Recital

Era uma família de escritores. Existia, contudo, aquele por quem se tomara o costume de chamar “O  Poeta”. E com essa família tão inspirada, as festas familiares, como tradição, sempre culminavam com um recital. Os criadores apresentavam suas obras para a plateia que, exultante, aplaudia e aproveitava cada instante.

O Poeta participou, com destaque, de muitos concursos literários, apresentando sua arte regional, fortemente baseada na vida no Recôncavo baiano. E assim conciliou, ao longo da vida, sua profissão de professor e a paixão pela poesia.

Havia uma parcela da família que, talvez por conta da timidez, não criava ou não apresentava suas obras. Eram, todavia, vibrantes incentivadores daqueles que alimentavam sua paixão pelas letras. Dentre os fãs do poeta, destacavam-se três apreciadores: a mãe, a irmã e o irmão caçula.

Certa vez, o trio foi prestigiar O Poeta, em um sarau realizado Cantina da Lua, localizada no Terreiro de Jesus, Centro Histórico de Salvador. Sala cheia, fazia crer que a Bahia possui um consistente público amante da poesia. Entre iniciantes e veteranos, vários artistas se alternavam, declamando suas obras diante da plateia sedenta de versos. Verônica, irmã do poeta, mulher na faixa dos 50 anos, apaixonada por poesia, vibrava e batia palmas, divertindo-se com as apresentações.

Havia um bardo que aliava o floreio do texto a uma atitude galanteadora, distribuindo rosas e sorrisos às senhoras presentes. Uma das premiadas com a rosa foi exatamente aquela que, mais animada, aplaudia ardorosamente: Verônica. Finda a apresentação, a turma tomou o rumo de casa, aproveitando a carona do irmão caçula.

Ao chegar em casa, Verônica encontrou o marido, que já havia jantado e aguardava seu retorno (ele, embora compreendesse e apoiasse a paixão da esposa, nunca teve muito interesse por poesia). Ao vê-la entrando com uma rosa, indagou:

– Ganhou lá no sarau?

– Sim. – disse ela, faceira. – Um poeta me deu.

– Poeta? Ah, tá.

– Foi muito bom, os artistas eram muito bons. Esse mesmo que me deu a rosa era ótimo. Que talento…

– É? E como era esse rapaz? Era rapazinho como nosso filho caçula? – perguntou ele, enquanto visualizava o artista de vinte e poucos anos, brincos nas orelhas e rabo de cavalo.

– Não… – respondeu, provocativa. – Era um homem assim de nossa idade, com seus cinquenta e poucos anos. Charmoso, garboso…

– De nossa idade? Gaiato…

Enquanto colocava a rosa num vasinho, ela sorriu, recordando o artista quase caquético que, com toda a licença poética, foi convertido num Don Juan de meia-idade.

– Da próxima vez, você vai comigo. – concluiu vitoriosa.

5 thoughts on “Recital

  1. Essa Verônica não é flor que se cheire, Não é Márcia?
    Ela sempre gostou de prestigiar os bons espetáculos. É uma pessoa de bom gosto
    Abraços de Terezinha

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