A arte de ser herói

Já escrevi sobre vilões do cinema. Agora podemos falar de heróis. Existe uma coisa boa em cada um de nós que faz vibrar pelos mocinhos.

Se procurarmos na Wikipedia encontraremos um conceito de herói que se encaixa muito bem: “figura arquetípica que reúne em si os atributos necessários para superar de forma excepcional um determinado problema de dimensão épica”. Os gregos os situavam entre os deuses e os homens. Ah! os gregos…

Os heróis gregos, em geral filhos de deuses, eram dotados de força e habilidade descomunais, sendo capazes de derrotar criaturas monstruosas. Contudo, embora os feitos de Hércules, Perseu, Aquiles sejam espetaculares, o meu herói clássico favorito sempre foi Heitor, príncipe de Tróia. Enquanto Aquiles lutava pela glória, Heitor defendia a sua cidade, lar de sua família. O meu herói predileto enfrentou a guerra por ser a única forma de proteger a mulher e o filho do terrível destino que lhes seria destinado com a queda de Troia. A discussão acerca de quem teria sido o verdadeiro herói da Guerra de Troia deve levar em conta que o heroísmo é sempre um ato moral.

A lista dos maiores heróis da história do cinema, elaborada pela AFI (American Film Institute) pode ser comentada à luz dessa perspectiva: as ações do herói são inspiradas por ideais grandiosos como liberdade, coragem, justiça, paz, fraternidade.

1 O primeiro lugar da lista vai para Atticus Finch, advogado interpretado por Gregory Peck em “O sol é para todos”. O filme, adaptado do romance de Harper Lee, trata de racismo, preconceito, dedicação. No Alabama, Atticus, além de ser um homem corajoso, a desafiar a Ku Klux Klan, é pai zeloso de dois filhos. É um herói impecável, amoroso, dedicado, corretíssimo, lutando pela justiça e contra o preconceito.

2 O segundo herói é o professor e arqueólogo Indiana Jones, papel que marcou a carreira de Harrison Ford. Estudioso e aventureiro, viaja por paisagens exóticas em busca de tesouros perdidos. Na maioria das vezes lutando contra os nazistas, Indiana é um herói menos idealizado.

3 O terceiro herói é ele mesmo: Bond, James Bond. Muitos atores já interpretaram o papel, mas é a Sean Connery que a AFI refere-se ao falar do herói. Esse é bem diferente. Mulherengo, atrevido, não hesita antes de se valer da licença especial para matar, concedida pela Rainha. Sinceramente, por mais que goste do Sean Connery, o James Bond passa a anos-luz da ideia que faço de herói.

4 Em quarto lugar está um de meus heróis favoritos: Will Kane, personagem de Gary Cooper no western “Matar ou Morrer”. Esse foi o filme que me fez gostar do gênero. O herói, xerife da cidade, foi responsável pela captura de um dos criminosos mais perigosos da região, líder de um bando de facínoras. No início do filme, o mocinho havia decidido entregar a sua estrela de xerife e casar com uma moça do Leste,vivida por Grace Kelly. Ao final da cerimônia, receberam a notícia de que o bandido fora solto e voltava à cidade em busca de vingança. Sabendo que Will seria o principal alvo do criminoso, os amigos obrigaram-no a fugir com sua bela esposa. Mas um herói de verdade não foge à luta. Will Kane decidiu voltar e enfrentar o bandido. É claro que a população da cidade, acovardada, tinha que deixá-lo sozinho nessa batalha. É um filme emocionante e o herói é motivado pelo seu senso de dever. Ele faz o que acha que é certo e não o que é mais conveniente.

5 Quem diria que Rick Blaine, personagem de  Humphrey Bogart em Casablanca, é um herói? Certamente todos que viram o filme. O seu heroísmo consiste na renúncia que faz ao amor. Ele e Ilsa Lund (Ingrid Bergman) viveram uma grande paixão em Paris. Separaram-se e, anos depois, encontraram-se em Casablanca, no Marrocos, onde Rick era dono de um bar. “Entre todos os bares no mundo, ela tinha que entrar justamente no meu?” Foi a pergunta feita por Rick quando, amargurado, reconheceu a mulher que o abandonou. Em Marrocos, ela e o marido, Victor Laszlo, um herói da resistência tcheca aos nazistas, tentavam obter um visto que permitiria a fuga para Portugal e, de lá, para a América. Rachado ao meio em seu conflito entre fazer a coisa certa e ficar com seu grande amor, Rick teve que tomar uma decisão: o que fazer com os salvo-condutos que traz consigo? Fugir com Ilsa? Entregá-los a Ilsa e Laszlo? Belo, belo, belo!

