A viagem de buzu

– Patrão, eu moro onde o doutor passa as férias…

Essa conversa do nativo é piada requentada. Viver na Bahia não é nenhum mar de rosas, mas, com uma pitada de bom humor, dá para rir da vida. Aliás, em qualquer lugar, é preciso cuidado e bom humor para lidar com os reveses do dia-a-dia. Foi exatamente o que aconteceu com ela.

Era filha única, tinha dezessete anos e estudava em escola de prestígio na cidade. Naquele dia, havia combinado almoçar com os avós após a aula.

– É fácil, Vô! Nem precisa ir me buscar na escola. Eu volto de ônibus.

– Ora! Nada mais fácil do que pegar um ônibus no início da Paulo VI até o Itaigara. Até nenezinho faz isso…  – disse a mãe, confiante na desenvoltura da cria.

– É melhor, pois estarei ocupado nesse horário. – concluiu o avô.

Já eram duas horas da tarde quando a mãe ligou:

– Pai, ela já chegou? Preciso falar uma coisinha…

– Olha, ela ainda não chegou aqui em casa. E o pior é que estou ligando mas o celular só fica caindo na caixa.

– Calma, eu vou tentar ligar… – disfarçou a mãe, mal controlando o pânico.

Naquele instante, conteve o instinto de levantar-se e sair desesperada revirando a cidade. Mas onde? Com quem? Por que não voltou pela estrada, Chapeuzinho Vermelho?

Tentou ligar, mas o terceiro toque precedia a mensagem “Este telefone está fora de sua área de cobertura”. Quase paralisada de medo, mandou várias mensagens seguidas: “Onde você está?”, “Por favor, dê algum sinal de vida”.

Nenhum pensamento a aliviar a angústia, afinal sua filha sempre primara pela responsabilidade e consideração. “Ela não iria para outro lugar sem avisar”, pensou. A cabeça começou a girar, enquanto a imaginação, essa vilã, esboçava quadros trágicos, que a superstição tratava de sacudir para longe. “Pensamentos ruins atraem coisas ruins”.

Naquele instante, o telefone tocou:

– Mãe, estou voltando para a escola. Te ligo quando chegar.

– Certo. – respondeu, aliviada.

Uma hora depois, recebeu nova ligação:

– Mãe, resolvi ir para a casa de minha avó. Pode me buscar lá?

– Claro, minha princesa. – respondeu, quase chorando de alegria.

Ao final da tarde, encontraram-se.

– Mãe, você não imagina o que me aconteceu? Peguei o ônibus errado.

– Como? Onde você foi parar?

– Em São João do Cabrito.

– Fica em Salvador mesmo?

– Depois da Suburbana. Ouça a minha história. Sai da aula 12:30h, morrendo de fome e fui andando até o ponto. A placa na frente do ônibus dizia Avenida Paulo VI. Eu pensei que fosse até o fim de linha da Pituba, mas ele virou no Caminho das Árvores e seguiu até o Jornal A Tarde.

– Por que você não desceu?

– Achei que ele fosse para o Iguatemi. Só que ele deu a volta pela Tancredo Neves e entrou na Rodoviária. Eu tinha que ter descido, mas ainda pensei que fosse fazer o retorno. Só que ele se mandou na direção da San Martin.

– E você conhece a San Martin?

– Fica no caminho para Periperi. Mas escute: quando percebi a enrascada, fiquei caladinha, bem murchinha para não ser notada. Tinha deixado o telefone no silencioso para não atrapalhar a aula e não ia adiantar ficar assustando vocês. Resolvi esperar um pouco e não descer no meio do caminho, mesmo porque eu nem sabia onde estava. Quando o ônibus ficou vazio, o cobrador veio me perguntar se eu havia errado de ônibus. “Sim”, respondi. “E para onde você queria ir?” “Para o Iguatemi” “Ah! Desça aqui no fim de linha e pegue o ônibus que sai em cinco minutos”. Olhei para o ponto, onde havia dois ônibus estacionados, um vermelho e o outro, amarelo. “Você pega o amarelo”. “Obrigada”, falei enquanto descia do ônibus e me aproximava do grupo que estava no ponto. Vi todo mundo indo para o lado do ônibus vermelho e comecei a  ficar com medo de ficar sozinha no bairro desconhecido. Para minha sorte, havia uma senhora que também ia para o Iguatemi. Na verdade, ela ia para o culto das 15:00h, na Catedral da Igreja Universal. Puxei papo, fingindo-me de entrosada, para que a malandragem não visse o quanto eu estava perdida. Aproveitei para me unir ao resto da turma e reclamar do atraso do motorista. Já no ônibus, pedi à minha amiga da Universal para sentar ao seu lado, evitando ter ao lado um lugar vago a ser ocupado por estranhos. Porque àquela altura eu já era amiga/irmã da moça, que passou toda a viagem toda lendo “Seu casamento blindado”. Cuidadosa, avisei que o seu ponto era o próximo e desci exatamente no mesmo lugar em que, horas atrás, eu embarcara em minha aventura suburbana. Aí fui a pé para a casa de minha avó.

– Que hora você mandou a mensagem avisando que estava voltando para a escola?

– Quando peguei o ônibus na volta e fiquei sentada ao lado de minha amiga/irmã. Eu não ia dar mole exibindo meu celular no ônibus. Mandei mensagem curta e guardei logo.

Batizada, pensei. Afinal, para ser soteropolitano mesmo, só depois de pegar o “buzu” errado e ir parar num bairro desconhecido. Sobreviveu? Graças ao Senhor do Bonfim. Pode anunciar: eu sou baiano, meu rei!

2 thoughts on “A viagem de buzu

  1. Márcia,
    O susto foi grande, mas a avó tinha certeza que a nossa heroína estava bem guardadinha por Senhor do Bonfim, e que só seria enxergada por pessoas boas como a “amiga/ irmã” evangélica.
    Beijos.

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