Em Jamestown…

A melhor maneira de não ir a lugar algum é não saindo do lugar. Óbvio? Nem tanto. Não é raro ouvir as pessoas reclamarem da vida. Queixam-se do trabalho, do marido/esposa, da casa em que vivem, do patrão, da sogra, do cunhado, do vizinho, do mecânico, do motorista ao lado, da violência, da falta de opções de lazer, do alto preço das coisas… Não há limites para a nossa insatisfação.

Muitas das reivindicações precisam ser dirigidas a quem possa atendê-las. Estamos, em várias instâncias da vida, limitados pelo modo de organização da sociedade. Vai construir? Precisa de um alvará da Prefeitura. Quer guiar um carro? Antes há que se habilitar, seguindo as etapas legalmente fixadas. Foi roubado? Tem que contar com a polícia, por mais ineficiente que ela possa ser. E por ai vai.

Passamos a reclamar do governo e suas leis. O modo como o poder público se interpõe entre o cidadão e os seus objetivos tem por justificativa a necessidade de regulação da convivência. Sem os limites impostos pelas leis e pela força coercitiva do Estado, poderíamos viver no Éden ou no inferno. Tudo dependeria da capacidade individual de respeitar o outro. Sem leis a nos guiar, a pergunta-chave da convivência seria: “E se eu estivesse no lugar do outro?” Ou “Isso é o melhor para a comunidade?”

Imagino uma cidade como a minha ou qualquer outra, em nosso belíssimo e descuidado país tropical. Se, por alguma inexplicável razão, ali surgisse, subitamente, uma comunidade anarquista, sem governantes ou a força impositiva das leis, em pouco tempo toda a população estaria morta. Os mais delicados, sumariamente eliminados na primeira semana, no trânsito ou na disputa por algum bem material. Os bravos partiriam para os duelos, como no Velho Oeste, lutando pelo domínio das riquezas, até que não restasse ninguém. Por fim, o último homem do lugar sucumbiria à inevitável escassez, pois seria obrigado a, sozinho, gerar energia, tratar a água a ser consumida,  produzir combustível, criar e abater animais, plantar e colher, preparar o seu alimento, cuidar da limpeza da cidade, tratar as próprias feridas.

Parece conversa de Saramago, mas não é. Os limites da humanidade podem ser ultrapassados com assustadora facilidade quando a sobrevivência é posta em risco.

Aconteceu na América, há 400 anos. Em Jamestown, primeira colônia inglesa na América, a situação de penúria enfrentada pela comunidade no início do século XVII levou à prática de canibalismo. Em seus primeiros anos, a comunidade havia implantado um sistema de produção coletiva, em que o fruto do trabalho comunitário era igualitariamente dividido entre todos. Atribui-se o fracasso da experiência ao fato de que, tendo garantida a sua cota-parte, independente de seu esforço pessoal, os habitantes não tinham estímulos para a produção de excedentes, necessários para o período de estiagem. Apesar da fertilidade do solo e da abundância de peixes, perus e veados, os homens não queriam trabalhar. A vagabundagem era o mal.

Naquele inverno rigoroso, as relações com os índios, que possuíam estoques de alimentos, haviam minguado e os suprimentos vindos da Europa eram insuficientes para alimentar a população. Após devorarem todos os animais domésticos e até os ratos da cidade, alimentaram-se do couro dos sapatos e ultrapassaram o último dos tabus, comendo carne humana. Atingido o limite absoluto da selvageria, os habitantes de Jamestown viram-se obrigados a rever o seu modelo econômico, garantindo uma porção maior àqueles que melhor trabalhassem. Um novo administrador inglês deu a cada homem três acres de terra e reduziu o tributo que deveria ser pago à matriz, despertando algumas atitudes que viriam a caracterizar o povo americano: o empreendedorismo e o gosto pela competição.

Essa história e a fábula anterior ilustram a necessidade de vivermos em comunidade, respeitando o outro e vivendo em prol do interesse comum. Se não por um sentimento de fraternidade universal, ao menos por frio cálculo, por saber que somos interdependentes. O mais bruto dos homens das cavernas era capaz de compreender que, unidos, tinham mais força, eram mais capazes de enfrentar as dificuldades. Sozinho, um homem não poderia enfrentar um mamute. Em grupo, coitadinho do animal…

De fato, a melhor forma de permanecer no mesmo lugar é não saindo do lugar. Viver em comunidade exige muito esforço e paciência. Não há, todavia, alternativa. É preciso sacudir a poeira, sair do lugar e caminhar em direção do outro.

4 ideias sobre “Em Jamestown…

  1. Excelente, Márcia !
    Concordo em tudo. Precisamos viver em harmonia para podermos crescer e evoluir como seres humanos civilizados. A solidariedade é a chave da sobrevivência. Sem união, a convivência é insuportável, pois somos todos interdependentes. O que seria do grande empresário sem os seus colaboradores? Sem seus empregados, nada poderia fazer.
    Um amigo nosso que participou de missão humanitária da ONU, nos contou, que durante o desastre natural que abateu o Haiti, ocorreram cenas de horror. As pessoas disputavam a tapas e pontapés os mantimentos recebidos. As crianças, os idosos e os doentes não eram respeitados, eram empurrados e privados dos alimentos que eram enviados dos diversos países. Foi preciso muita boa vontade, e psicologia para colocar um pouco de disciplina entre pessoas embrutecidas, que, em meio ao desespero da dor, da fome e do medo, esqueciam das mais elementares regras de convivência. Foi aí que a religião teve uma função conciliadora. A Igreja católica e demais igrejas cristãs prestaram uma assistência extraordinária.
    Atualmente, estão bem melhores, mas longe do ideal.
    É isso aí. Sem leis, sem regras, sem códigos de conduta, somos anarquistas, selvagens, depravados, corruptos e irresponsáveis. Precisamos de liderança. Não somos capazes de respeitar os direitos dos outros. Primeiro eu, segundo eu, e sempre eu. Com algumas exceções, graças a Deus,( senão a vida seria insuportável) somos egoístas, e sem educação.
    A regra ouro é esta: Não faça com os outros o que não quer que façam com você. Procure ser solidário, e verá que tudo fica mais fácil. De mãos dadas somos mais fortes e mais felizes.
    Abraços de Terezinha

  2. A vida em comunidade é lição a ser exercitada diariamente. Missão difícil, mas imprescindível para todos nós.

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