O MET

Nasci em uma família com uma certa pretensão artística. Todos um pouco poetas, cantores, instrumentistas… Mesmo assim, atravessei toda a infância sem nenhum contato com música clássica, ou mesmo instrumental. Todos gostavam daquilo que era tocado nas rádios: Caetano, Chico, Gil, Gal, Betânia, Roberto Carlos, Martinho da Vila, Clara Nunes, Beth Carvalho, Gonzagão, Gonzaguinha…

À medida que fui crescendo, descobri outros estilos musicais, que não faziam parte do repertório à minha volta. E foi assim que me apaixonei pela ópera.

Não sei exatamente quando foi que ouvi pela primeira vez a Habanera, famosa ária de Bizet, mas foi paixão imediata. Quis conhecer a ópera inteira. Comprei o CD e, de tanto escutar, minha filha também aprendeu a gostar. Ouvíamos o tal CD, assistimos na TV a cabo (canal Films & Arts) a uma linda montagem e, durante anos, alimentamos o sonho de apreciar essa ópera ao vivo.

E a oportunidade surgiu alguns anos atrás. Planejamos por um ano uma viagem aos Estados Unidos: era o presente de quinze anos de minha filha, substituto da festa de debutante. Mas, em lugar da tradicional excursão juvenil à Disney, decidimos ir juntas, mãe e filha, a Washington e Nova York, em viagem cultural. Passei a acompanhar a programação da temporada de inverno do Metropolitan Opera e, no dia que foram abertas as vendas para Carmen, comprei nossos ingressos.

Viajamos, passando primeiro por Washington e chegando a Nova York no primeiro dia de dezembro. Na noite do espetáculo, quatro de dezembro, já nos sentíamos tão novaiorquinas quanto Carrie Bradshaw. Muito bem agasalhadas, saímos cedo, na luta por um táxi, afinal não queríamos chegar atrasadas ao Lincoln Center. Pagamos cinco dólares ao taxista, incluindo a gorjeta, e descemos em frente ao Met.

Lincoln CenterQue burburinho… O saguão estava lotado, pois, em razão do frio, ninguém queria esperar na linda área externa. Demos uma volta pela lojinha, avaliando as lembranças que poderíamos levar, e retornamos à entrada do teatro. Apresentamos nossos ingressos, partindo em busca de nossos lugares, em um dos balcões. O espaço é simplesmente belíssimo.

Met OperaSentamos em nossos lugares, ajustamos as legendas, que ficam nas poltronas em frente (optei pela legenda em inglês) e esperamos, ansiosamente, o início da apresentação. Finalmente nosso sonho foi realizado. Algumas horas de encantamento, música maravilhosa, elenco impecável, cenografia, figurino, iluminação. Acho que até quem nunca se interessou pelo estilo iria se apaixonar por Carmen, Micaela, Escamillo e Don Jose… Pobre Don Jose…

Carmen - último ato

Photo by Ken Howard

Encerrado o espetáculo, enfrentamos a realidade da cidade: não há táxis em número suficiente. Em frente ao Lincoln Center, enfileiravam-se as limusines dos patronos das artes. Naquele frio, senti inveja de quem tinha um carro aquecido para transportar ao seu destino. Decidimos voltar a pé, afinal só precisávamos caminhar uns seis ou oito quarteirões até o hotel. Como era muito tarde (mais de meia-noite), após alguns quarteirões, a rua ficou completamente deserta, exatamente como víamos nos episódios de Law and Order. Andamos rápido e logo chegamos à Sexta Avenida e, pouco depois, ao nosso hotel. Ufa! Sonho realizado, restava dormir, pois ainda tínhamos mais uma semana na cidade…

Além de nossas memórias, trouxemos do Met o DVD da montagem que havíamos assistido, uma ecobag com motivos musicais e o desejo de voltar muitas, muitas vezes…

Uma ideia sobre “O MET

  1. Gostei do texto mas fiquei pensando. Imaginem se eu soubesse que vocês estavam andando em ruas desertas depois da meia noite. Gostaria de ver essa Opera em filme, é claro!
    Beijos,

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