Aposentadoria compulsória

Tenho lutado arduamente para conservar a disciplina e escrever três textos semanais. Sinto-me uma felizarda, pois, em frente ao teclado, sinto que as palavras brotam livremente. Evito impor limites ao fluxo de ideias e, por vezes, o que seria um texto, ou um poema, se desdobra em outro. Ou dois textos independentes são reunidos e convertidos numa única composição.

O mais difícil não é escrever. Escrever é prazer, deleite, alegria. Trabalhoso é conseguir tempo livre, com silêncio e tranquilidade para a escrita. Nesse turbilhão de compromissos que me fazem sair da cama todos os dias às 05:30h, procuro uma brecha em minha vida. Quando ela aparece, fico dividida entre o desejo de escrever e a necessidade de ler.

Gosto de ler dois ou três livros concomitantemente. Quando faltam  50 páginas para o final, escolho outro livro na estante e coloco na lista de espera. Agora, por exemplo, terminei de ler “A parte e o todo”, de Werner Heisenberg, e estou engatilhando uma biografia de Sinatra. Meu vício é tão escancarado que o cabeleireiro, ao me ver chegando ao salão, vai logo perguntando: “Não trouxe um livro hoje, não?” “Trouxe, sim. Que pergunta…”, respondo, rindo.

Em toda essa história de gostar de ler, escrever e coisas afins, tive a oportunidade, ao longo desse ano, de compartilhar ideias, contar histórias, dividir emoções, render homenagens. Fico sempre radiante quando descubro que o que escrevo agrada ou provoca. E, embora não tenha conseguido arregimentar novos colaboradores para o blog, tenho descoberto, dentre os queridos comentaristas, grandes talentos.

Um comentário, em especial, me chamou a atenção, nesta semana. Uma médica pediatra, com quarenta anos de experiência, deve ser obrigada a aposentar-se ao completar setenta anos? Qual o sentido de forçar a retirada dos mais experientes? Um professor universitário, com boa saúde, deve se afastar das salas de aula por limite etário? Qual o significado de envelhecer para nós, ocidentais? O que tememos? O que buscamos?

É certo que os jovens, ansiosos pelas oportunidades de emprego, dirão que é necessário ceder lugar aos que chegam. O Estado dirá que, aos setenta anos, o servidor público gera mais despesas do que utilidade. O que dizem os usuários? O que pensam os alunos sobre os professores mais velhos? Ou sobre médicos com mais idade? Estarão realmente defasados? O que se aprende no cotidiano e na prática não tem valor? Como podemos desperdiçar todo o conhecimento acumulado por nossos cientistas e estudiosos por conta de um simples marco temporal?

É certo que, nas carreiras burocráticas e meramente administrativas, não vemos a mesma resistência à aposentadoria compulsória (ou “expulsória”, na linguagem dos corredores). Em geral, o servidor, ao completar quarenta anos de idade, começa a fazer as contas de quantos anos faltam para a sua aposentadoria. E sonha com esse dia em que não terá que ir trabalhar. Nesse dia, poderá, enfim, ser tudo aquilo que sempre sonhou na vida. Poderá, também, fazer as viagens que deseja, dormir até mais tarde, passar as manhãs na praia, bater perna no shopping todos os dias etc etc. E depois? O que fará? Porque até passear e dormir cansam.

Nem todos pensam assim. São muitos aqueles que, por paixão pela profissão que abraçaram, sofrem com a retirada. Confesso que, até pouco tempo atrás, eu dizia que pediria a minha aposentadoria no dia seguinte à aquisição do direito. Hoje ponho em dúvida essa resolução. Deixemos que o tempo me mostre se serei ou não produtiva. Se permanecer extraindo do trabalho a satisfação que hoje obtenho, certamente tentarei prorrogar um pouco mais meus serviços. Mas o meu limite também serão os setenta anos, para tristeza ou alívio de meus colegas de então. Deixemos o futuro em paz.

O grande desafio na vida de cada um de nós é viver o momento presente, pois, como diziam os estóicos, o ontem e o amanhã não existem: nós só temos o dia de hoje. É necessário viver o instante atual, sem permanecer preso às lembranças nem projetar para o futuro o momento de plenitude a ser alcançado. Sem nostalgia e sem esperança. Apenas usufruindo a grande felicidade de estar e fazer parte do universo.

Não há escolha. Ao completar setenta anos, deverá a médica, o professor, o juiz, todo servidor público aposentar-se e, ou calçar os chinelos, ou engajar-se na vida privada e descobrir novas alegrias. Só nunca pare, doutora. Nunca pare de curar o corpo e a alma dos que te procuram. Não permita que a ingratidão do Estado desbote sua doçura nem molhe o seu sorriso.

É viver o dia de hoje. Aproveitar o sol da manhã. O sorriso das crianças. A brisa do mar. O afeto familiar. O sono dos justos. Sem tristeza nem saudade. Sem expectativas nem temores. Vamos permanecer conectados ao presente, pois a nossa jornada no universo não nos pertence.

“Avaliadas pela escala temporal humana, a vida, a música e a ciência prosseguiriam para sempre, ainda que nós mesmos não sejamos mais do que visitantes transitórios, ou, nas palavras de Niels, simultaneamente espectadores e atores do grande drama da vida.” (Werner Heisenberg)

4 thoughts on “Aposentadoria compulsória

  1. Hum, seu texto tocou fundo em mim.
    Minha aposentadoria se aproxima e tendo refletido muito sobre a hora de deixar meu trabalho que amo tanto, meus colegas queridos, a convivência prazerosa do dia- a -dia no atendimento “aos meus queridos advogados”. Nesses anos sei que fiz bons e sinceros amigos.
    Por outro lado, já trabalho há trinta e oito anos, portanto, oito anos além do necessário e apesar da energia que ainda tenho para trabalhar está chegando a hora de alçar outros voos.
    Estou planejando livrar meus colegas…

  2. Márcia
    Vejo que não somos tão diferentes assim; sobre alguns assuntos concordamos.
    Ainda sobre a Aposentadoria Compulsória. Nós às vezes, sentimos apego a um cargo, a um trabalho qualquer; talvez na vã esperança de conservar a mocidade Tudo isso é tolice! Os anos vão passando, e nós constatamos que a melhor fase de nossa vida é a presente. É o hoje que interessa, já que nenhum de nós pode prever o amanhã.
    No meu caso específico, além de poder continuar trabalhando ( se a saúde e a lucidez não me abandonarem), ainda posso contar com outros afazeres também prazerosos: como pintar, costurar, escrever etc
    Tenho ainda trabalhos voluntários na Igreja, além do grupo de idosos do qual faço parte há mais de dez anos.
    Na convivência com o grupo de idosos percebemos a importância que é a vida em comunidade: Temos pessoas simples, até analfabetas, mas com lições para muitos doutores. Fazem questão de partilhar o pouco que têm, e de doar o que de melhor possuem: a bondade, o amor e a solidariedade.
    Quando se ama e se tem boa vontade, as limitações físicas não são empecilhos para ajudar aos mais necessitados.
    Bem, acho que os meus velhinhos vão gostar da minha aposentadoria!
    Beijos de Terezinha

  3. Oi Márcia!
    Este seu texto nos leva a refletir bastante.
    É verdade que o povo jovem precisa de oportunidade. Mas não é justo com aquele que trabalha por amor à profissão, conta com muita experiência e, ainda tem muito a oferecer.
    Beijos.

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