Aspiração da vida inteira

Vivendo o momento presente, somos múltiplos. Exercemos papéis específicos nos diversos contextos da vida, embora, por vezes, eles se intercambiem.

Em um exercício simples, podemos relacionar os diversos aspectos da vida. Eu, por exemplo, sou, antes de qualquer outra definição, a mãe de uma adolescente às vésperas do vestibular. Sou, também, filha, irmã, tia, madrinha, namorada, neta, cunhada, sobrinha, prima. E, mais, amiga, profissional, colega de trabalho, vizinha, cliente, paciente, dona-de-casa, consumidora. Devo, ainda, lembrar que sou eterna estudante, escritora, leitora, editora, desenhista, costureira, bordadeira, decoradora, pintora, artesã. Ufa! Quase todos esses papéis são aspectos e consequências das escolhas que fiz ao longo da vida. É isso: todos nós somos múltiplos, em nossos papéis e atividades.

Se a “virada da primavera” nos propõe a concentração no presente, vale a pena refletir sobre esses papéis. Conscientes de que colhemos hoje os frutos de nossas ações no passado e sabedores de que as atitudes de hoje semeiam os resultados do futuro, devemos focar no momento atual. E não poderia ser de outro modo, já que o futuro é tão incerto que é muita bobagem viver somente por ele. Assumir a responsabilidade pelas consequências das escolhas é uma coisa muito diversa de criar e viver em função de expectativas.

Focar no presente exige de nós uma atitude bastante consciente para definir as prioridades e buscá-las com alegria. Se o meu plano atual é acompanhar minha filha no momento de preparação para o vestibular, preciso compreender o que isso significa. Tenho de abrir mão de alguns passeios e viagens. Alguns finais de semana serão consumidos com revisões e aulas extras. Não poderei contar com sua companhia em algumas festas e passeios no shopping. E, mais, preciso velar por sua tranquilidade, buscando poupá-la de tensões desnecessárias, apoiando-a nos momentos de maior stress. Chazinho de cidreira, comidinha leve, ambiente silencioso, interesse sincero por seus assuntos escolares e extraescolares.

Se fico pensando nisso, soa até engraçado, pois, embora tenha sido aprovada, eu fui uma pré-vestibulanda bastante displicente. Lembro bem que, naquele tempo, eu não me importava com o desafio que havia à minha frente. Simplesmente gostava de estudar. Estudava pelo prazer do conhecimento, como faço até hoje. Não é corujice, mas sei que a minha filha é muito mais madura do que eu era em sua idade. O processo de escolha do curso e da universidade que pretende cursar foi conduzido de maneira refletida, ponderada, dialogando com pessoas que trabalham na área, pesquisando de maneira atenta as condições de trabalho, o mercado profissional, as perspectivas futuras, as áreas de conhecimento envolvidas. Apesar das diferenças em nossos processos de escolha, hoje penso que, se naquela época eu pudesse refletir tão profundamente como ela, visualizando com clareza o meu futuro, provavelmente teria escolhido seguir o mesmo caminho que já trilhei. A minha escolha intuitiva revelou-se adequada ao meu plano de vida.

O meu papel de mãe me absorve bastante e, em contrapartida, causa grande satisfação. Não há desafio maior do que a maternidade nem alegria que a supere. Fiquei encantada ao ler, dia desses, que nós, seres humanos, buscamos, na descendência, a eternidade, a imortalidade. Sonhamos com a perpetuação do indivíduo através de filhos, netos, bisnetos etc. Essa teoria é bastante poética e pode estar gravada em nosso inconsciente, mas é muita metafísica para o assunto que nos prende aqui hoje. Quando falamos em momento presente, vivemos a mais real e deliciosa face da maternidade, que é o enfrentamento diário dos desafios, alegrias, decepções, tudo que nos faz maiores e melhores.

A mesma relevância tem, para mim, os outros papéis que represento em família, em especial como filha. Gozo da felicidade de ter nascido em uma família muito unida, guiada por um casal de firmes convicções e valores consolidados. Liberdade, responsabilidade, trabalho, estudo, respeito ao outro sempre foram a cantiga tocada na casa de meus pais e que serve de guia para a condução de minha própria vida familiar. Sou filha, neta, irmã, tia, cunhada, madrinha, comadre e vibro em poder estar o mais perto possível de cada um deles.

Outro dia, em conversa com algum dos meus amigos nerds, eu dizia que o jogo The Sims traz uma excelente representação da vida. Para quem não conhece, é um jogo para computador em que simulamos a vida. Criamos o personagem, com suas características físicas e psicológicas, desenvolvemos o bairro e colocamos a população para interagir. É preciso trabalhar, cuidar da casa, alimentar-se, relacionar-se com vizinhos. Podemos estudar, namorar, passear e, como na vida real, um dia, jovem ou velho, morrer. Esse joguinho fascinante oferece as opções de aspiração de vida: família, popularidade, riqueza, conhecimento, romance, prazer. Cada aspiração implica em desejos de toda a vida correspondentes. Vou exemplificar: o personagem que tem aspiração por família deseja ter seis netos, chegar à bodas de ouro, formar três filhos na universidade. Se a aspiração for romance, seus desejos seriam ter 20 romances ao mesmo tempo ou ter “oba-oba” com 20 Sims diferentes. Dá para notar a diferença…

A nossa vida não é tão extrema. Existem nuances que não são captados pelo jogo, mas vejo que, de maneira mais tênue, seguimos a nossa aspiração. Quem valoriza a riqueza pode passar a vida jogando conversa fora, bancando o espiritualizado ou o bondoso, mas terá sempre, como norte, o enriquecimento material.

Não podemos negar nossa essência. Devemos tomar consciência de que vivemos muitos papéis mas somos apenas um. É preciso guardar coerência. Em cada uma dessas facetas somos sempre os mesmos: o que resta depois que se afastam as convenções e expectativas sociais. Somos o resultado de nossas experiências e reflexões. Para viver o momento atual, devemos estar conscientes do que realmente importa. Devemos fechar os ouvidos aos apelos externos e olhar para dentro: o que me faz feliz? O que eu desejei para a minha vida? E o que eu desejo agora? Isso é o que importa e deverá ser o ponto de partida para as nossas escolhas.

1 thought on “Aspiração da vida inteira

  1. Márcia
    Gostei muito do texto. Realmente, cada um de nós, por mais simples que sejamos, desempenhamos múltiplas funções. Uma simples dona de casa, que pensa ter papel secundário, é de fundamental importância para a sociedade. Pois cuidando bem da família, ensinando as prática do bem, do amor e do perdão, ela prepara cidadãos íntegros para o mundo. E é tudo que precisamos.
    Sei que o bem prevalece, todavia o mal é tão devastador e tão noticiado, que pensamos estar imersos num “mar de lama”.
    Concordo com você, sobre a questão de estabelecer prioridades. Vamos cuidar inicialmente das coisas mais importantes.
    Na realidade o que importa mesmo é sermos felizes.
    É engraçado, o que nos faz feliz hoje, não é a mesma coisa do passado! Na mocidade somos mais exigentes. Com a maturidade somos mais comedidos, mais conformados com as limitações impostas pela idade.
    Quero aproveitar para desejar boa sorte a Luisa. Diga a ela que não se estresse muito com o vestibular. Como dizem os estudantes relapsos: “vestibular é como carnaval, tem todo ano”. Eu estou brincando, sei que ela vai tirar de letra, só precisa relaxar, pois a ansiedade é a inimiga número um dos estudantes.
    Abraços de Terezinha.

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