“Deu no New York Times”

No último domingo, 10 de novembro, o New York Times publicou uma matéria sobre Salvador, atribuindo-lhe o título de “capital brasileira dos homicídios”. O jornal americano falou da violência, do trânsito insano e do estado de abandono da cidade, cuja “beleza eterna” foi, há tempos, festejada por Jorge Amado. Por maior que seja o amor pela terra, não é possível ignorar o caos que se instalou na cidade. E, apesar dos protestos que sempre despertam as polêmicas reportagens do NYT, não consigo discordar das observações ali expostas.

Sofremos as consequências de uma política de fomento do uso do veículo particular. O resultado são ruas entupidas de carros e escasso ou inexistente investimento em transporte de massa. É desanimador ver o dinheiro destinado ao transporte público escoar pelo misterioso ralo dos contratos públicos sem que a população perceba nenhum efeito prático, nenhuma melhoria em sua mobilidade. Basta pensar no metrô de Salvador.

No atual estado de insegurança em que vive a cidade, não há, todavia, como condenar aquele que tenta evitar os ônibus que trafegam na cidade, afinal, são corriqueiros os assaltos a coletivos. Engana-se quem pensa que, para estar seguro, basta evitar o transporte público. Há cerca de um mês, vimos crescer os casos de assaltos a motoristas, perpetrados por motociclistas, que desejam exclusivamente tomar o smartphone. Tais crimes ocorrem durante congestionamentos em avenidas movimentadas de bairros nobres da cidade. Crianças assustadas presenciam os assaltos a caminho da escola. Não se trata de notícia de jornal. As vítimas de tais crimes são nossos amigos e parentes.

E, falando no trânsito em Salvador, nem chegamos a falar no stress em que vivem as pessoas, forçadas a saírem de casa com horas de antecedência, sob pena de chegarem atrasadas aos seus compromissos. Ou da eterna tensão entre motoristas de carros pequenos, condutores de ônibus e caçambas e motociclistas. Nas ruas, acompanhamos e participamos de uma verdadeira guerra, transformando o mero retorno ao lar após um dia de trabalho em uma odisseia diária, similar àquela empreendida por Ulisses após a Guerra de Troia.

Quando, no início do ano, procurava apartamento para comprar, eu ouvia diariamente a ladainha do corretor, gabando as maravilhas de morar no Litoral Norte, fora da cidade. De cá, eu retorquia:

– Eu quero morar na cidade. Quero ir caminhando até a padaria, ao mercadinho. Quero ponto de ônibus perto de casa. Não quero ser escrava de carro.

– Por que isso? Você tem carro. Sua filha já vai ganhar um carro. Por que vocês precisam morar no meio da cidade? Pega o carro e vai onde quiser. – respondia ele.

Fico pensando sobre quantas pessoas comungam desse pensamento. Acreditam que a solução para o stress da vida moderna seria morar no local mais distante e isolado possível, mesmo trabalhando e estudando na cidade. Sinceramente, não consigo cogitar que espécie de “qualidade de vida” pode ter alguém que diariamente enfrenta até três horas de congestionamento para ir e voltar ao trabalho. E quanto à escola dos filhos? Algumas pessoas me diziam que havia a compensação de viver à beira-mar, ou em um sítio. Seria maravilhoso, se não tivesse que acordar às cinco da manhã ou antes para enfrentar o tráfego implacável. Ou se não chegasse exausta em casa à noite. “Ah! Eu compenso nos finais de semana!”, consolam-se. Suponho que sim. Exaurido em suas forças, após uma semana à beira de um colapso nervoso, o feliz soteropolitano pode, enfim, tomar banho de mar, deitar numa rede, beber água de coco, comer caranguejo, fazer churrasco, ouvir pagode…

Eu prefiro viver em paz todos os dias. Não acredito em guardar as alegrias para os finais de semana ou para as férias. Gosto de aproveitar o cotidiano. Se quiser deitar numa rede, penduro-a na varanda do apartamento. Água de coco, eu tomo a qualquer momento, nas barraquinhas espalhadas pela cidade. Não gosto de praia nem de pagode. Sou alérgica a frutos do mar e, para comer churrasco, não é necessário tanto sacrifício. Sendo uma pessoa urbana, gosto ter a cidade por perto.

Coincidentemente, na terça-feira, logo após a divulgação da reportagem do NYT, fui parada por uma blitz, por volta de onze da manhã, a caminho do trabalho. Parei o carro, abri o vidro e o policial, arma em punho, disse:

– Desligue o motor, saia do veículo e abra a mala do carro.

Eu obedeci. Desci do carro, contornei-o, abri a tampa da mala e observei atentamente enquanto o policial levantava o carpete e examinava o carro. Fiquei pensando: “A minha mala está tão limpinha e organizada… Sem compras, nem mochilas. Ele precisava ver no tempo da mudança”.

– Documento do carro e habilitação – falou o policial.

