Páscoa

Páscoa é renovação. Na Páscoa os hebreus fugiram do Egito, acompanhando Moisés através do Mar Vermelho. Foi no Domingo de Páscoa que Jesus Cristo ressuscitou, após ter sido flagelado e crucificado na Sexta-feira. Antes, na Quinta-feira, Ele instituiu o sacramento da Eucaristia.

Estava na fila do supermercado Bompreço na quinta-feira, quando ouvi o comentário da criatura à minha frente:

– Os ovos de chocolate estão muito caros. Vou comprar caixa de chocolate, que é mais barato. Só não pode faltar o chocolate, afinal é o símbolo da Páscoa.

– É mesmo. – respondeu o homem mais à frente.

Minha filha, pouco religiosa e muito observadora, comentou:

– E eu que pensava que na Páscoa comemorávamos a ressurreição de Cristo…

E assim continuamos, rodeadas de consumidores vorazes que, trocando xingamentos, tentavam furar a fila e passar à frente, com o seu “simbolo da Páscoa”.

Isso me fez recordar quando, vários anos atrás, a minha mãe foi ao mercado na semana anterior à Páscoa e viu um homem muito serelepe e animado que escolhia quiabos:

– É Semana Santa, minha senhora! Tem que comprar quiabo, pois Sexta-feira Santa sem “cariru” não é Sexta-feira Santa.

Em outra época, quando a turminha da escola entrou para o catecismo, a minha filha ficou de fora. Embora pertença a uma família católica, eu acreditava, naquela época, que a decisão sobre a religião caberia a ela, quando estivesse mais velha. Na verdade, a ela nunca faltou orientação religiosa, além de um grande respeito pelos padres jesuítas com quem estudava. Creio que o meu problema sempre foi com a pompa que cercava os sacramentos. Sempre achei que a liturgia que envolve tais celebrações esvazia o seu conteúdo.

Talvez seja trauma de minha própria Eucaristia, muitos anos antes. Tivemos que chegar muito cedo à igreja, já vestidos com uma túnica, estilo apóstolo, para o último ensaio das músicas que cantaríamos: “Só entra no céu, quem for como as crianças. Foi Jesus quem disse: ‘Deixai vir a mim esses pequeninos, porque o meu reino é dos pequeninos e de quem com eles se parecer’.”

As freiras que organizavam a celebração eram terríveis, tratando as crianças de 9 e 10 anos como prisioneiros em campo de concentração. Ninguém podia beber água nem ir ao banheiro.O riso, então, era pecado mortal. “Vocês acabaram de se confessar e já querem pecar antes de receber o corpo de Cristo?” Com isso, passamos horas em pé, ensaiando e esperando a hora de entrar na igreja, sorridentes como anjos…

Cortejo de crianças que se alinham no altar, à espera o corpo de Cristo. Tudo ia muito bem, até uma certa altura. Na metade da missa, comecei a sentir a pressão provocada pela bexiga cheia. Olhava o altar, pensava em Deus, na minha família que viera me acompanhar, na hóstia consagrada, na bronca que levaria da freira… Tudo valia para esquecer a vontade de ir ao banheiro. Mas a cerimônia parecia se alongar indefinidamente. A certa altura, em meu desespero, desisti de lutar e, em pé, deixei a urina escorrer pelas pernas, formando uma pequena poça ao meu redor. Por sorte a túnica folgada não molhou. Dei um passo ao lado e, aliviada, sorri como um querubim… Recebi a Eucaristia com o coração em paz. Nem lembro se as freiras perceberam ou não…

Mas aquela foi uma noite inesquecível: 8 de dezembro de 1980. Para quem não se liga em datas, explico. Quando chegamos em casa, meu pai ligou a TV a tempo de ouvir a notícia: “John Lennon foi assassinado por um fã, em frente ao prédio em que morava, em Nova York”. Nessa época eu nem sabia quem era John Lennon, mas aquele nome e aquela data ficaram gravados em minha memória.

Passaram muitos anos, décadas até, e uma semana após a celebração da Primeira Eucaristia dos colegas de minha filha, fomos à festa de aniversário de uma amiguinha da turma. Sentada à mesa, com outras mães, ouvia uma delas:

– Os meninos estavam lindos! A Primeira Comunhão deles foi maravilhosa…

– Que bom… – respondi, atenciosa.

A turma era enorme, não vi sua menina lá…

– Ela não participou.

– Como? Não participou? Vocês não são católicas?

– Somos batizadas, pertencemos a uma família católica, mas ela não fez a Primeira Eucaristia na semana passada.

– Ah! Mas isso não pode ser… Eles precisam dos princípios religiosos. Meu filho segue a religião. Vamos à missa todos os domingos e respeitamos os mandamentos.

– Sei…

Estou falando sério. O que podemos esperar desses meninos criados sem temor a Deus?

– Existem muitas formas de educar os filhos, de transmitir valores éticos, estabelecer freios sociais. Podemos ensinar cultura religiosa, mas quanto à fé, eu tenho convicção de que não pode ser ensinada. Você pode levar seu filho à igreja, fazê-lo participar das celebrações, mas isso não significa que ele acredite no que está fazendo e muito menos que siga as orientações que recebe.

– E por que colocou sua filha para estudar numa escola de padres?

– Principalmente porque eu estudei na mesma escola e guardei lembranças maravilhosas daqueles anos, além de uma visão muito positiva dos padres. Não das missas, mas das suas ações. Eles organizavam a ronda da sopa, atendiam à população carente de paróquias muito pobres, levavam os alunos a conhecer o lado desassistido da cidade. Pode ser ingenuidade, mas eu queria que ela tivesse essa experiência.

Ela devia ter feito a Primeira Eucaristia com o grupo da sala. Foi lindo! Eles pareciam anjos… As fotos ficaram lindas! Você não sabe o que perdeu. Eu sei que meu Leonardo é um menino temente a Deus, obediente, educado. Ele é incapaz de mentir ou causar problemas.

Naquele momento fomos interrompidas pela mãe de uma outra colega. Como sempre esbaforida, ela chegou anunciando:

– Menina, Leonardo escapou de ser suspenso essa semana!

– Como?!!! – perguntou a mãe do santo do pau-oco.

– Ele não te contou? Liderou uma rebelião na escola, fizeram o maior tumulto no pátio e ele conseguiu escapar sem ser pego pelo Diretor. Ele virou o popstar dos baderneiros.

– Como?!!!

– Não se falava de outra coisa na escola… Você não acompanha o que acontece na escola de seu filho? Você soube, Márcia?

– Sim, minha filha me contou a história.

– Leonardo não me disse nada… Meu Deus, o que aconteceu com esse menino? Logo depois da Primeira Eucaristia…

– Tenha compreensão, é uma criança. – consolei, magnânima.

1 thought on “Páscoa

  1. Márcia,
    Acho incrível ver como muitas mães acreditam que é a Igreja quem vai dar educação aos seus filhos. Os valores são adquiridos em casa, com os pais, desde o nascimento. Não importa se sua filha ainda não se decidiu por uma religião. O mais importante é que ela tenha uma boa índole e acredite que existe um Ser Superior.
    Conheci pessoas ótimas, de coração puro, incapazes de cometer alguma maldade e que nunca se comungaram. Acha que Deus
    deixaria de amar pessoas assim?
    Beijos.

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