Vizinhança, por Tatiane de Oliveira Gonçalves

Estou muito contente pela oportunidade de publicar em meu blog um conto de Tatiane de Oliveira Gonçalves, querida cunhada, casada com meu irmão caçula. Administradora e, agora, estudante de biologia, Tati é uma jovem escritora de muito brilho e inspiração, com dois livros de contos já publicados, e tem sido, ao lado de minha mãe (é claro, sempre a mãe), uma grande incentivadora de meu esforço em escrever. Recomendo a visita à sua página: http://asborboletas.com/

De seu primeiro livro, “As borboletas são assim”, extrai o conto Vizinhança, que ora compartilho com vocês:

“Ela começou falando com as plantas. Ninguém estranhava: era comum que algumas pessoas falassem com suas plantas e animais muito queridos. Não deu outra. O tempo passou e então começou a trocar confidências com o gato, que escapulia da ladainha sorrateiramente indo para o telhado encoontrar-se com a a gataria da área.

A situação só começou a assustar quando passou a falar com objetos inanimados. Os vizinhos foram os primeiros a estranhar, quando ela começou a se explicar com a porta.

– Voltarei logo. Não deixe ninguém entrar em minha ausência. Vejo-a logo mais.

No começo, a vizinha da frente achou que havia outra pessoa dentro da casa, e por causa da pressa ela falava já do lado de fora. Todavia a coisa foi ficando mais séria. Falava com a chave, com as cartas que recebia, com o semáforo e até com a garrafa de refrigerante

Os vizinhos comentavam pelos cantos à boca pequena.

– Será que ficou louca? – perguntava a mais fofoqueira.

– Que Deus tenha piedade! – apiedava-se a beata.

– Com o perdão da palavra, isso é falta de marido – afirmava o síndico que havia dado umas investidas românticas logo que ela se mudou.

O fato é que Antonia Gruis continuava com a mesma felicidade de sempre. Muito cordial com todos, que sempre a olhavam com certa reserva. Só havia aquele pequeno detalhe: falava com tudo que estava ao seu redor. Eram conversas ora corriqueiras, ora substanciais.

Certo dia foi encontrada na entrada principal do prédio em que morava, tendo uma calorosa conversa com a porta central. Aliás, parece que, de tudo, ela preferia as portas. Falava da situação econômica e política do país. Ao que parecia, a porta era de uma corrente diferente da sua. Estava praticamente a discutir com a porta. A coisa era tão consumada, que nem sequer notava os que passavam.

Foi nesse dia que o síndico ligou para a filha da moradora que morava em São Paulo.

– Como isso acnteceu? Por que só me ligaram agora? Ah, meu Deus, de novo isso…

A filha se mostrou muito preocupada e disse que viria ao seu encontro antes do final de semana. Informou-lhe que a mãe já havia surtado na época em que ficou viúva – mas isso já havia sido há 12 anos atrás.

A mulher, de fato, chegou antes do final de semana. Todos no prédio já sabiam que ela estava para chegar, menos a mãe, que continuava alegre da vida, conversando com seus amigos mudos.

Dim-dom e dirigiu-se à porta.

– Marina!? O que faz aqui? Não me diga que foi despedida!

– Não, mamãe! Recebi uma ligação do Sr. Demerval dizendo que você havia enlouquecido.

– Ah, isso!?…

Nesse meio tempo as duas se abraçaram e foram sentando no sofá já descalças e mais à vontade.

– Ah, filha, eles são tão caretas! É uma mesmice tão grande aqui! Eu inventei isso para me distrair um pouco. Você precisava ver a cara deles!… Ficavam tão assustados e pálidos. É tão divertido, Marina. Você deveria experimentar lá em São Paulo. Seus vizinhos são chatos, fofoqueiros e intrometidos? Experimenta, menina!

– Eu sei, mãe, que não deve ser fácil morar sozinha, sobretudo com essa vizinhança, mas não acha que é brincar demais com as pessoas? Olha, eu tive de inventar uma desculpa esfarrapada para o sindico. Mamãe, isso não está certo. Isso lá é forma de encontrar inspiração para escrever seus livros?! Desde pequena que eu tenho que inventar uma desculpa mais estranha que a outra. Assim não dá, mamãe!

– Ah, eles são muito caretas, bambina!… Só percebem pessoas de carne e osso, coitados! Gente limitada!”

 

4 thoughts on “Vizinhança, por Tatiane de Oliveira Gonçalves

  1. Gostei muito do texto, e, o conteúdo demonstra o quanto a criatividade daqueles que se dedicam a escrever é ilimitada. Parabéns! Continue nos brindando com sua criatividade.

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