A felicidade é uma escolha

Zuzu era apenas uma menina quando, aos treze anos, casou-se. O marido, homem muito mais velho, ficara viúvo com uma filha quase da mesma idade da nova esposa. As duas meninas logo ficaram amigas. Unidas, mais pareciam duas irmãs do que madrasta e enteada. Naquele tempo, todavia, a vida costumava ser curta e, aos dezessete, ela própria ficou viúva.

Recusou muitos pedidos de casamento que recebeu, dedicada sempre ao trabalho e ao seu pequeno comércio. Alguns anos depois, a enteada casou, formou família, teve filhos. A madrasta mais doce do mundo tornou-se tia e avó ao mesmo tempo e as crianças aprenderam a amá-la como tal.

Sozinha, após o casamento da enteada, Zuzu continuou morando em sua cidadezinha, espalhando seus sorrisos enquanto assava fornadas de bolachinhas de goma. Fez muitos amigos ao longo da vida. Alguns se fizeram filhos de consideração e assim seguiram ao longo da vida, sempre ao seu lado.

A criançada adorava suas cocadinhas, bolachinhas e abafa-banca. Os adultos não abriam mão de um golinho de seu licor de jenipapo. Todos os anos ela preparava um grande número de garrafas de licor, que distribuía para os seus inúmeros amigos. A visita à sua casa por ocasião do São João e do Natal era sagrada. Zuzu, com a doçura de sempre, a todos acolhia, emocionando-se com as demonstrações de afeto.

Os anos foram passando, passando, passando. Ela completou 60, 70, 80 anos… Os seus amigos percebiam a sua fragilidade e tentavam protegê-la. A certa altura, começou a perder os entes amados: o irmão, a sobrinha, a enteada querida. Apenas ela resistia e, triste, mencionava o medo da morte que a assombrava. A cada ano que avançava, mais temia o final que – ela não sabia – estava muito longe…

A sua festa de 90 anos foi promovida por um dos muitos amigos que cultivou ao longo da vida. Ali encontrou muitas gerações de vizinhos, compadres, conhecidos, camaradas. Felicíssima, Zuzu parecia uma criança, emocionando-se com os presentes, abraços e beijos. Seus olhinhos claros brilhavam como pedras preciosas e o sorriso tímido abria-se incontrolavelmente.

À medida que o tempo avançava, os vizinhos passaram a ter cuidados de filhos amorosos. Ela, que nunca tivera um telefone em casa, passou a contar com uma extensão do vizinho da esquerda. A vizinha da direita, que passou a ter a chave de sua casa, observava diariamente o movimento: se até as nove horas da manhã a velhinha não aparecesse na porta do quintal, ela abria a porta, para auxiliar a amiga que acordara indisposta.

Sempre que recebia a visita de um dos amigos, ela, radiante, ria e chorava, dizendo:

– Ainda lembra de sua velha? Vocês sabiam que quando ela era um bebezinho e vinha para o meu colo não voltava nem para a mãe? Minha querida, sua filha está linda, parece com você…

Estava às vésperas do aniversário de 99 anos quando repousou. Suavemente, como tudo em sua longa vida. Os amigos despediram-se sem dar adeus, pois as suas lembranças se conservam no peito de cada um que teve a felicidade de conhecê-la.

5 thoughts on “A felicidade é uma escolha

  1. Marcia, mais uma linda história, emocionante e sei, verdadeira. Mas, eu também sou uma pessoa que escolheu ser feliz. Não é à toa que entrei nesta conversa com voce por causa de “cartas de amor” lembra? Pois é; são até hoje as cartas de amor que guardo, as testemunhas do quanto batalhei por esta felicidade que desde meus 15 anos conscientemente escolhi para mim. E saiba, saí vitoriosa. Claro que surgiram pedras no meu caminho, mas com minha persistência e a força de tanto amar em meu coração, consegui a tão gostosa felicidade, que consiste em vivermos sempre momento felizes. E foi mesmo assim. Não por acaso que escrevi na ultima pagina do meu livrinho esta frase saida do coração e da vida:
    ” TENHO SORTE DE ESTAR VIVA; AMEI MUITO, FUI AMADA, SOU FELIZ.
    DA VIDA SE PUDESSE, PEDIRIA BIS”

  2. Olá Márcia.
    A dona Zuzu soube fazer amigos, por isso nos deixou muitas saudades
    Não eram só docinhos e bolachinhas as especialidades dela. Tudo que ela fazia era bem feito, Ninguém fazer crochè melhor que dona Zuzu
    Abraços de Terezinha

  3. Olá Márcia,
    Que linda homenagem! Uma pessoa de amorosa, uma generosidade, um coração puro.
    Ao ler o texto me emocionei várias vezes. Freguês assíduo do abafa-banca, dos cartuchos, das bolachinhas de goma, etc.. Ninguém chegou perto do sabor das iguarias de D. Zuzu. Certa feita um garoto se ofereceu para trabalhar com D. Zuzu, na esperança de ter acesso as guloseimas. Crianças, rsrsrsr.

  4. Márcia,
    Lindo! Emocionante!
    Zuzu deve estar neste momento, chorando e sorrindo, como fazia sempre que encontrava a sua menina: “A minha Marcinha sempre gostou de mim, não saía dos meus braços quando era pequena!”
    A nossa Zuzu está muito feliz!
    Beijos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

catorze − doze =