Ecos jesuítas

Nasci em família católica e estudei, desde o jardim de infância, em colégios religiosos. Contudo, nunca, antes de ingressar no colégio dos jesuítas, havia sentido o apelo da fé. Foi curto o período em que convivi com os jesuítas, mas marcaram, de forma indelével, a minha perspectiva do mundo. Hesitante quanto à fé – que por ser revelação, não pode ser imposta -, mantive intacta a minha admiração pela postura daqueles padres. Em nosso colégio jesuíta, a caridade sempre foi mais do que uma palavra bonita a ser proclamada no púlpito na missa de domingo.

Ao lado do inesquecível Padre Ugo Meregalli, os jovens alunos participavam de projetos sociais como distribuição de sopa aos moradores de rua e campanhas de arrecadação e distribuição de agasalhos e alimentos para a população mais carente. Importante: não bastava arrecadar. A parte mais prazerosa da nossa missão era a distribuição, o contato com as pessoas, com o povo. Recordo as visitas à paróquia de Nova Brasília, onde presenciávamos o afeto com que ele era recebido por crianças e mães da comunidade local. Ele sabia o nome das crianças, reconhecia suas mães, recebia abraços, carregava os pequenos. O mais importante não era o que ele dizia, mas o seu exemplo.

Além de seu trabalho pastoral, Padre Ugo era o tesoureiro do colégio e professor de matemática do segundo ano do ensino médio. Havia cinco turmas de segundo ano, mas apenas duas delas tinham o privilégio de ter aulas com ele. Terror para alguns, adorado por outros, marcante para todos, mostrou-nos a geometria sob uma perspectiva especial. Até o morceguinho, que entrava na sala no cair de tarde, foi carinhosamente apelidado de Euclides. Ou seria Arquimedes?

As provas em equipe eram mitológicas. Madrugávamos na escola, às 6:00h da manhã, levando farto carregamento de água e lanches, e, mergulhados em teoremas e postulados, saíamos exauridos, ao meio-dia, a tempo de almoçar rapidamente na lanchonete Salsidog ou na padaria Fátima e, às 13:20h, retornar ao colégio para as aulas do turno vespertino. As nossas provas de matemáticas eram semanais, as aulas, diárias. As tarefas tinham que ser mantidas atualizadas, pois, a qualquer momento, um de nós poderia ser chamado ao quadro negro para resolver uma questão. Em nossa turma, já sabíamos quem seria chamada: Déborah!

Aqueles que perturbassem a aula eram expulsos da sala (“haus”), o que podia ocorrer de forma individual, em dupla, trio, coletiva, em diagonal, formando triângulos, quadriláteros, losangos ou qualquer uma das formas geométricas que estudávamos. Embora me considerasse uma aluna tranquila, eu também fui expulsa de sala, ao me distrair em longo papo com André.

Endiabrados, no último dia de aula, decidimos todos que os dois únicos colegas que não haviam sido expulsos da classe ao longo do ano, Cleonice e Fábio, deveriam experimentar aquela sensação libertadora. Sandra, sempre divertida, sentou-se ao lado de Fábio, fustigando-o durante toda a aula. Ao final, desesperada com a iminência do fracasso de sua missão, agarrou-se à carteira de Fábio e, sem que Padre Ugo percebesse, atirou-se ao chão.

– Que foi isso? – perguntou nosso amado professor.

– Fábio me derrubou, padre. – disse Sandra.

– Fábio, “haus”! – disse padre Ugo, expulsando o menino, para delírio da torcida.

Ao final da aula, restava Cleonice, virgem de expulsões e completamente alheia às emoções que experimentamos naquelas tardes de geometria e felicidade. Outra amiga, Maria Eugênia, carinhosamente apelidada de “Banana Split”, convidou-o a celebrar seu casamento, há treze anos. Foi a última vez que estive com Padre Ugo, que partiu pouco tempo depois, deixando muita saudade.

Ao matricular minha filha no mesmo colégio de jesuítas, fui impelida pela forte convicção de que os valores éticos adotados pela escola alinhavam-se àqueles que eu própria defendia. Estudo, disciplina, simplicidade. Encantei-me com o seu atual diretor, Padre Domingos Mianulli, lúcido, equilibrado, sereno como convém a quem educa. Ainda hoje acompanho as suas mensagens sobre juventude e educação, publicadas no site do Colégio Antonio Vieira (Texto de Padre Domingos Mianulli).

A Companhia de Jesus foi fundada em 1534 por um grupo de estudantes da Universidade de Paris, liderados por Inácio de Loyola. O Marquês do Pombal, atribuindo aos jesuítas responsabilidade pela crise com os indígenas em Sete Povos das Missões, expulsou-os do Brasil em 1760. O Papa Clemente XIV, por sua vez, cedendo às pressões de monarcas europeus, suprimiu a ordem religiosa em 1773. Catarina, a Grande, czarina da Russia, e Frederico, da Prússia, todavia, acolheram os membros da ordem, reconhecidos por sua erudição. Em 1813, o Papa Pio VII restaurou a Companhia, que cresceu consideravelmente durante os séculos XIX e XX.

