Guardar, conservar, perder, restaurar…

A vida inteira ouvi a recomendação: “Faça back-up de seus arquivos”. Tinham razão os conselheiros. Inesperadamente fui surpreendida por uma pane em meus sistemas informatizados. E nem deveria ser surpresa, pois, se acontece em grandes empresas, que possuem equipe especializada a dar suporte técnico, o que poderia esperar uma mera usuária doméstica?

Aconteceu na segunda-feira. Usava o computador do modo costumeiro e, ao chegar o horário de buscar minha filha no ballet, desliguei a máquina e sai. Ciumento, vingativo, o meu computador rebelou-se. Após 3 anos de união e cumplicidade, a área de trabalho do Windows deu o pinote, desapareceu, levando com ela meus arquivos. E não apenas eles. Como a Rita do Chico Buarque, “levou os meus planos, meus pobres enganos”, a declaração do Imposto de Renda, minhas fotos, meus estudos, projetos… Eu, displicente, nem sequer havia anotado o endereço do blog. Sim… Nem em outro computador eu conseguia retornar ao editor do blog.

Refletindo bem, acho que foi muito bem feito para mim. Uma lição para que deixasse de criticar a desorganização alheia (não é, mãe?) e tratasse de arrumar as minhas coisas. Graças à minha curiosidade e persistência, investiguei, futuquei e descobrir um modo de ter acesso aos arquivos. A greve do Windows continua, mas descobri uma “manha” que me permite ver os arquivos e copiá-los para um pen-drive.

Computador novo, vida nova. Agora com tudo organizadinho e cópia de segurança. Resgatei meus arquivos e, após a lição da semana, tomei vergonha,passando a dedicar mais tempo à arrumação da casa nova, que, até hoje, dois meses e meio após a mudança, ainda está cheia de caixas. C’est la vie! Haja música para embalar as manhãs de trabalho, armando móveis e desencaixotando objetos. Livros, revistas, documentos, roupas, sapatos. Como guardamos coisas!

A dedicação empregada na restauração de arquivos de computador é justa. Precisamos de nossos documentos e fotos. Amamos as músicas que guardamos em nossa playlist. Se eu realmente perdesse tudo o que tenho no computador, nem conseguiria recuperar tudo, simplesmente por não possuir um inventário de conteúdo digital. É triste perder um livro querido, os arquivos de fotos, uma blusa favorita. Tomamos o máximo cuidado para conservá-los. E com as pessoas. o que fazemos? Guardamos o afeto? Conservamos o amor? Quanto mal nos causará perdê-las! É possível recuperá-las?

Antes da chegada da “indesejada das gentes”, sempre é possível recuperar, reconstruir, restaurar, resgatar o amor. Modificado, alterado, evoluído, sofrido, ferido, cicatrizado, redimido. O amor é sempre o amor, seja ele dedicado a parentes, amigos ou à cara-metade. Sempre  haverá uma escolha a ser feita: conservar ou perder? E, uma vez perdido, sendo amor, é necessário persistir. Não podemos desistir, por sabermos que ele, o amor, transmutado pelo tempo e pela dor, há de ressurgir mais forte, renovado, amadurecido. Renascido, ao nosso lado permanecerá, com as forças redobradas após a queda do Paraíso.

Guardar, conservar, perder, restaurar… Arquivos, fotos, amores, amigos… “É preciso fazer back-up”. Temos que fazer back-up de nossos corações e cultivar as lembranças dos primeiros tempos. Assim, quem sabe, se um dia o amor hesitar, saberemos onde resgatar toda a doçura do começo.

6 thoughts on “Guardar, conservar, perder, restaurar…

  1. Que bom Marcia que v. voltou. Eu também estive fora por uns 3 meses, com problema semelhante ao seu. Meu neto me presenteou com um Lap Top e estou tentando me acostumar a ele. Se v. não me identifica agora pelo nome, quero dizer-lhe que sou aquela tia da Marilu Tourinho e que v. até já publicou há um tempo atrás alguma coisa minha
    sobre Cartas de amor.
    Estou curtindo aqui seus novos títulos e pretendo le-los com calma e fazer meu comentário. Só repito: obrigada por ter voltado. Lourdinha

  2. Muito poético…
    Quisera eu, ter este dom!
    Tudo muito lindo ! Mas eu fiquei pensando: um dia você tinha que dar uma escorregada. Afinal você não é só filha do seu pai( que é tão organizado) é filha da sua mãe também.
    Graças a Deus conseguiu salvar tudo.
    Beijos.

  3. Márcia
    Como sempre, gostei!. Você sabe que eu sou sua fã.
    Seria uma pena se você perdesse todos os seus arquivos, eles são importantes..
    Entretanto, quando a pane acontece com o relacionamento humano o dano é maior. Porque para se restaurar uma amizade perdida não é fácil. Por isso eu sempre digo: dou mais importância às pessoas do que as coisas. Procuro nunca ferir as pessoas, se às vezes magoo alguém, é involuntariamente. Não quero ter desafetos. Quero cultivar amigos. São eles que tornam a vida melhor.
    Abraços de Terezinha

  4. Adorei essa postagem principalmente pela comparação com o amor, esse sim temos que fazer back up sempre para renová-lo, seja com cara-metade, seja com filhos, netos, familiares, amigos e principalmente com Deus.
    Um abraço
    Marilu Tourinho

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