O passar dos anos

Minha avó vai completar 91 anos.É uma mulher saudável, risonha, bem humorada, inteligente, cheia de disposição. Muito cuidadosa com a alimentação e apaixonada por leitura que insistimos em censurar – vetei “A vida dos doze césares”, de Suetônio, pois achei “forte” demais para seu coraçãozinho nonagenário.

Ter uma mãe, avó ou bisavó com mais de 90 anos é uma dádiva que nem todos podem usufruir. A convivência com as pessoas mais velhas nos oferece oportunidade de manter contato com outro mundo, outro momento, outra perspectiva. É necessário ensinar aos filhos, desde muito cedo, a apreciar o contato com os idosos, sejam ou não parentes.

Ao longo da vida, sempre tive a sorte de conviver com muitos idosos. Por opção de meus pais, desde muito cedo, frequentávamos regularmente as casas de avós, bisavós ou simplesmente amigos com mais idade. As visitas vespertinas de domingo faziam parte de nossa rotina familiar e me presentearam com doces lembranças.

Não guardo recordações da mãe de meu avô, carinhosamente chamada de “Dás”. Eu tinha apenas 6 anos quando ela faleceu e, ao contrário de alguns amigos, não lembro  de muito coisa desse período de minha vida. Sempre ouvi contar que Dás fazia o tipo da avó que dava cobertura a todas as traquinagens dos netos. E que não eram poucas. Fiquei sabendo, por exemplo, que Beto e Chico, muito arteiros, foram poupados de algumas palmadas por conta do apoio da Vozinha.

O nome da mãe de minha avó materna era Leonor, mas eu sempre a chamei, como minha mãe e meus tios, de “Nonô”. Para mim, ela sempre foi um poço de meiguice e carinho. Adora visitá-la e ficar sentada à beira de sua cama, ouvindo as histórias de sua meninice. Éramos muito amigas.

Hoje sei que ela era muito temida por todos. Ficou viúva muito cedo, com dez filhos para criar. Trabalhava muito e era enérgica, pois era a forma que conhecia de manter o controle e garantir que os filhos, sem a presença do pai, não se desviariam do “bom caminho”.

Certa vez, meu tio Beto veio nos visitar com a família. Decidiram fazer um passeio na casa de Nonô. Minha mãe, que sempre morreu de medo da avó, orientou meus primos a jantarem antes de sairmos, pois ninguém, em hipótese alguma, deveria dar vexame ou ficar chorando com fome durante a visita. Eu, que sempre fui inapetente, consegui desviar e sair de estômago vazio.

Parecia ensaiado: chegamos à casa de Nonô na hora do jantar. Todos sentamos na sala, conversando, enquanto o povo da casa terminava a refeição. Muito espevitada, disparei:

– Hum, Nonô… Que delícia, eu quero jantar com você.

Silêncio na sala. Minha mãe gelou, lembrando da avó rígida que regrava até as fatias de goiabada que os netos comiam. Ela não sabia que eu e Nonô éramos íntimas…

– Sente, Márcia. Fique aqui do meu lado. O que você quer, minha querida? – disse minha bisavó.

Enquanto todos observavam, eu e Nonô, animadamente, jantamos, conversando e rindo. E assim foi durante toda a nossa convivência. Não foi longa. Ela faleceu no dia de meu aniversário de 9 anos.

Muitos outros idosos passaram por minha vida. Lembro de algumas amigas de minha avó, no interior, como Senhora, Senhorazinha, Maria de Sâo Bento, Fulô. Todas adoráveis, hospitaleiras, boas de papo, risonhas, amorosas…

Desde muito pequena, fui amiga de Dona Zinha, antiga amiga de minha família. Contam que, quando bebê, eu deixava o colo de minha mãe assim que a avistava. Éramos tão unidas que, em minha infância, eu pedia para passar pelo menos uma semana das férias na casa dela. Dona Zinha era viúva e não tinha filhos, apenas uma enteada de idade próxima à dela, de quem era muito amiga. Colecionava amigos por onde passava com seu jeito meigo e emotivo.

Quando estava na casa dela, eu insistia que me ensinasse suas receitas secretas: bolachinhas de goma e de nata, cocadinhas, bolinhas de jenipapo… Ela ensinava tudo, pacientemente. Eu prestava atenção, mas, depois que comia as guloseimas, esquecia o aprendizado. E no dia seguinte retomávamos as lições.

Seu aniversário de 90 anos foi comemorado numa festa oferecida por meu pai. A nossa casa ficou cheia, pois ela cultivou amigos durante toda a vida. Eu fiquei adulta, tive uma filha e nós continuamos nossa amizade. A cada vez que íamos visitá-la, éramos recebidas com lágrimas:

– Você não esquece de sua velhinha… Minha filha, você era pequenininha e já gostava de sua velha. Você é a minha princesa.

Eu me emocionava com a sua devoção e o meu coração se enchia de felicidade cada vez que nos abraçávamos. Ela faleceu pouco antes de completar 99 anos, tendo construído uma rede de amigos tão ou mais sólida do que uma família.

