A mais linda de todas as festas do mundo

A garota ia completar dezoito anos. Sem querer deixar a data passar em branco, o pai decidiu oferecer uma feijoada para a família. Pensando sobre o tema da decoração, a tia/madrinha sugeriu:

– Ela gosta tanto de cinema. Que tal fazer uma festa com o tema de Marilyn Monroe?

– Tudo bem, – respondeu a garota gaiata – mas quero que coloque algum toque de macumba no meio.

– Como é? Que invenção é essa? Marilyn e macumba? Isso não dá certo. – disse a mãe.

– Ih! Acho que esse tema vai chocar sua família, que é tão católica… – ponderou a madrinha.

Bem… Feitas as devidas considerações, a questão é que o desafio foi lançado a duas arianas, mãe e madrinha, que, determinadas, desistiram da temática de cinema e se lançaram na inusitada empreitada mística.

– Como posso fazer uma decoração sobre um assunto que não conheço? – questionou a mãe.

– Vamos fazer uma coisa estilizada, como uma festa de Iemanjá. – pensou a madrinha.

– Em julho? Tudo bem. O tema pode ser “Boa sorte!”

Na noite seguinte, após o trabalho, encontraram-se no shopping, onde compraram tela prateada, lantejoulas e adereços. Durante a semana, a mãe preparou as lembrancinhas: garrafinhas com sal grosso e rótulo feito à mão.

Na véspera da festa, dedicaram a tarde à decoração do salão de festas, arrumando a mesa do bolo e do bufê com conchas e estrelas  do mar, além de uma profusão de fitas do Bonfim. Muitas flores brancas enfeitaram o salão, além de bolas brancas e azuis. À aniversariante, gozadora, coube selecionar a trilha sonora, que contou com os versos loucos de Bezerra da Silva.

Uma hora antes da festa, a mãe foi buscar a torta na doceria. Foi atendida por uma senhora, que entregou uma linda torta mista, sabor escolhido pela aniversariante. Após arrumar o bolo na mesa e colocar as velas, a mãe da menina recebeu um telefonema: “A senhora pegou a torta errada. A sua ficou aqui na doceria e é bem maior”. E lá foi ela, a retirar as velas e trocar as tortas.

O pai, percebendo que havia exagerado ao comprar as bebidas, festejou a chegada da tia-bisavó, que ainda aprecia uma cervejinha gelada. Até o falecido bisavô foi relembrado com saudades: “Eu vou seguir o cardápio de Seu Joubert: hoje só quero a feijoada, pimenta e farinha.”

Toda a simplicidade da festa ressaltava o esplendor da ocasião e valorizava o seu significado. Naquela tarde de domingo, a garota reuniu, ao seu redor, a sua família ampliada: pai, madrasta, irmão, mãe, padrasto, avó, avô, bisavó, primos, tios… O irmãozinho, que acabara de completar um ano, ofereceu um presente especial, dando os seus primeiros passos.

Aliás, o irmão, paixão da aniversariante, foi a estrela da festa. Bem humorado, tranquilo, brincava e dormia, dormia e brincava. Em seus momentos de repouso, todos se acercavam do seu carrinho para admirar sua calma e serenidade.

O divórcio dos pais criou um hiato de quatorze anos, durante os quais o aniversário da única filha foi comemorado de modo dividido, lá e cá. Passados tantos anos, o amor que todos nutrem por essa joia encantada proporcionou uma tarde de magia e amor. O reencontro de tantas pessoas em torno da menina tocou cada um de modo especial. Alguns escondiam os olhos marejados de emoção na hora do parabéns. Ao final da tarde, começaram as despedidas. Todos felizes, combinavam a próxima festa em grupo: a comemoração do resultado do vestibular!

