Modestos progressos

Quase todas as pessoas têm algum hábito que gostariam de modificar. Os manuais de auto-ajuda fornecem fartas orientações para qualquer mudança que se deseje. Distribuem a fórmula da felicidade, ensinando passo-a-passo como parar de fumar, mudar a alimentação, tornar-se um atleta e coisas tais.

Pessoa inquieta que sou, vez por outra tento vencer algum desses desafios. É quando me confronto com o fantasma que assombra o homem moderno: o fracasso. Fracassei por não conseguir superar o vício de café. Fracassei por continuar comendo doces, que – sei bem! – impedem a perda dos cinco quilos que me separam de minha meta. Não posso dizer que fracassei quanto à atividade física, pois nem mesmo tentei retomá-la.

Reconheço que não tenho grandes vícios. Nunca fumei nem fiz uso de drogas. O consumo de álcool é limitado a uma ou duas taças de vinho numa romântica noite de sábado ou, alternativamente,  a uma caipirinha. E, embora o romantismo seja a regra, nem todos os sábados incluem o vinho.

Sendo bastante honesta, vivo uma excelente fase e os meus fracassos parecem irrelevantes. Deixando de lado a dimensão que possam ter as mudanças a serem implementadas, observo que a probabilidade de obter êxito cresce à medida em que são estabelecidas metas graduais, modestas.

Por que falhei ao tentar deixar o café? Por adotar uma medida drástica, de restrição total. O cheiro do café novo vindo da copa nunca pareceu tão tentador. As alternativas utilizadas, como chá ou café descafeinado, não surtiram o efeito desejado e retornei ao café. Voltei ao ponto de partida.

Os resultados foram melhores com os doces, embora ainda muito distantes do objetivo traçado. Reduzi o consumo diário de guloseimas. Por exemplo, os docinhos vendidos pela copeira no trabalho, que faziam parte da rotina vespertinas, foram suprimidos. Conservei, contudo, o prazer de, ocasionalmente, saborear uma fatia de torta especial. E houve dias, confesso, em que afundei no açúcar, como se nada mais houvesse no mundo.

Extrai duas conclusões dessa experiência. A primeira delas é que temos de caminhar a passos curtos para chegar mais longe. A segunda, que fracassar é uma arte para poucos. Alguns eleitos sabem lidar com a frustração de seus planos sem abandoná-los. Compreendem que uma nova estratégia deve ser utilizada ou que os planos precisam ser reformulados. E têm certeza de que falhar faz parte da evolução que se busca. Antes de saborear a vitória, é preciso aprender a encarar a derrota. O ideal olímpico,representado pela máxima “o importante não é vencer, é participar”, serve de lição para a vida: competir sempre, persistir apesar dos resultados negativos que possam ocorrer e conservando a atitude leal e generosa, nunca desistir dos sonhos.

Ainda não desisti dos modestos planos de mudança de hábitos: reduzir o consumo de café a uma xícara por dia; durante a semana, apenas o açúcar das frutas e, no final de semana, consumo moderado de tortas e sobremesas; atividade física já. Retomo, então, do ponto em que havia interrompido – redução gradual do consumo de café -, prossigo na luta contra o açúcar e inicio o exercício físico, que – vergonha! – já não faz parte de minha rotina há mais de seis meses.

Se falhar, devo refletir sobre o motivo da queda e recomeçar. E não esquecer de comemorar cada conquista, como fazem os Alcoólicos Anônimos, festejando cada dia em que não tomei café nem comi doces e reconhecendo meu próprio valor e força de vontade a cada dia que vá à academia e cumpra a rotina de exercícios.

Comemorei o primeiro ano de existência do blog levando uma torta aos amigos do trabalho. Vou começar a me premiar por outras conquistas: a primeira semana sem café e doces e o primeiro mês de atividade física podem ser celebrado com algum pequeno prazer, como um passeio à Ribeira ou uma tarde na livraria. Ou o magnífico prazer de nada fazer e apenas usufruir a satisfação com o sucesso.

Ser perfeito todos querem. Brindar o sucesso é fácil. Saber fracassar é uma arte para poucos. Para os fortes. Para os vencedores.

3 thoughts on “Modestos progressos

  1. Vencer os pequenos vícios deve ser uma busca constante e incessante. É que tento fazer.Pelo menos, já consegui firmar nos exercícios físicos em nome da saúde e bem estar e como já formei um grupo de amigas animadas como eu na academia ando bem estimulada nessa jornada.

  2. Márcia,
    Que mal há em se gostar de café? Gosto demais. Não tenho problemas com sono, não tenho problemas com estômago. Sempre fiz uso de café. Depois que comecei a avançar um pouquinho na idade, comecei a ter certo cuidado: Só tomo café com leite.
    Acredito que nada faz mal, desde que seja feito com moderação (exceção para a droga.)
    Quanto a fazer atividades físicas; vamos aguardar o verão que o corpo fica mais disposto.
    Não vejo nenhum problema em se ter um quilinho a mais.
    Se o açúcar está normal, a pressão arterial também. Tudo está ótimo.
    Beijos.

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