudo, e outras lutas cruentas, não se pode fazer nada. Para uma pessoa que expõe a própria vida por dinheiro, só nos resta rezar para que não tenham sequelas muito graves.
    Abraços de Terezinha

  2. CONCORDOOOOOO
    Lembro que em 1971 quando passei no vestibular de Engenharia Civil o trote era cortar os cabelos das mulheres e raspar o dos homens , assim foi feito…..
    Porém acrescentaram passar (ou jogar) tinta no nosso corpo pernas braços rosto cabelo etc…
    Pois bem um colega meu teve alergia a tinta (não sei se ele sabia ou não) e foi parar no hospital.
    Perigoso não é? E também sem graça ,,,,
    Acho que o trote poderia ser :arrecadar alimentos para algum asilo ou orfanato ou famílias carentes.
    Outra idéia boa seria fazer limpeza na própria faculdade ou arredores ou ainda visitar asilos ou orfanatos ou hospitais para levar alegria aos enfermos….
    Bem muitas outras coisas seriam válidas menos essa selvageria que tem acontecido….
    Quanto as lutas ……. Me nego a assistir qualquer uma não importa o nome UFC,MMA, LUTA LIVRE, ETC…. Nenhuma me interessa, acho uma temeridade e sem nexo. Em outros termos acho uma coisa sem noção .
    Marilu Tourinho

  3. Marcia, sempre achei uma bestialidade a euforia desses admiradores de lutas livres.
    Você retratou o caráter deles e a semelhança com os autores dos trotes na universidade.

  4. Márcia.
    Cada dia me revolto mais com os tais dos trotes nas universidades.
    Esta semana estava ouvindo pela televisão, que em Feira de Santana fizeram os calouros beberem álcool. Alguns foram parar no hospital. Isso é uma coisa absurda!
    Não sabemos o que fazer para salvar nossos jovens. Eles entram na universidade tão indefesos…
    Beijos.

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