Uma noite memorável, por Rogério Grillo

O mês de março já vai longe e com ele findou o prazo para a inscrição de colaboradores para o blog. Infelizmente não tive sucesso em minha tentativa de arregimentar novos talentos. Na verdade, meu projeto teria sido um fracasso total e absoluto se não fosse meu velho amigo, Rogério Grillo, que me apresentou, como sempre, a sua contribuição: um texto novinho em folha, narrando mais uma de suas aventuras nessa árdua lida de artista. De qualquer modo, embora o projeto Colaborador tenha ido por água abaixo, permaneço aberta e disposta a publicar textos de leitores. Enquanto isso, deliciem-se com “Uma noite memorável”, de Rogério Grillo:

“Era 1992, eu estava passando o verão na ilha de Itaparica, na localidade de Barra do Gil, e tocando num bar-pousada, junto com meu amigo Cristiano Matos (que mais tarde entraria na escola de música da UFBA, e teria um choro seu gravado pelo grupo “Janela Brasileira”). Tocávamos todos os fins-de-semana, no formato voz/violão + teclado/voz . Era legal, nosso repertório era variado e íamos da MPB “clássica” ao “brega/serestão”. A ilha, em 1992, era carente desse tipo de espaço com música ao vivo, então tinha sempre casa lotada, uma festa.

Certa tarde de domingo, chegou ao restaurante um sujeito montado a cavalo, de chapéu… e bermuda. Apeou da montaria e se dirigiu ao dono do bar, pedindo informações a respeito da dupla de músicos que se apresentava. Quando demos o intervalo, ele nos convidou pra uma cerveja e, falando com certo entusiasmo, disse que queria nos contratar pra tocar no bar dele, que ficava no fim da praia de Conceição, ao lado do Club Med. Acertada a data, cachê, horário, etc, se despediu com um sorriso no rosto.

A semana passou rápido. No dia da apresentação, fomos, à tarde, levar a aparelhagem de som no tal bar perto do Club Med, e lá chegando tivemos a primeira surpresa: o bar ficava na praia mesmo! Não havia caminho até lá pro carro, só a areia. Tivemos que parar o mais perto possível e carregar tudo pelo areal. Passado o som, deixamos tudo “engatilhado” e voltamos pra Barra do Gil pra tomar banho, comer algo e voltar.

Éramos SETE pessoas no carro. Um velho Ford Corcel II, ano 1979, que era de minha mãe. Parecia uma lata de sardinhas.Além das sete pessoas, ainda voltaríamos com a aparelhagem de som. Como conseguimos isso, até hoje me pergunto. Começamos a tocar no horário previsto, mas a noite começou tímida, com alguns poucos clientes nas mesas e outros perambulando pelo bar que, pelo fato de ser na praia, facilitava o acesso.

Quando demos o primeiro intervalo, o dono do bar, que havia ido até Barra do Gil nos contratar, nos chamou a um canto e disse que a clientela “queria dançar”. Nós retrucamos, lembrando que ele tinha visto a nossa apresentação antes de nos contratar e sabia que não era nosso forte botar o povo pra dançar, mas daríamos um jeito. Voltamos a tocar e eu até hoje não sei como consegui fazer tantas músicas se “transformarem” em dançantes, além de cantar umas serestas que raramente voltei a cantar depois daquela noite.

Acabado o “show” , eu preferi desmontar o som e guardar no carro, junto com os instrumentos, antes de procurar o dono do lugar pra fazer o acerto de contas. Decisão acertada. Quando o procurei, ele simplesmente me disse que não iria pagar o acertado, apenas porque o repertório não tinha sido a contento. Pra que?? Entramos numa discussão bem no balcão do bar, e algumas pessoas, amigos dele, que estavam por perto, começaram a se intrometer. Eu alegava que ele sabia do nosso repertório, pois tinha ido nos ver antes. Ele dizia que o povo queria dançar e que por isso, não cumprimos nossa parte (!!)

Quando eu pensei que os ânimos estavam serenando, chega minha irmã, sempre temperamental, e começa um ligeiro bate-boca com uma senhora que estava junto ao balcão “defendendo” seu amigo, o dono. Sem dar tempo de reagir, um dos amigos nossos que havia ido no carro conosco, e era nativo da ilha, agarra minha irmã pelas costas e a tira dali rapidamente. Depois soubemos o porque: Aquela senhora era “boa de briga” e carregava uma peixeira(!) por baixo da saia (!!). Passou perto.

Mas teve mais: Um outro amigo, passageiro do carro também, já bêbado, chegou de repente no balcão e (literalmente)  gritou: “Rogério, se você quiser, a gente briga nessa p******!!! ” Meu Deus ! era demais…. tanta “diplomacia” e tudo parecia ir por água abaixo. De novo, o nosso amigo nativo tratou de tirar nosso bebum de perto, e eu pude resolver a questão em paz (?)

Depois de conseguir convencer o dono de que o pagamento deveria ser integral, consegui, afinal, reunir a galera pra sairmos dali a jato, em direção ao carro, que já estava carregado e perto da areia. Pra nossa sorte, a maré estava “seca”, era noite de lua cheia, e havia uma enorme faixa de areia dura, por onde “fugimos” em direção a Barra do Gil.

Sem dúvida, uma noite memorável.”

Uma ideia sobre “Uma noite memorável, por Rogério Grillo

  1. Bela aventura viveu o nosso amigo Rogério Grillo.
    O texto está ótimo. Fico esperando outros.
    Parabéns para você Márcia. Este seu colaborador é muito bom!
    Beijos.
    .

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