Não foi por mal

Era uma viagem de trem, de Washington a Nova York. Para não haver engano, tratou de decorar o nome de todas as estações em que fariam paradas, antes de chegar à Penn Station, em Manhattan.

Após o embarque, mãe e filha acomodaram-se em suas poltronas, conversando animadamente sobre as paisagens, a pobreza das casinhas de madeira à margem da ferrovia, o rio que cruzaram, as cidades conhecidas dos seriados policiais da televisão: Baltimore, Philadelphia… Também cochilaram um pouco, pois, embora fosse uma viagem rápida, haviam acordado muito cedo.

Numa certa altura, o trem ficou retido por quinze minutos em uma estação. Uma mulher de meia idade, com aparência de estrangeira, levantou-se, indagando a todos sobre a razão do atraso do trem. Ninguém soube explicar. Todos se olharam e voltaram ao notebook, ao papo, ao sono. O trem tornou a se mover. Uma estação, duas estações. E a mulher questionou ansiosamente os companheiros de vagão: “Newark Airport?” Mãe e filha se olharam e a garota falou com a mulher: “No.Next one”. Seguiram viagem.

Na parada seguinte,  a mãe disse à filha: “Acho que a parada dela é esta daqui.” Sem hesitação, a garota avisou à mulher que haviam chegado à sua estação. A mulher, por sua vez, sem demora, ergueu-se, pegou a sua bolsa e a sua bengala e desceu, claudicando, pouco antes do trem dar partida. Mãe e filha viram quando ela se afastou do trem.

A princípio satisfeita com a boa ação que haviam praticado, a mãe reclinou-se e fechou os olhos. Cinco minutos depois, endireitou o corpo na poltrona e disse à filha: “Está me dando uma angústia… Eu não vi a placa com o nome da estação. Achei que fosse ali porque parecia um terminal de aeroporto, mas não tenho mais certeza”. Silêncio.

A filha soltou um risinho nervoso e disse: “E se tiver sido a estação errada?” “Espero não ter indicado a parada errada”. “Mãe, olhe a placa ali: Newark Airpot. Demos informação errada”. “Mas, também, que mulher idiota! Onde já se viu pedir informação a turista? Não viu que não somos americanas?” “Ela não pediu, mãe, fomos nós que oferecemos a informação”.

Novo silêncio. Tinham certeza de que todos naquele trem as olhavam com desconfiança. Eles sabiam que, por conta da indicação errada delas, a mulher, estrangeira e deficiente, havia perdido o avião.

O trem diminuiu a velocidade e parou em frente à estação PennStation, em New Jersey. Na poltrona ao lado, o homem alto, careca, vestindo terno, fechou o notebook e levantou-se apressado, olhando através das janelas e exclamando: “Oh! Penn Station. It’s New York!”.

As duas trocaram olhares constrangidos: “Filha, e agora? Ainda estamos em New Jersey, mas estou sem coragem de avisar”. ” Mãe, acho que ninguém mais vai confiar em nossa indicação”. A mãe continuou preocupada: “Ele deve estar indo para alguma reunião importante, está com um pasta, trabalhou no computador a viagem toda. Vai acabar perdendo o emprego”. “Mãe, estou com vergonha dos outros passageiros”.

Sem hesitação, a mãe dirigiu-se à filha, com firmeza: “Filha, somos baianas e nunca vamos negar uma mãozinha a quem precisa. Vá lá, avise que ainda não estamos em Nova York e seja o que Deus quiser…”

2 ideias sobre “Não foi por mal

  1. Márcia adorei a história. Um complemento perfeito para minha série do baiano interativo. Seria algo tido: as baianas interativas num trem para Nova Yorque. Adorei. Uma comédia de erros. A intenção foi boa mas o resultado….quanta diferença…massa

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