Atualmente, a Companhia de Jesus é a ordem religiosa mais numerosa da Igreja Católica e tem por característica a sua forte ligação com o ensino. O trabalho missionário desenvolvido pelos jesuítas no período colonial desperta muita polêmica entre historiadores, entendendo muitos que a evangelização promovida implicou na opressão cultural dos povos indígenas. É um lado da moeda. Não há como esquecer, porém, que, nas chamadas “reduções”, ao mesmo tempo em que davam formação religiosa aos índios, os jesuítas os protegiam, na medida do possível, da brutalidade dos colonos.

Polêmicas, história, perspectiva… Enquanto se debate a postura do Papa Pio XII durante a Segunda Guerra Mundial, nove padres jesuítas foram reconhecidos como heróis do Holocausto pelo Yad Vashem, por seus  esforços em salvar e abrigar judeus durante os anos de perseguição nazista.

E finalmente, em 2013, quase 500 anos após a fundação da Companhia de Jesus, foi eleito o primeiro Papa jesuíta, Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco. O que pode um Papa em um mundo desagregado? Por maiores que sejam as suas qualidades, pode a humildade, dedicação, simpatia e caridade de um Papa influenciar de alguma maneira os rumos da civilização? Há muitas mazelas dentro da própria Igreja, como a postura omissa diante dos casos de pedofilia, além dos escândalos financeiros. Existem, também, muitos pontos de conflito entre a doutrina católica e o mundo moderno, em grande parte relacionados à sexualidade. Grandes desafios para um homem que veio “do fim do mundo”.

Apesar de todos os senões, devo confessar que a minha ausência de fé foi abalada. Por conhecer a mente ventilada dos jesuítas, desde a escolha do novo Papa, ensaio uma reaproximação com a minha religião de origem, agora sob a orientação de um membro da Companhia de Jesus.

6 thoughts on “Ecos jesuítas

  1. marcia voce ‘e muito espiritualizada voce nao nota com o tempo voce vai ter certeza disso que Deus lhe abencoi’

  2. Belo texto, Márcia. É muito bom relembrar de momentos marcantes da nossa vida, especialmente da adolescência. da escola, dos amigos.
    Quanto à sua volta à religião, fiquei feliz e já de braços abertos para recebê-la; Beijo.

  3. Márcia,
    Linda homenagem, esta que você faz ao seu antigo colégio e sobretudo ao padre Ugo. Lembro você falando muito nele. Era com grande admiração que falava nas aulas e também nos dias de entrega dos donativos. Recordo que voçê dizia que o padre Ugo não aceitava que doassem roupas rasgadas ou encardidas; ele aceitava roupas usadas, mas tinham que estar em bom estado.
    Quanto ao nosso novo Papa, eu também simpatizo muito com ele.
    Beijos.

  4. Gostei, Márcia!
    As suas lembranças da escola são muito agradáveis. Não podia ser diferente, você sempre foi excelente aluna, por isso, os professores eram todos bons. Não haviam carrascos.
    Quanto ao bom exemplo dos jesuítas, tenho a lhe dizer que, em todos os meios existem grupos, ou pessoas, que se sobressaem. Seja pela coragem, pelo dinamismo, pela ética ou pela bondade, essas pessoas conseguem transmitir a mensagem de amor, fraternidade e solidariedade. Independente da crença, essas pessoas do bem,( como diria o meu neto, Pedrinho), fazem o mundo ficar melhor.
    Fiquei muito feliz ao saber que você está recuperando a sua fé. Sei que fé é um dom gratuito, e não pode ser imposta; mas pode ser exercitada.
    Com boa vontade e exercícios espirituais, se consegue muitas bênçãos.
    Quanto ao mal exemplo de alguns membros da Igreja, é muito triste, muito decepcionante, mas não devemos nos deixar abalar. São pessoas humanas, e como tal, limitadas, sujeitas a fraquezas e tentações mundanas.
    Não sei se você tem lido os meus comentários, eles estão mais prolixos porque estou tendo mais tempo esses dias.
    Que o Senhor a abençoe
    Abraços de Terezinha

  5. E quem não se lembra daquela última questão da prova de matemática, na qual a gente deveria chegar às fórmulas antes de decorar? Fantástico a forma como vivíamos os teoremas naquelas tardes. E encontrar “Uguinho” pelos corredores era sempre sinônimo de alegria, ainda que fosse pra ele reclamar do nosso batom… Boas lembranças, Marcia! ´Nossa educação na escola ia muito além de estudar para passar no vestibular… Ali descobrimos o valor das grandes amizades e nos tornamos seres humanos mais “humanos”.Bjs, Alba

  6. Belo texto Marcia. Tb estudei no Vieira. Não cheguei a ser aluno de Pe Ugo por isso n o conheci tanto quanto vc. Mas venho aqui compartilhar minhas impressoes.
    Quando uma pessoa morre é comum só falarem bem dela. Esta correto. Acho que os pontos positivos devem sempre prevalecer. Os negativos devem ser perdoados. Nunca fui posto p fora (como disse n fui seu aluno) mas muitas vezes fui a sua sala resolver questoes financeiras e operacionais. Infelizmente sempre fui recebido de forma rude ao extremo. O que para um adolescente de 15 anos produz lembrancas profundas.
    Por outro lado tenho otimas lembrancas de Pe Imperiali, sempre simpatico e prestativo, Pe Gino, com sua serenidade e gentileza.
    Quem bom q, pelo seu texto, conheci um pouco do lado bom de Pe Ugo.
    Um abraco,
    Alberto.

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