Revelações

A cada dia, a cada minuto

A todo instante

Contava com o seu amor tranquilo

Revelado nos momentos mais insuspeitos

Apesar das tempestades que, louca, provocava em copos d’água.

 

Maduro e renovado

Fingindo ignorar a ingratidão

Docemente questionava: “está tudo bem?”

 

As virtudes de tal afeto se acumulavam,

Em camadas infinitas,

Sobrepostas,

Minuciosamente dispostas

Gradualmente desfolhadas

 

O assombro vinha da serenidade

Superior, confiante

Até quando ela não merecia

 

Especialmente quando ela não merecia.

Nas duras horas em que era o seu exato oposto

 

E nesses momentos

Instante congelado

Invejava a sua paz, certeza e equilíbrio

Pois, em si, tudo era labareda, furacão, tsunami.

 

Amava principalmente os seus defeitos

As pequenas falhas que maculavam seu coração

Os minúsculos sustos ou sobressaltos

Humanizadores

 

Egoísta, sentia-se satisfeita com cada pecado

Pois, rompendo o verniz da perfeição

Eram eles, afinal, os defeitos

As falhas, as imperfeições

Que os aproximavam

 

Supunha que, no final das contas

Se não fossem as cicatrizes que carregava

Se não portasse as suas próprias fragilidades

Se não a vida já não lhe tivesse oferecido um trago amargo

Como poderia amá-la?

 

Como poderia amá-la, esse ser tão imperfeito e incompleto que sabia ser?

 

4 thoughts on “Revelações

  1. Márcia
    Aprecio a sua versatilidade. Gosto das prosas e dos poemas igualmente, são lindos. Parabéns!
    Abraços de Terezinha

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