Ira

É o conceito da Wikipédia: “A Ira é o intenso e descontrolado sentimento de raiva, ódio, rancor que pode ou não gerar sentimento de vingança. É um sentimento mental que conflita o agente causador da ira e o irado. A ira torna a pessoa furiosa e descontrolada com o desejo de destruir aquilo que provocou sua ira, que é algo que provoca a pessoa. Segundo a Igreja Católica, a ira não atenta apenas contra os outros, mas pode voltar-se contra aquele que deixa o ódio plantar sementes em seu coração. Seguindo esta linha de raciocínio, o castigo e a execução do causador pertencem a Deus. Do latim ira”.

Existe palco para explosões de ódio tão inexplicáveis como o trânsito? Os motoristas, ao sentarem por trás de um volante, abrem mão de grande parte de sua humanidade. Nem cogitam que, em algum instante de seu dia, também eles são pedestres. Esquecem que, em algum momento de sua vida, estão desembarcados de seus tanques de guerra, meros civis expostos à luta e ao caos urbano.

As duas passeavam por Nova York e, naquele dia, carregadas de compras, resolveram pegar um táxi em frente ao Port Authority Bus Terminal. Pegar um táxi em Nova York é quase tão estressante quanto trafegar a Avenida Paralela às seis da tarde. É esporte radical, apenas para quem possui nervos fortes.

O taxista dispensara o grupo que estava à frente das duas, que, imediatamente, aproximaram-se do veículo, implorando para serem transportadas. E conseguiram, pois o hotel delas, próximo ao Central Park, ficava no caminho do motorista, que já voltava para casa, no Harlem.

Sentaram-se no banco traseiro e, cuidadosamente, uma delas informou o destino. No rádio, em alto volume, troava o último hit do hip hop. O motorista, negro, magro, muito parecido com o Eddie Murphy, guiava o carro ao ritmo da música.

Cruzaram a Times Square e logo estavam na Sexta Avenida. O trânsito estava travado e o taxista, apressado, quase se arrependera por ter aceito aquela última corrida.

Em determinado momento, um outro táxi inesperadamente cruzou à sua frente e encostou na calçada da esquerda. Sem hesitar, o motorista emparelhou com o audacioso que lhe dera aquela “fechada”, colocou o corpo para fora da janela e, dedo em riste, berrou para o outro condutor: “Ei, mano! Você cometeu um erro, cara. Você tem que se desculpar, ouviu? Você tem que se desculpar.” Era como se ouvissem o Samuel L. Jackson declamando a passagem bíblica em cena do filme Pulp Fiction.

Apavoradas, as duas se abaixaram no banco de trás, protegendo-se para o caso de haver troca de tiros, como viam aos domingos, nos episódios de Law and Order. Não houve tiroteio. O taxista, ainda exaltado, aproveitou que o trânsito começara a fluir, deixando estupefato o imigrante árabe que dirigia o veículo infrator.

Tímida, uma delas repetiu o endereço do hotel.

– Eu já ouvi. – retrucou, impaciente, o motorista.

– Desculpe, só repeti porque meu inglês é muito ruim e o senhor podia não ter entendido. – explicou, temerosa da reação do inflamado novaiorquino.

– Seu inglês é muito bom. Vocês são francesas?

– Não, brasileiras.

– Ah! Meu mecânico é brasileiro. Vocês são de São Paulo? O trânsito de lá é pior do que o daqui?

– Somos da Bahia e o trânsito é ruim em toda parte do mundo.

– Aqui é pior. É o pior trânsito do mundo. Não peguem táxi aqui. É melhor ir a pé. Ou de metrô. Não tente andar de carro aqui. Ah! Vou deixar vocês naquela esquina, porque a sua rua está engarrafada e vai me atrasar. São dez dólares.

Pagaram a corrida e a gorjeta, desceram rapidamente do táxi e caminharam até o hotel, agradecendo a Deus por mais um dia de vida.

7 ideias sobre “Ira

  1. Concordo, plenamente, com você. As pessoas, geralmente, se transformam quando estão dirigindo. Esquecem as regras básicas de cordialidade com os demais e extravasam seus problemas. São capazes até de matar…Lamentável!

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