A foto da capa

Viagem boa, planejada com muita antecedência e feita sem pressa, com muitos dias para explorar cada cidade. Em Washington, haviam programado a visita a diversos museus e pontos históricos. A maior surpresa, ou, ao menos, a mais emocionante, ocorreu em um lugar que não constava do roteiro original. Já haviam feito o city tour na véspera e conheciam os principais pontos da cidade, mas o bilhete do ônibus dava direito a 48 horas de uso. “Vamos fazer o passeio novamente e parar nos lugares que não visitamos ontem”.

Não tiveram dúvida: desceram no Cemitério de Arlington. A entrada do cemitério já transportava a outra dimensão, com seus espaços amplos, tranquilos, limpos, organizados, silenciosos. Receberam o mapa do cemitério e, calculando o tempo necessário para percorrer aquelas imensas alamedas, escolheram os pontos que desejavam visitar: os túmulos de John Kennedy e do Soldado Desconhecido.

O céu tinha um lindo tom de azul, na manhã fria e ensolarada daquele outono ianque. Após longa caminhada, chegaram ao túmulo de John Kennedy, onde ardia a “chama eterna”.

Túmulo de John F. Kennedy

Sem sombra de dúvida, aquele era o jazigo mais visitado. Permaneceram durante algum tempo, observando os túmulos de John, Bobby, Jackie, as homenagens rendidas ao ex-presidente, a emoção dos visitantes.

Seguiram rumo ao Túmulo do Soldado Desconhecido, onde pretendiam assistir à troca da guarda. Caminharam por vastas colinas avistando os imensos gramados cobertos de lápides de mármore branca quase idênticas, onde, além do nome do seu “hóspede”,  lia-se a indicação da data de nascimento e morte, patente e guerras em que havia lutado, afinal, trata-se de um cemitério militar. A garota começou a refletir: “Como eles valorizam os soldados… Tão diferente do Brasil.”

Lado a lado descansavam os mortos da Segunda Guerra Mundial, da Guerra da Coréia, do Vietnã, da Guerra do Golfo. A leitura das inscrições nas lápides apontava a supressão de existência tão jovem. Os soldados, pouco mais que adolescentes. Outros, com mais idade, de patente mais elevada, e igual destino, todos tombados na frente de batalha.

Chegaram ao Túmulo do Soldado Desconhecido, que fica ao lado de um lindo anfiteatro em mármore branco.

Anfiteatro

Ali, ao mesmo tempo representando e recebendo homenagens em nome daqueles que anonimamente tombaram em tantas guerras, permanecem guardados os restos mortais de três soldados não-identificados da Primeira e Segunda Guerras Mundiais e da Guerra da Coréia.

Ouviram o toque da corneta e, contornando o anfiteatro, chegaram ao Túmulo do Soldado Desconhecido, onde, separados por um cordão de isolamento, turistas e visitantes assistiam à cerimônia de troca da guarda. Tudo muito solene e impecavelmente ensaiado. Ali não havia espaço para tropeço, tosse e, muito menos, murmúrios.

Durante a cerimônia, os soldados do Terceiro Batalhão de Infantaria cumpriram um ritual impecável que compreendia 21 passos e pausas de 21 segundos, para a frente e para trás, em sequência, e que simbolizavam a saudação nacional de 21 tiros de canhão.

Túmulo do Soldado DesconhecidoMuito jovens, os soldados apresentavam armas, batiam continência, contavam passos e pausas, alinhavam os calcanhares, muito sérios e compenetrados naquele momento. Felizes, satisfeitos? Impossível descobrir. Se havia descontentamento com a farda ou qualquer indisposição para o ritual militar ali encenado, os jovens soldados não traíam seus sentimentos, portando-se com a solenidade pertinente.

Permaneceram algum tempo acompanhando a cerimônia. Uma delas, ante a premente necessidade de ir ao sanitário, tencionou afastar-se do local, sendo impedida por um soldado. Uma vez iniciada a troca da guarda, nem aos civis era permitido abandonar a reverência. Túmulo do Soldado desconhecidoTemerosa com as consequências que o seu comportamento desrespeitoso pudesse provocar, ela enviou à sua bexiga uma súplica, contendo-se por mais cinco minutos. Encerrada a cerimônia, finalmente foi permitido deixar o local. Como cemitério militar americano é realmente “coisa de primeiro mundo”, logo ao lado, na entrada do anfiteatro, haviam sanitários modernos, impecavelmente cuidados, com equipamentos novos e segurança militar na porta.

Andaram apenas alguns metros e uma delas disse: “Ouça, tem uma banda militar tocando. Será uma parada?” Permaneceram atentas, enquanto o cortejo se aproximava. À frente, uma pequena banda tocava algumas marchas. Em seguida, cavalos ornamentados conduziam uma espécie de carruagem. Após, alguns soldados marchavam e, ao final, em um carro precedido por cavalos, era conduzido o caixão, coberto com a bandeira norte-americana.

A família, composta de mulher e dois filhos pequenos, acompanhava, enlutada, a cerimônia. Todos aqueles que visitavam o cemitério ficaram quietos, respeitosamente observando a passagem do cortejo fúnebre. A mais jovem, tão imaculada e inocente em seus quinze anos, não conteve a lágrima que furtivamente escapou, molhando a sua luva. “Eles respeitam tanto os soldados. Reverenciam aqueles que dedicam a vida ao seu país, que morrem lutando por seu país…”

Encerrada a visita ao Cemitério de Arlington, enquanto aguardavam a chegada do ônibus, silenciosamente refletiam sobre a estupidez da guerra e o valor de uma vida tão brutalmente sacrificada.

Celebrando a vida, a mais jovem fotografou a copa ressequida de uma árvore que, resistindo com as últimas folhas amarelas à investida do inverno iminente, contrastava com o céu de azul indescritível.

Essa foto, captada em momento tão significativo, tornou-se a capa desse blog, onde intenção e gesto lutam e fazem as pazes cotidianamente.

Obs: Todas as fotos do post são de autoria de Luiza Sampaio.

4 ideias sobre “A foto da capa

  1. Márcia,
    O texto é emocionante. É triste por se pensar nos jovens que perdem a vida nas guerras, mas ao mesmo tempo é lindo se ver como os soldado são valorizados. Estou comovida.
    Beijos,

  2. Nossa, Márcia fiquei sem palavras. Linda, linda!!!!
    Vale ressaltar que você retratou. com perfeição, sua emoção.

  3. Marcia
    Muito bom texto. Agora entendo o significado desta arvore. Até então, sem sentido para o q vc escrevia. Parabéns!
    Continuo acompanhando..

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