Gula

Para a Wikipedia, “Gula é o desejo insaciável, além do necessário, em geral por comida, bebida ou drogas. Para algumas denominações cristãs, é considerado um dos sete pecados capitais. Segundo tal visão, esse pecado também está relacionado ao egoísmo humano: querer ter sempre mais e mais, não se contentando com o que já tem, uma forma de cobiça. Ela seria controlada pelo uso da virtude da temperança. Entretanto, a gula não é considerada um pecado universalmente; dependendo da cultura, ela pode ser vista como um sinal de status.”

Dona Julinha recebeu um convite da vizinha:

– Venha à minha casa amanhã à tarde. Farei um lanchinho para receber minhas amigas.

Ela, sempre tão caseira, resolveu aceitar, afinal, morava há alguns anos naquele prédio e mantinha boas relações com a vizinhança. Desconfiou, todavia, que se tratasse de mais uma daquelas demonstrações de produtos. Instruiu a filha adolescente:

– Olha, eu vou aceitar o convite porque não quero ser indelicada com a vizinha, mas quero combinar uma coisa contigo: depois que eu sair, marque meia hora e interfone para lá. Diga que chegou uma visita e que eu preciso voltar para casa.

Acertada a estratégia de fuga, Dona Julinha partiu para o seu compromisso social. Chegando ao apartamento, foi recebida pela vizinha, que a conduziu à sala onde já estavam reunidas as outras senhoras. Estava certa. Era mais uma reunião para a venda de produtos Tupperware. Ela, que não tinha a mínima intenção de comprar nada, sorriu, satisfeita por haver planejado a saída antecipada, antes da coleta dos pedidos.

Foi traída pela gula. A mesa da sala de jantar estava repleta de quitutes variados, além de um linda torta floresta negra, a sua favorita. Pensou: “Eu como uma fatiazinha da torta e volto para casa”. A mesa, porém estava intacta e ela resignou-se a assistir à apresentação dos produtos. Todas as qualidades e vantagens da nova linha de jarras e potes foram descritas minuciosamente. Passada meia hora, tocou o interfone. A dona da casa pediu licença e foi atender ao chamado.

– Julinha, sua filha está dizendo que há uma visita em sua casa: são suas tias, irmãs de sua mãe.

Ela, dividida entre a oportunidade de escapulir e a torta floresta negra, que a mantinha hipnotizada, mandou o recado:

– Ah! Por favor, diga que a reunião começou agora e peça que esperem um pouco. Daqui a pouco eu volto para casa.

A filha, do outro lado, não entendendo a resistência, insistiu:

– Dona Nancy, desculpe insistir, mas diga a minha mãe que as nossas visitas não podem demorar muito.

A mãe, desvairada pela gula, levantou-se e falou baixinho ao interfone:

– Minha filha, você já é uma mocinha, faça um pouco de sala às visitas. Peça que esperem só um pouquinho, pois a reuniãozinha só começou agora. Ofereça um suco, uns biscoitinhos, converse com elas e logo, logo eu estarei de volta.

– Mas, mãe, elas não estão aqui de verdade. É só desculpa, esqueceu? Por que não pode sair dai? Quer que eu ligue novamente daqui a meia hora?

– Isso. Faça assim, por favor.

Voltou ao seu lugar, sentando-se ao lado das demais, atentamente assistindo à maravilhosa exibição de utensílios domésticos. “Parece que já está acabando. Logo servirão a torta”, pensou, salivando.

De fato, logo foi encerrada a fase de apresentação de produtos. Mas, antes que Dona Julinha pudesse levantar, a dona da casa tomou um caderninho e iniciou a coleta dos pedidos. Uma a uma, cada vizinha indicava um ou mais produtos que compraria, Algumas fizeram encomendas de objetos que não estavam no mostruário.

– E você, Julinha? Ficou aqui até agora, deixou suas visitas em casa… Com certeza está querendo fazer uma compra grande.

– Eh!… Só essa jarrinha aqui. – falou, apontando a mercadoria mais barata que descobrira.

Concluída a transação comercial, passaram à sala de jantar, onde foram servidos doces, salgadinhos, refrigerantes e, finalmente, a torta floresta negra. Saciada em seu desejo irracional, Dona Julinha voltou para casa, carregando uma jarra plástica.

– Mãe, você comprou isso lá? Por que não veio quando eu te liguei?

– Ah, minha filha… Você, tão magrinha, não pode entender. Eu não podia sair de lá. A torta, as cerejas, o chantilly…

2 thoughts on “Gula

  1. Márcia,
    Esta foi ótima. Conheci D. Julinha, boa pessoa, mas tão gulosinha . Também , logo floresta negra, ninguém resiste.
    Beijos.

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