6 O sexto herói é uma moça, Clarice Starling, a policial interpretada por Jodie Foster no filme “O silêncio dos inocentes”. É um filme cheio de tensão e a heroína está, a todo tempo, caminhando na corda bamba, entre o dever e a sedução do criminoso canibal.

7 Em sétimo lugar está Rocky Balboa, o herói vivido por Silvester Stallone em vários filmes da série. A favor dele, a perseverança, a humildade, o afeto. Rocky é um boxeador que não perdeu a doçura apesar de toda a ferocidade do seu meio profissional. E é, sobretudo, um lutador.

8  A oitava heroína é Ellen Ripley, personagem de Sigourney Weaver no filme “Alien”. Eu não vi esse filme. Não posso comentar.

9 Em nono lugar está George Bailey, maravilhosamente vivido por James Stewart no filme “A felicidade não se compra”. Esse é um herói ingênuo, que não tem consciência da magnitude de suas ações. Desesperado com as dificuldades financeiras que atravessava, ele pensou em suicídio, na véspera de Natal. Um anjo veio à Terra mostrar que, em muitos momentos, ele evitara que acontecessem desastres. Bailey tinha um grande inimigo na cidade, Mr. Potter, um milionário sem coração ou escrúpulos. Esse filme é considerado um clássico natalino.

10 T. E. Lawrence, interpretado por Peter O’Toole em “Lawrence da Arábia”. Não posso negar: todas as vezes que assisti a esse filme fiquei hipnotizada pelo deserto. É fascinante. O herói da história, T.E. Lawrence, é um inglês que se envolveu nas guerras travadas pelos árabes.  E há o deserto… E a música.

Menciono, ainda, alguns heróis como: Oskar Schindler, vivido por Liam Neeson em “A Lista de Schindler” ; Shane, vivido por Alan Ladd em “Os brutos também amam”; Spartacus, vivido por Kirk Douglas; Rooster Cogburn, papel de John Wayne em Bravura Indômita; Maximus Decimus Meridius, vivido por Russel Crowe em Gladiador.

Por fim, há dois heróis que merecem destaque: o primeiro é o Jurado Número 8, vivido por Henry Fonda em “Doze homens e uma sentença”. O outro, é  O Vagabundo, eterno papel de Charles Chaplin, no filme “Luzes da cidade”.

O Jurado número 8 enfrentou onze companheiros do corpo de jurados que, por motivos variados, haviam decidido apressadamente condenar um jovem rapaz, acusado de assassinar o próprio pai. Inquieto, ele instigou cada um dos colegas do júri, levando-os, um a um, a rever o seu posicionamento, até que os doze jurados chegam a um consenso: o réu é inocente. O que motivou o Jurado 8? O senso de dever, além de um grande respeito pelo outro, pela vida humana. Afinal, para ele, era absurda ideia de, em cinco minutos, aprovar o veredicto que levaria um rapaz à morte.

O Vagabundo, por fim, revela a beleza do herói despretensioso, inocente. Aquele que faz o bem simplesmente porque assim deseja. Porque é bom. E puro. Suas boas ações foram motivadas pela paixão despertada pela moça cega? Talvez. Mas ele não buscou aproveitar-se da situação. A sua identidade é revelada à moça por acaso, de maneira poética. O Vagabundo deseja que a vendedora de flores cega possa enxergar. Para realizar seu plano, ele se esforça e trabalha, até economizar o dinheiro necessário para pagar a cirurgia dela. Fazer o bem sem contar a ninguém é a lição que o Vagabundo nos deixa.

E para você, quem é o maior herói do cinema?

Uma ideia sobre “A arte de ser herói

  1. Márcia,
    Continuo afirmando que, sobre cinema não sei quase nada. Mas meus heróis prediletos sempre foram aqueles interpretados por Gary Cooper. Dos filmes interpretados por ele, lembro muito de, “Por quem os sinos dobram”. Mas o que o marcou mais como herói, foi, “Matar ou Morrer.”
    Vou voltar a assistir filmes, pois só fazia isso quando tinha dez anos de idade. A verdade é que eu preciso voltar ao cinema para assistir naquela telona como acontecia no meu tempo de criança.
    Seus textos sobre cinema estão ótimos. É bom porque estou me atualizando.
    Beijos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

5 × cinco =