Um homem muito vaidoso

Ele não disfarçava. Chegara à meia idade como queria. O escritório de advocacia ia de vento em popa, morava em uma bela casa, dirigia um carro de luxo, vestia-se com esmero e, glória das glorias, havia casado, em segundas núpcias, com uma mulher muito mais jovem, que lhe dera um filho temporão, agora que os primeiros rebentos, nascidos da primeira esposa em tempos de pobreza, já estavam criados.

Na verdade, não lhe agradavam as recordações daqueles tempos difíceis. Não agora, quando os honorários começavam a jorrar em seu cofrinho e ele conseguira instalar seu escritório em amplo conjunto de salas no Caminho das Árvores.

Sorridente e confiante, chegou certo dia ao Fórum e dirigiu-se à atendente:

– Amiga, percebeu algo diferente em mim hoje?

– Não, doutor. O que houve?

– Não percebeu? Não está me achando mais jovem e bonito?

– É mesmo… Tem alguma coisa diferente. O que o senhor fez?

– A-ha!!! Implantei doze mil fios de cabelos. Doze mil!!! Custou uma fortuna, mas valeu a pena. Olhe aqui. Não, chegue perto, olhe bem de perto. Cobriu toda a minha carequinha. Sabe como é… Mulher nova… Tenho que ficar em forma.

– É, doutor, precisa se cuidar.

Passados alguns dias, o causídico retornou ao mesmo balcão, vitoriosamente bradando:

– Minha amiga, responda rápido: você conhece algum homem mais elegante, mais charmoso, mais cheiroso do que eu?

– Sim, doutor. O meu marido, é claro…

Enquanto a serventuária conferia os documentos apresentados, ele atendeu ao telefone, que insistentemente tocava o Bolero, de Ravel:

– Alô!!! Diga, grande! Sim, eu já tirei as medidas para os ajustes. Isso… Mas não esqueça, as barras são italianas. Isso, italianas… E o blazer? Vocês não receberam os blazers combinando? Então… Sim, eu quero todos os ternos completos… Pode colocar na minha conta. Você tem as minhas medidas anotadas, não?

Encerrou a ligação e, recebendo a cópia da petição apresentada, explicou à funcionária que o atendia:

– Ora, ora… Que vendedor é esse? Ele me vende oito calças e esquece de oferecer o blazer dos conjuntos… Vendedor inexperiente. Eu tive que insistir para comprar. Onde já se viu uma coisa dessa?

– É, doutor, como o senhor sofre…

Durante alguns meses, ele sumiu do Fórum. Sua vida dera uma guinada para trás. Primeiro, correram os boatos de que se envolvera em incidente com oficial de justiça que fora apreender seu carro, por conta da falta de pagamento das prestações do financiamento. Os jornais locais noticiaram que o meirinho fora recebido a bala pelo garboso devedor. Pouco depois, os serventuários receberam  a comunicação oficial de que fora suspenso pela Ordem dos Advogados. “Ah! Por isso ele sumiu…”, pensou a servidora, que já sentia saudades de sua gabolice.

Um dia ele apareceu, acompanhando outro advogado. Permaneceu discreto durante todo o tempo, mas, antes de partir, não resistiu e confidenciou à sua fiel ouvinte:

– Minha amiga, você não imagina a volta que minha vida deu. Fiquei pobre. Estou quebrado, no fundo do poço. Imagine só que uma pessoa como eu, de gosto apurado, exigente, estou morando na Vila Laura! Na Vila Laura!

Assim que o seu velho conhecido foi embora, a serventuária, que sempre morou na Vila Laura, telefonou para sua casa:

– Gente, tranca a porta direito, porque tem ladrão no bairro…

9 thoughts on “Um homem muito vaidoso

  1. kkkkkkkkkk, adorei! Vejo tanto esse tipo de pessoa… Conheço um parecidíssimo… Vivia todo endividado, ações de cobrança do condomínio onde morava, busca e apreensão do carro… mas o jeito como falava alto e se gabava… Mais parecia um ator que um Promotor de Justiça!

  2. Márcia,
    Nem naquela família de vaidosos havia alguém assim. No final fiquei com pena do sujeito. Parabéns a você que soube descrevê-lo tão bem.
    Beijos,

  3. Marcinha, adorei! Está muito boa, hilária, aliás, eu me senti contemplada.
    Acredito que o causídico em foco continua pobre, pois continua sumido do ambiente forense.

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