Inveja

Diz a Wikipédia: “A inveja é considerada pecado porque uma pessoa invejosa ignora suas próprias bênçãos e prioriza o status de outra pessoa no lugar do próprio crescimento espiritual. É o desejo exagerado por posses, status, habilidades e tudo que outra pessoa tem e consegue. O invejoso ignora tudo o que é e possui para cobiçar o que é do próximo.
A inveja é frequentemente confundida com o pecado capital da Avareza, um desejo por riqueza material, a qual pode ou não pertencer a outros. A inveja na forma de ciúme é proibida nos Dez Mandamentos da Bíblia. Do latim invidia, que quer dizer olhar com malícia.”

Não sei se algum outro pecado provoca tanto sofrimento no pecador quanto a inveja. Eu, por dádiva divina, sempre estive tão intensamente envolvida com a minha própria vida que nunca parei para ficar olhando e desejando a vida, bens, status ou seja lá o que for de outros. Mas sei que a inveja mata. E, antes de matar, tortura o invejoso.

A verdade é que, vez por outra, sentimos a presença desses vampiros à nossa volta. Na Bahia, a inveja é chamada de “olho gordo” e o invejoso, de “despeitado”. Para proteger de sua presença maligna, existem os amuletos. Não estou falando em religião, mas baiano que é baiano tem as suas superstições. E, mesmo que não acredite, até aquele que se declara ateu, obedece a muitos preceitos recomendados. Contra a inveja, o bom baiano se protege, “fecha o corpo”, agradando aos santos e orixás.

E a religiosidade do baiano é cheia de graça. Coragem de ir a um terreiro de candomblé, eu nunca tive. Acho que sempre tive medo de ouvir os atabaques e incorporar alguma entidade. Esse também foi o temor de minha mãe quando, em visita ao Mercado de Sete Portas, onde pretendia comprar um vaso de barro, começou a ouvir o batuque que saía de uma das barracas próximas – justo aquela que vendia folhas e ervas utilizadas em banhos de descarrego e mandingas. O seu corpo começou a balançar suavemente ao ritmo do tambor. E e a balançar… E a balançar… Olha a sorte! A madame, percebendo o risco, saiu de fininho das proximidades do som dos atabaques, salvando a sua reputação de católica.

Não sei. É melhor respeitar… Todos os anos, no mês de setembro, a avó paterna de minha filha gostava de distribuir a sete meninos o “caruru de Cosme e Damião”. Quando chegava esse dia, enviava marido e filhos com a  missão de “arranjar” sete meninos para virem comer o tal caruru.

Um certo ano, ela resolveu revolucionar: ”Esse ano vou mudar. Não vou trazer os meninos para casa. Comprei umas quentinhas, vou preparar e vamos levar para distribuir em uma invasão”. Que legal! Caruru delivery. Apenas um problema: faltavam voluntários para a expedição. Fomos eu e minha filha, que tinha cerca de 3 anos, acompanhá-los e dar o nosso apoio moral.

Chegamos à entrada da favela e algumas crianças deram o aviso às demais: “É caruru! Naquele carro.” Rapidamente fomos cercados. Mal dava para abrir um pedacinho da janela e, cuidadosamente, entregar a quentinha a cada criança. A uma certa altura, um garoto mais afoito esticou o braço, preocupado em pegar sua quentinha antes que elas acabassem. Em sua agitação, bateu a mão no colo da benfeitora.

Voou caruru, vatapá, farofa e demais acompanhamentos por todo o carro. Do banco de trás onde estava, só tive tempo de me abaixar e proteger minha filha. Os dois bravos que estavam no banco da frente tomaram um banho de comida baiana, lavando-se, ainda, bancos e teto do carro com o mais puro dendê.  Essa ninguém me contou: eu estava lá. Tudo por Cosme e Damião.

Contra a inveja, recomendo a oração de São Jorge: “Eu andarei vestido e armado, com as armas de São Jorge. Para que meus inimigos tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me enxerguem e nem pensamentos eles possam ter para me fazerem mal.
Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrarão sem ao meu corpo chegar, cordas e correntes se arrebentarão sem o meu corpo amarrarem.”

3 thoughts on “Inveja

  1. Ri muito, Márcia.
    O estremecimento de sua mãe, que fugiu antevendo a manisfestação de “um caboclo” ficou hilário, sem falar do caruru derramado, que imaginei a cena.
    Parabéns!

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