É… A vida é bela. O amor existe. Tudo o que acontece na vida tem um razão de ser. Muitas vezes somos incapazes de compreender os rumos que tomamos, ou os revezes que experimentamos. Só o tempo pode desvendar tais segredos. Há muitos anos, um padre disse: “Não somos capazes de compreender os desígnios de Deus. Mas temos que confiar.”

Por que casar tão cedo? A maternidade/paternidade em tão tenra idade seria um equívoco? Jamais! Tudo tem um motivo oculto. A mocinha que entrou na vida adulta tinha que nascer daqueles pais, ainda que eles, depois, tomassem novos rumos. E os novos caminhos que seguiram permitiram a ampliação dessa teia amorosa, com o ingresso de uma madrasta (“boadrasta”) maravilhosa, um irmão apaixonante, um padrasto amoroso. Somente assim, depois de todas as tormentas, calmarias, sucessos e decepções, seria possível viver uma tarde de tamanha felicidade, na companhia de cada uma das pessoas ali presentes, que eram todas, sem exceção, indispensáveis em suas vidas.

– Mãe, essa foi a melhor festa de toda a minha vida. – comentou a garota, ao final da noite.

– Eu sei, minha filha. – respondeu a mãe. – “Essa foi a festa mais linda de todo o mundo”, pensou.

9 thoughts on “A mais linda de todas as festas do mundo

  1. Lindo texto, querida! Além da natural alegria de uma mãe, decorrente do simples contentamento da sua filha, essa comemoração deve ter tido um motivo a mais para ter sido perfeita: a sensação de dever cumprido (e bem cumprido)! Administrar o paradoxo de “entregar sua filha ao mundo”, dado o advento dos 18 anos e toda a sua simbologia, e tê-la, num grande laço de amizade, ainda mais sua, pela paridade que lhes traz o ingresso de Luiza na idade adulta, é, sem dúvida, uma grande recompensa, pelo bom trabalho executado! Parabéns a mãe e filha! Um beijo! Ana Carolina.

  2. Marcinha,
    Que festa linda…com sabor de fruta doce… fiquei emocionada de cá…. imaginando tanto amor nas bandas de lá…. lembrei também de um post que deixei no face dia desses…. da Drão contando da separação com o Gil de uma maneira tão linda que eu acabei refletindo: https://www.facebook.com/mpbbossa (procura o post d 26 de junho)
    Ouvi certa vez que “as pessoas que se amaram muito um dia…precisam encontrar uma forma de continuar se amando”… e agora eu tenho a certeza de que é isso que provoca festa no coração da gente…rs

  3. Márcia.
    Fiquei feliz com a sua crônica, foi muito muito emocionante, principalmente para nós que conhecemos a história.
    Graças a Deus, tudo terminou bem!. Terminou, não, a história continua, se Deus permitir, por muitos anos. Só que agora de maneira diferente, com mais maturidade e sabedoria.
    Com o passar dos anos, o processo doloroso vai esfriando, doendo menos, depois vem a acomodação e a aceitação. Estava marcado, não podia ser diferente.
    Uma coisa é certa: onde existe amor, bondade, e solidariedade, Deus está aí, promovendo a paz e o bem comum.
    Eu sempre afirmo: muitas vezes, temos mais do que precisamos para sermos felizes, entretanto nem sempre somos pacientes e tolerantes com as pessoas, queremos um mundo perfeito. Ele é feito de pessoas imperfeitas, mas acontecem bons momentos e ocasiões felizes, aproveitemos.
    Um afetuoso abraço para toda a família.
    De Terezinha

  4. Márcia.Que linda festa!
    Repetindo as palavras de Luíza: Essa foi a melhor festa de toda a minha vida. Nunca antes havia sentido tão viva a presença de Deus!
    Que a vida de Luíza seja sempre assim: Uma linda festa,decorada com bastante amor. Só amor!
    Parabéns pela linda filha!
    Beijos.

  5. Redundante dizer belo texto?Mas não encontro outra forma de falar o que penso.
    Parabéns para Luíza e família.

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