Caminhos, por Rogério Grillo

Há muitos anos conheço Rogério Grillo, músico baiano, dotado de linda voz e repertório variado, alicerçado no que há de melhor na MPB. Seu talento pode ser conferido no próximo sábado, dia 29 de setembro, às 21 horas, no Bar Santo Antonio, na Barra. E, depois, nos dias 06, 13, 20 e 27 de outubro, sempre aos sábados, no mesmo local. Imperdível.

Tempos atrás, ele dedicou a nosso amigo comum, Luiz Goulart, uma belíssima crônica, que nos traz reminiscências de uma cidade que mudou de feição nos últimos vinte, trinta anos. Essa é a Salvador de nossas lembranças:

“Falta de memória. Memória curta. Povo sem memória. É incrível a gama de frases feitas que ouvimos a respeito das lembranças que temos (ou
não) das coisas, da vida. Mas por incrível que possa parecer, quanto mais eu ouço qualquer uma dessas frases mais e mais lembranças de tempos e lugares me vêm à cabeça. Parece uma espécie de auto-defesa, face a uma provocação.

Estava um dia desses conversando com amigos, quando, no decorrer do papo, comecei a relembrar nome de ruas, lugares, points de época que, de
fato, não faz muito tempo deixaram de existir, algo em torno de quinze anos talvez, e para os meus amigos parecia que eu estava falando de outra cidade! e olha que eu nem citei algumas outras coisas de que me lembro – mais antigas – que , se eu não cheguei a vivenciar, sou capaz de localizar no tempo e na geografia.

Como não lembrar, por exemplo, das tardes de domingo na Boate Tropical, que ficava dentro da AAB (Associação Atlética da Bahia)? para os adolescentes que moravam na região da Barra/Barra Avenida em meados dos anos 80 era o grande ponto de encontro. E a Boate da AAB tinha uma forte rival. Seguindo pela Av. Marquês de Caravelas, logo depois da antiga agência dos correios que ficava já próxima ao Alameda, pegava a rua Afonso Celso, dobrava na primeira transversal que dava acesso à rua Marques de Leão – onde se podia tomar um ótimo sorvete na Bambinella, quase no fim da rua – e, na rua Prof. Fernando Luz (outra transversal), chegava-se à Boate Close-up, reduto dos adolescentes um pouco mais velhos e com muito mais dinheiro. Naquela época, quando se pensava em sorvete, alguns nomes eram lembrados. Para os que tinham carro e disposição, a imbatível Sorveteria da Ribeira era a melhor opção. Para os que iam a pé, ou de bicicleta (eu ia de bicicleta), a Sorveteria da Barra, no Jardim Brasil , rivalizava com a Nebraska, em frente a Igreja de Stª Terezinha, quase porta a porta, uma com a outra. É engraçado lembrar que, invariavelmente, quando eu ia com meu pai cortar cabelo na barbearia do Souza, um pouco mais a frente na rua, nós passávamos em uma das sorveterias para saborear uma (ou duas) de suas especialidades. Foi na sorveteria da Barra que eu provei pela primeira vez o sorvete de Pistache – e detestei –

Foi bem por essa época que a Perini abriu suas portas ali na rua Miguel
Bournier, próximo ao Alamêda. E foi bem por essa época também que
começaram os “pegas” ali todo domingo à noite. Eu assistia de camarote, pois do prédio em que eu morava a visão era total e muitas vezes vimos algumas pessoas jogando areia no chão para facilitar a derrapagem dos carros que queriam dar um “cavalo-de-pau” para se exibir. Ao lado da Perini, onde hoje fica o Shopping Barra, existia um bloco de carnaval cujos ensaios todo sábado à noite movimentavam a rua: era o “Ensopado de Tatu” que numa divertida sátira ao bloco de Armandinho, Dodô e Osmar, anunciava como suas atrações o trio “Orlandinho, Godô e Oscar”. E isso tudo no tempo em que o, hoje, Bom Preço ainda era Paes Mendonça, e os carros que vinham pela Av. Centenário em direção a Perini (naquele tempo, a Miguel Bournier era mão-dupla), e queriam retornar, o faziam em frente ao Supermercado. Depois, com a construção do Shopping Barra, o retorno foi deslocado e a Av. Centenário, que no final dos anos 60 foi palco até de corridas de carro (pois é, pergunte pra seu pai, caro leitor) ainda veria muitas modificações.

E a praia do Porto da Barra ? quantas e quantas vezes eu e a minha
turma da 8ª série jogamos bola naquelas areias num dia de semana pela
manhã….! Isso acontecia sempre na época das provas. Estudávamos no Colégio Sophia Costa Pinto, no Corredor da Vitória, e então, depois das provas, que nós sempre terminávamos cedo, descíamos andando pela Ladeira da Barra e passávamos o resto da manhã na praia. Alguns anos mais tarde, um pouco menos crianças, eu e alguns remanescentes dessa turma íamos terminar a tarde tomando cerveja no Tik-Tok, um bar que fez história no Porto.

Salvador tem uma peculiaridade que a torna muito interessante: a sua orla parece não acabar nunca. Pode-se ir da Barra até Itapuã, trecho que não se faz em menos de 40min., sem perder a praia de vista. É um privilégio para os alunos do Social (ISBA), por exemplo, o fato de estarem na escola assistindo aula, tendo o mar como paisagem. Na fase em que eu morei em Ondina, de 1970 a 1975, a grande atração era a piscina “natural” encravada nas pedras, mandada fazer por um senhor aposentado que morava no bairro e resolveu dá-la de presente às crianças. E me lembro também da tensão que tomou conta de todos quando a onça “Peteleca” fugiu do zoológico e ficou rondando a área até ser avistada, abatida e empalhada (até hoje está lá, no zôo).

Hoje, a praia de Ondina, tem uma praça bem urbanizada com acesso especial para deficientes físicos e placas em Braille para facilitar a vida dos deficientes visuais, mas naquela época, sem esses aparatos, comia-se ali o maior sanduíche que eu já vi na minha vida: no trailler do Tony´s, o precursor da grande lanchonete que hoje está na Pituba. Tempos depois o Tony´s daria lugar a outro trailler O Mala do Hot Dog, que não tinha a mesma qualidade.

Passagens da infância, outras mais recentes, um pulo temporal aqui, um
salto no espaço ali. A cronologia, quando se trata de lembranças, é muito
difícil de ser respeitada. O fato é que é preciso não se perder das coisas que valem a pena. Relembrar de coisas, tempos e lugares é uma forma de reviver todos eles, e assim fazer com que “aquela” cidade não morra nunca, e nos eternizar junto. Mais uma frase feita: Recordar é viver.” 

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