Leituras de fevereiro

O nosso ritmo de leitura é ditado, em grande parte, pelo tempo disponível. Todavia, existem vezes em que a leitura flui mais lentamente por força da própria densidade do texto. Ou também quando desejamos prolongar o prazer da leitura, com algumas paradas reflexivas.

Abri o mês de fevereiro com dois livros, que li concomitantemente. Um deles, relacionado ao meu projeto de saúde, chama-se “Coma e seja feliz”, de Elizabeth Sommer. A leitura desse livro, em versão digital, coincidiu com o meu ingresso em um programa alimentar, sobre o qual falarei com mais detalhes em outra oportunidade.

Em “Coma e seja feliz”, a autora discorre longamente sobre a relação entre alimentação e humor, ilustrando com os resultados obtidos por pacientes que promoveram a reeducação alimentar sugerida. Não se trata de um livro ou programa de dieta, mas da apresentação de alguns estudos sobre saúde e alimentos. Os efeitos colaterais da alimentação saudável são, nas palavras do livro, a melhora no humor, o aumento da energia e a manutenção da boa forma.

A maior parte das dicas, ou “segredos”, apresentados não trazem nenhuma grande novidade. Gostei, contudo, do efeito incentivador do livro. Uma coisa que a autora repisa intensamente é a necessidade de concentrar-se em comida natural, evitando a comida processada. É claro! Há muitos anos, em minha casa, caminhamos rumo à abolição de pratos prontos ou semiprontos. Não tenho dúvidas de que a ingestão de alimentos temperados com cebola, alho, tomate, pimenta, ervas, é muito mais saudável do que daqueles que extraem o sabor de “caldos” prontos. Outro exemplo: os sucos prontos em caixinha ou em pó não substituem sucos de frutas e, de qualquer modo, é melhor comer a fruta do que beber o suco.

A substituição dos alimentos feitos com farinha de trigo branca por carboidratos integrais é outra medida que há algum tempo já vínhamos implementando. A autora, bastante radical, sugere o simples descarte dos alimentos existentes em casa e tidos por maléficos à saúde. A ideia seria limpar a despensa e a geladeira de tudo que fosse artificial, processado, cheio de gordura saturada, açúcar ou sódio. É uma saída radical e anti-econômica, pois, afinal, aqueles alimentos processados, embora pouco saudáveis, são “comida” e não podem ser simplesmente jogados fora. Uma alternativa seria a doação daquilo que não se deseja mais consumir. Em minha casa, já não havia muitos alimentos que se enquadravam na relação a ser eliminada mas, ao invés de descartá-los, preferi aboli-los da lista de compras e terminar de consumir os que já haviam sido adquiridos.

Enquanto lia e aprendia sobre alimentação, mergulhei no universo de Virginia Woolf, em seu romance “Ao farol”, considerado um dos livros mais importantes do século XX. A primeira e maior parte da historia se passa na casa de praia da família Ramsay, que, achando pouco os oito filhos que tinham, hospedava alguns amigos durante o verão. A senhora Ramsay, linda, paira sobre todos, soberana, mantendo em absoluta ordem o funcionamento daquela casa imensa, atendendo a todos e dedicando-se amorosamente aos filhos. O senhor Ramsay é um intelectual frio, egoísta e distante (nem tão frio nem tão distante, haja vista os oito filhos por ele gerados!), que parece não pertencer ao mesmo universo habitado pelos demais. Um evento simples amarra a narrativa: o senhor Ramsay, ao discorrer sobre as más condições do tempo, jogou um balde de água fria nos planos da esposa de, no dia seguinte, ia ao farol com o filho caçula. Acompanhamos as complexas relações familiares, com a tensão e equilíbrio existentes, o amor e o rancor silenciosos. Passados dez anos, algumas das pessoas que participaram daquele veraneio retornam à casa, recordando os fatos passados. É um belo livro sobre o amor familiar.

O estilo reflexivo, que flutua entre a descrição de lugares e acontecimentos e a revelação dos pensamentos dos personagens, nos aproxima dessa história passada há cerca de 100 anos numa ilha na costa da Escócia. Os pensamentos, reflexões, lembranças de vários personagens se cruzam formando um quadro amplo e rico das relações humanas. E não se diga que hoje nada temos  em comum com aquele família britânica do início do século passado. Somos sempre os mesmos seres humanos, açoitados pelas mesmas angústias, impulsionados pela busca da felicidade. Estamos todos, sempre, sujeitos ao imponderável e à inescapável brevidade da vida.

Em seu estilo plano, suave, há risco de não agradar a alguns leitores mais impacientes, mas, àqueles que se arrisquem, “Ao farol” oferece a oportunidade de uma arrebatadora viagem à humanidade de nossos sentimentos cotidianos.

Acabou o mês de fevereiro. Que venha março!

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– Somer, Elizabeth. Coma e seja feliz: Descubra os segredos para melhorar o humor, ter mais energia e se manter em forma; trad. André Jenkino – Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2010. (e-book)

– Woolf, Virginia. Ao farol; trad. Denise Botmann – Porto Alegre,RS: L&PM, 2013.

4 thoughts on “Leituras de fevereiro

  1. Oi Márcia.
    É muito agradável ler os seus textos, sempre oportunos.
    Concordo plenamente com a autora e com você. Sabemos que os alimentos naturais são bem superiores aos processados e industrializados.
    Mas fale isso com um adolescente! No mínimo vai lhe chamar de chata.
    Aqui usamos muitas frutas, legumes, verduras, e as hortaliças em geral. O
    arroz é integral, o pão idem. Mas tudo contrariando o patriarca que só gosta mesmo é de ” besteira”. Ou seja, calóricos e com altas taxas de colesterol.
    Estava lendo o comentário que Lurdinha, a esposa de Tomaz, fez a respeito do
    livro de minha mãe. Fale com ela que não foi só este comentário elogioso. Várias pessoas que já o leram expressaram a mesma opinião. O esposo de uma colega, que também leu o livro, mandou um abraço pra ela com felicitações.
    O próximo vai precisar de mais volumes; então deverá ser posto à venda para satisfazer a todo mundo.
    Beijos para todos daí
    De Terezinha.

  2. Oi Márcia,
    Rui disse bem,”ótima dica para uma boa leitura.” Muitas vezes vemos um título de livro. Mesmo conhecendo o autor, ficamos em dúvida. Quando você fala sobre o tema, nos ajuda bastante.
    Quanto a esse livro de Elizabeth Sommer, não tenho muito interesse. Você vai dizer que é porque sou indisciplinada. Talvez seja isso mesmo.
    Assim como você, aqui também, há muito tempo que já usamos uma alimentação mais natural. Não sou radical, mas procuro evitar os alimentos que não são muito saudáveis.
    Digo que não sou radical porque quando vou a alguma festa, como quase tudo que me oferecem. Sem exageros!
    Seus textos são sempre muito bons. Parabéns!
    Beijos.

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