“Toda mulher é meio Leila Diniz”

Há algum tempo atrás, recebi uma mensagem que, pretendendo ser engraçadinha, se dispunha a explicar porque ocorriam poucas separações há cinquenta anos atrás. O arquivo de slides apresentava frases extraídas de revistas femininas da década de 50, com pérolas como “se desconfiar de infidelidade de seu marido, não perturbe, redobre os carinhos”, ou “banheiro bagunçado faz o marido querer tomar banho fora”…

Na época, fiquei refletindo sobre as expectativas que pairam sobre a mulher. Uma mulher moderna bem sucedida deve ser mãe e esposa dedicada, sua casa deve ser um brinco, a carreira profissional brilhante. Ela deve, ainda, ser inteligente, culta, informada, divertida, bem-humorada, linda, magra, sexy, com cabelos e unhas sempre impecáveis, elegante, malhada, além de muitas outras expectativas que levariam semanas para serem relacionadas.

Cansei do assunto. Porque, afinal de contas, cada pessoa possui a liberdade de aceitar ou não tais imposições. O assunto me fez recordar certo episódio de “Sex and the city”, em que Sarah Jessica Parker, rememorando o filme “Nosso amor de ontem”, divide as mulheres em divertidas, quentes, de cabelos cacheados ou certinhas, impecáveis, chatas, de cabelos lisos. Ela e Barbra Streisand, as cacheadas, seriam as mulheres indomáveis, rebeldes, independentes e, por isso, com dificuldades em seus relacionamentos. Na boca de Carrie Bradshaw, parece grande coisa, mas, falando sério, é possível classificar as pessoas?

Em primeiro lugar, não posso deixar escapar o comentário sobre a metáfora dos cabelos cacheados. É claro que, entre as loiras americanas, como Barbra Streisand e Sarah Jessica Parker, ter madeixas encaracoladas é uma coisa incomum. Avancemos. Em terras tropicais, a indústria de cosméticos mostra a sua força e põe em risco de extinção as onduladas melenas que marcaram a carreira de artistas como Sonia Braga, Claudia Ohana, Gal Costa, Clara Nunes, Marisa Monte e tantas outras. A cada semana lançam um novo produto revolucionário que “libertará” a mulher de seus cuidados diários. Todas, sem exceção, acordarão como se nascessem índias, irmãs gêmeas de Gloria Pires. Que mundo tedioso esse em que todas as pessoas são iguais. Aliás, sem desfazer nem um pouco da beleza de sua cabeleira, duvido que o charme de Cleo Pires deva ser creditado unicamente aos seus dotes capilares.

As mulheres são, ao mesmo tempo, vítimas e algozes, pois, embora sofram recriminações e patrulhamentos de toda parte, exercitam sua maldade contra qualquer outro espécime do mesmo gênero que caia na infelicidade de atravessar seu caminho. Infelizmente, é a realidade. A crítica é utilizada como um mecanismo de defesa. E, o que é pior, cada uma finda por esquecer as suas virtudes, preocupando-se com as pequenas imperfeições que, com toda certeza, serão notadas pelas rivais. Ressalto que para ser rival, não precisa ser inimiga. Basta ter alguma qualidade que desperte a inveja.

Ouvi, há algum tempo, uma jovem juíza contando que sofria muito bullying na adolescência, por ser alta e magra. Vejam: era perseguida no colégio por ter o porte físico das modelos. Ou seja, não adiantou ser loira, alta, bonita e inteligente, pois, ainda assim, foi vítima dos patrulhadores da felicidade alheia.

Quanto mais reflito, mais me convenço de que bom mesmo é não dar ouvidos à plateia. O segredo de bem viver é fazer do jeito que gosta. Quer dormir o dia todo? Durma. Quer ser uma profissional muito bem sucedida? Persiga seu sonho. Gosta de andar sempre linda e impecável? Faça isso. Não quer se casar nem ter filhos? Fique à vontade. Ou, ao contrário, deseja ter uma prole generosa? Que felicidade… Temos que lutar pelo direito de sermos profissionais ou donas-de-casa, gordinhas ou magricelas, gostar de cinema francês ou da novela das oito, ter cabelos lisos ou cacheados. Cada mulher é senhora de sua vida e responsável pelas escolhas feitas. A ela, a liberdade de ser.

4 thoughts on ““Toda mulher é meio Leila Diniz”

  1. Márcia
    Gostei e concordo. Liberdade já! A graça do ser humano é justamente a diversidade. Cada um de nós é um ser único e irrepetível. Tem gente pra todo gosto; e com a mulher não é diferente. Entretanto somos escravas da opinião das outras mulheres. Nos arrumamos para ter a aprovação delas Também pudera, a concorrência é desleal ! Cada dia morrem mais homens e nascem mais mulheres, e ainda tem aqueles que nasceram homens e depois se desviam no caminho. Por tudo isso, muitas mulheres ficam inseguras.
    Abraços de Terezinha

  2. Marcia você já não me surpreende mais com suas colocações……
    Também sou da mesma opinião sua, acho que nós mulheres podemos não termos os atrativos físicos designados pela sociedade porem temos outros como, inteligência, charme, espírito divertido, somos fiéis a nossa educação e somos dedicadas aos filhos, pais, marido e amigos dentre outras coisas mais..
    bjs

  3. Adorei o texto! Expõe essa “mulher de plástico” (meio Barbie, meio Polly) fabricada pelo sistema vigente. É sempre maravilhoso lembrar que mulheres têm asas, e voam lindamente.

  4. ,É isso mesmo Márcia!
    Falou igual a Lucinha: LIBERDADE!
    Liberdade para ser o que quiser. Como quiser!
    Parabéns pelo texto.
    Beijos.

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