Compaixão e contentamento

“- Você sabe o que que eu quero ser? (…)

– Seja lá como for, fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos e ninguém por perto – quer dizer, ninguém grande – a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o que que eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começa a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer. Sei que é maluquice.” (trecho extraído de O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger)

Como pode aquele que está à beira do precipício oferecer ajuda a alguém? Por que razão quem quase nada possui pode encontrar felicidade em compartilhar o pouco que lhe resta? Estamos preparados ou dispostos a nos arriscar para salvar aquele que caminha para o abismo? Há duas ideias que estão intrinsecamente associadas à felicidade: compaixão e contentamento.

Diz-se que o contentamento é um dos maiores mistérios do cristianismo. Creio que o contentamento é um estado de espírito positivo que ultrapassa conceitos religiosos. O contentamento está relacionado à capacidade de estar satisfeito com aquilo que se tem, com a vida que se leva. Para estar contente não se exige nenhuma mudança nas circunstâncias presentes. É ser capaz de dar valor ao que se possui, valorizar a vida em si, reconhecendo tratar-se de um milagre do qual não escolhemos participar, mas no qual embarcamos para uma jornada única. O tempo muda tudo, tanto as boas coisas quanto as más. A consciência da mutabilidade da vida possibilita a superação da angústia, da ansiedade, da raiva, conservando a paz de espírito na adversidade. É o contentamento que permite viver plenamente o momento presente, sem sofrimento pelo que já passou ou expectativas com o porvir. O contentamento é a virtude do hoje, do momento atual, do instante presente.

Compaixão diz respeito à capacidade de compreender o sentimento do outro, entender a sua dor. Relaciona-se também à consciência de que a felicidade é um direito de todos e de que o sofrimento do outro me afeta. Sendo compassivo, estou consciente de que eu poderia estar sofrendo a dor que atinge o outro. A compaixão baseia-se, portanto, na compreensão de que somos todos iguais e compartilhamos a condição humana. Não depende do afeto nem mesmo do merecimento do outro. Ser compassivo é enxergar um irmão no outro. Ou melhor, é enxergar a si mesmo em cada pessoa. A compaixão afasta a indiferença, aproxima as pessoas, é contrária a isolamento e ao egoísmo. A compaixão nos conecta ao mundo. O sofrimento do outro é nosso e a sua alegria também. Não é à toa que as religiões em geral trazem a compaixão como uma virtude a ser praticada. “Você e eu também fazemos parte da humanidade. Se 6 bilhões de pessoas forem fellizes, nós teremos o máximo de felicidade. Se 6 bilhões sofrem, nós sofremos” (Dalai Lama)

É preciso, portanto, pensar um pouco como Holden Caulfield e ser, cada um de nós, um apanhador no campo de centeio, retirando da beirada do abismo aquele que para lá se precipita, porque o amor pela humanidade nos faz compassivos e contentes.

7 ideias sobre “Compaixão e contentamento

  1. Marcia, um texto realmente muito especial. Esta amiga Terezinha deve ser uma pessoa que realmente vive o espírito cristão. Sempre falei para meus filhos sobre compreensão e no contentamento que nos dá o fato de podermos dar a mão a alguem para, em sentido figurado, tirá-la do abismo, da dor, do desencanto.
    A Terezinha fala isso tão bonito. Parabens a ela por entender a luz da caridade perfeita, e para voce que tem uma amiga tão sábia e certamente cristã verdadeira. Abraços.

  2. Muito bonito, Márcia. Tenho gostado muito dos seus textos, e Lucinha, sempre com comentários lindos e oportunos
    Quando faço as orações com minha neta, desejando, saúde, paz e felicidade para a família e para todos, ela reage : para todo mundo não, vovó, os bandidos não merecem. E eu respondo: para todos, sim . Se todos tiverem casa, comida, trabalho, saúde e uma família para amar, não haverá mais bandidos. Os bandidos são maus, perversos, mas muitos deles são vítimas das circunstâncias.
    Abraços de Terezinha

  3. Belo texto. Lamento que são poucas as pessoas capazes de demonstrar sentimentos tão belos. Infelizmente, na maioria das vezes, fica-se apenas na teoria.

  4. Márcia.
    Quando eu disse em relação a Cota, que ela nasceu para doar-se e que esta era a sua missão, esqueci de acrescentar: Este era o seu contentamento. Ela só era feliz quando estava ajudando alguém.
    Beijos.

  5. Márcia.
    Muito bonito este texto de hoje. Tudo isso me faz lembrar a nossa muito amada, e saudosa tia Cota, que só viveu para dar a mão a todos que dela precisassem. Embora muitas vezes era ela quem estava precisando de ajuda.
    Cota viveu para doar-se. Esta era a sua missão.
    Beijos.

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