– Eu vou pegar. A bolsa está no banco de trás. – disse, enquanto, sob o olhar atento do PM, peguei minha bolsa, abri calmamente, de maneira a deixar exposto o seu conteúdo.

Peguei a carteira onde guardo os documentos do carro e a habilitação. Eu já aprendi que a polícia quer os documentos fora de carteiras ou porta-documentos, mas, na hora eu nem lembrei e entreguei o protetor de documentos com o que tinha dentro. Vendo que o policial já havia guardado a pistola no coldre, disparei:

– Ainda bem que o senhor já guardou a sua arma, pois isso estava me intimidando. Pode examinar os documentos, por favor.

– Eu não apontei a arma para a senhora. – respondeu o policial.

– Nem precisava. Só estar com ela na mão intimida quem não é bandido.

– É o procedimento padrão. Eu não sabia se havia alguém abaixado no banco de trás coagindo a senhora. Estamos fazendo a operação de rotina. Mas está tudo bem. Aqui estão seus documentos. Pode ir.

– Eu sei. Compreendo seu trabalho e desejo ao senhor um bom dia. – respondi, enquanto guardava meus documentos.

– Bom dia. Bom trabalho.

Dali fui direto para o trabalho, ainda com o coração meio acelerado. “Ora, não foi nada. Uma mera abordagem rotineira.” Por que, então, minhas mãos tremiam? Só consegui encontrar uma resposta: medo da polícia. Ou melhor, medo do eventual despreparo do policial. Medo de ter mal-interpretado qualquer movimento. Medo de ser vítima de um dos “enganos” repetidamente noticiados.

No dia seguinte, li no jornal que, alguns quilômetros adiante, no final da tarde, durante uma blitz semelhante, um carro esquivou-se da patrulha e alguns dos passageiros deflagraram tiros em direção aos policiais. Teve início uma perseguição, que culminou com um acidente na Avenida Luís Eduardo Magalhães. O motorista, preso nas ferragens, foi capturado pela polícia. Os comparsas fugiram.

A desconfiança instalou-se nos corações. Enquanto se anunciam lançamentos de grandes condomínios luxuosos, inexistem parques públicos seguros. Em minha infância, lembro de belas manhãs de domingo no Parque da Cidade. Quando minha filha era criança, fazíamos deliciosos passeios nos Parques do Abaeté e de Pituaçu. Quem hoje se sente seguro entrando nesses parques? O medo encerra a população dentro das grades dos condomínios. Ali, crendo-se protegidos, resguardam-se do convívio comunitário.

Não vejo reparo a se fazer na reportagem do jorna novaiorquino. Parece que vivemos em algum cenário de faroeste ou, pior, alguma fronteira de ficção científica, num momento em que a humanidade desiludida, se debate pelas ruas. Salve-se quem puder!

4 thoughts on ““Deu no New York Times”

  1. A sensação que temos é que os nossos governantes não estão nem um pouco preocupados com o que acontece. Como bons conselheiros eles advertem: “.. . melhor deixar na carteira o dinheiro do ladrão…”, “… não resista…” … e por ai vai. Antigamente o interior era tranquilo. Infelizmente agora é em todo o Estado da Bahia.

  2. Márcia
    Creio que não há mais nenhum lugar seguro. Vivemos sobressaltados, com medo de todos e tudo. A presença de policiais não nos deixa tranquilos. Eles agem como se todos fossem bandidos. Só a fé em Deus nos dá conforto e a esperança de sair e chegar incólume.
    Abraços de Terezinha

  3. Márcia,
    Imagino o sufoco que você passou com o policial revistando seu carro. Era para lhe proteger, mas faz muito medo porque a nossa polícia é muito despreparada.
    A nossa cidade está um horror! Eu que não saio de casa, já levei sustos aqui na porta.
    Uma vez, saí para andar aqui na calçada com minha mãe, vi um rapaz assaltar algumas estudantes do Sartre, roubando-lhes os celulares. Estávamos a um metro de distância.
    De outra vez, perto de nós, vi um sujeito parar a moto e sacar a arma para outro que estava no carro.
    Depois desses sustos aconselhei minha mãe a andar dentro do Play Ground.
    Todos os dias rezo muito e peço a Deus proteção para todos que precisam sair de casa.
    Beijos.

  4. Marcia, se possível, o ideal é se morar proximo ao trabalho!
    Mas a violência está em toda Bahia. A outrora tranquila Vila de Inhatá está dominada por bandidos, assim como outras vilas e cidades de pequeno porte do nosso estado! O maior perigo corre o aposentado que vive na zona rural, que são alvos fáceis dos meliantes!
    Essa violência decorre em parte da impunidade. As leis penais são brandas e o sistema penitenciario é um verdadeiro paraiso: internet, visitas íntimas e drogas!
    Enquanto não foi emendada a Constituição Federal no sentido de se instituir trabalho aos sentenciados, a criminalidade não reduzirá!

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