Tivemos uma amiga chamada Lalinha que era vizinha de minha mãe. Minha filha era louca por ela. Magrinha, Dona Lalinha sonhava engordar mas não sentia apetite e não gostava de comer. Mas apreciava uma cervejinha que, ela sabia, era sempre oferecida quando vinha passar a tarde na casa de meus pais.

A bisavó paterna de minha filha chamava-se Elza e era muito fofinha. Baixinha, gordinha, muito branquinha com cabelos alvos como nuvens. Tinha pernas lindas, lisinhas, macias, torneadas, que todos admirávamos. Ela adorava Zezé di Camargo e outros sertanejos e, quando eu ia visitá-la, me convidava a assistir o programa de Silvio Santos para acompanhar a apresentação de seus cantores favoritos. Embora não gostasse de sair de casa, ela concordou em viajar para o meu casamento, que aconteceu no interior. Ela não conheceu minha filha, pois faleceu um pouco antes.

Meu avô paterno era viúvo e morava em Salvador. Sua casa tinha um longo quintal que era o nosso mundo encantado. Crianças, eu e meu irmão mais velho brincávamos soltos, entre goiabeiras e tomateiros. Meu avô era um homem muito disciplinado. Foi o primeiro “dono-de-casa” que conheci. Recordo dele já aposentado, dedicado à vida doméstica. Cozinhava muito bem – deve ter sido herdado dele o talento culinário de meu irmão -, cuidava da casa e da horta sem nunca descuidar da aparência. Como era de se esperar em um homem nascido em 1904, estava sempre bem barbeado, penteado, trajando calça, camisa e sapato social. Quando vinha passar o domingo conosco, ele gostava de contar as histórias de sua infância com os irmãos e as aventuras no colégio de padres onde foi aluno interno.

Acompanhei o envelhecimento de algumas das pessoas que mais amei na vida, como meu avô Joubert e minha tia-avó Cota, sobre quem tenho muito, muito a falar. Hoje temos algumas boas amigas com mais idade, como Wanda ou Eridan, vizinhas de meus pais, muito queridas. Estive, também, assistindo o tempo passar para minha amada avó Peró, enquanto eu mesma também deixava de  ser garotinha…

E essa Dona Peró – tenho que dizer! – é uma espoleta. Às vezes, ela vem passar a manhã ou almoçar conosco. Toma o sol matinal, come suas frutinhas, faz palavras cruzadas, lê umas páginas de seu livro do momento – ela adora Augusto Cury – e está sempre puxando conversa e dando risada. Seu bom humor parece eterno e sua alegria torna qualquer ambiente mais sereno e agradável.

Envelhecer é uma arte e poder aproveitar a companhia dos mais velhos, uma dádiva.

6 thoughts on “O passar dos anos

  1. Marcia, que lindo!Realmente, envelhecer é uma arte. Eu já estou com 82 anos mas ainda não me sinto tão velha a não ser na fisionomia por conta da pele enrugada. Faço um bom pareo com netos e netas para conversar, contar piadas, passear. Quase sempre trocamos no celular ou no Facebook mensagens de carinho e nos visitamos.
    Neto é o consolo que o Pai nos dá depois que os filhos crescem e se vão.Através deles continuamos vivas e por muito tempo falarão em nós e assim, seremos quase eternas. Parabens por dar valor a suas avozinhas. Um abraço.

  2. Márcia
    Ao ler o seu texto, pretendia fazer um comentário, todavia me emocionei e comecei molhar o teclado. Coisas de velha!
    Os anos passam! E como passam! Imagine você, eu que nasci ontem, no próximo ano, vou fazer “setenta aninhos”.Estou chegando ao topo. Doravante, tudo mais que vier é lucro. O Serviço Público não nos aceita quando atingimos esta idade, somos considerados senis e improdutivos, mesmo que tenhamos muita experiência e disposição laborativa.
    Espero ter aprendido as lições que a vida me ensinou, caso contrário, não valeu a pena.
    Não sei se com a idade eu aprimorei as minhas qualidades, ou aperfeiçoei os meus defeitos. A gente não sabe responder bem à esses questionamentos. A resposta fica por conta dos amigos; se condescendentes, responderão: você está muito bem, de corpo e de alma. Os desafetos responderão: quando jovem, já não era essas coisas, mas com a idade está piorando muito, ficando cada vez mais ranzinza. Como espero não ter desafetos, a resposta será favorável.
    Uma coisa eu aprendi e ponho sempre em prática: eu não supervalorizo as
    coisas em detrimento das pessoas. Os bens materiais passam, as pessoas não. Mesmo quando partem, suas lembranças permanecem vivas, deixando-nos saudosos. Mas é uma lembrança agradável, são recordações do carinho recebido, dos bons momentos vividos.

  3. Márcia
    Foi emocionante as suas lembranças
    Que saudades dos nossas velhinhos!
    Beijos de Terezinha.

  4. Márcia,
    Como está lindo este texto!…
    Como é bom relembrar os nossos velhinhos! Deu uma saudade…
    Aproveitemos para cuidar com muito carinho, dos que estão perto de nós. (Eu sei que você cuida!)
    Beijos.

  5. Márcia, como você, amo conviver com pessoas idosas, ouvir suas histórias de vida, experiências. Cresci convivendo com os idosos da família e da vizinhança.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

cinco × 4 =