Glorioso Santo Antônio

Duas irmãs muito unidas. Grandes arteiras. Nascidas em família numerosa, muito cedo perderam o pai. A mãe, rigorosíssima, era muito temida e respeitada. Ficou viúva com dez filhos, o caçula recém-nascido. Não contava com apoio familiar, apenas seu trabalho e pulso firme podiam garantir algum futuro aos filhos.
O tempo passou, os filhos cresceram, casaram, seguiram seu rumo. Três filhos, porém, permaneceram morando com a mãe: um rapaz e as duas irmãs. A vida seguia, os anos corriam e elas continuavam sendo, para todos, “as meninas”. Uma delas orgulhava-se de seus olhos verdes e dos sedosos cabelos castanhos claros, herdados do pai loiro. A outra, muito parecida com a mãe, exibia a sua exuberante afrodescendência.
A mãe, devota de Santo Antônio, todo ano organizava uma “reza” para o seu santo protetor. Não eram necessários convites, pois todos já sabiam: dia treze de junho era dia de “reza”. Nem mesmo a escassez de recursos impedia a família de reunir-se, ao lado de amigos, vizinhos e curiosos, espremendo-se pela casa, no culto ao santo.
Durante quinze dias a casa era preparada, renovando-se a pintura, bordando toalhas e consertando pequenas avarias. Após a faxina caprichada, era preparado o altar, ornado de flores. Na sala ao lado, ficavam as mesas com os quitutes: bolos, pastéis, empadas, pãezinhos, doces e salgadinhos variados, além da fartura do amendoim cozido. Licores, cerveja, refrigerantes.
À medida que a família crescia, agregando-se genros, noras, netos e bisnetos, a casa ficava cada vez mais apertada, o que fazia com que os homens permanecessem no quintal ou na varanda, batendo papo, enquanto no interior da casa se desenrolava a parte religiosa e os cânticos eram entoados. As mais devotas assumiam a liderança e puxavam a reza, esforçando-se por soar da maneira mais desafinada possível. Eventualmente, a solista esquecia a melodia e o glorioso Santo Antônio sofria, até que alguém corrigisse o rumo da cantoria.
As crianças logo cedo participavam da festança familiar, algumas assustadas, outras mais interessadas nos doces. Vidradas nas velas e flores ou soltando fogos na rua, a festa sempre foi de todos. Uma delas, aos três anos, muito graciosa e tagarela, chegou muito animada à festa:
– Quero rezar para Santo Antônio.
Aproximou-se do altar e, muito contrita, uniu as palmas das mãozinhas, preparando-se para a oração. Os adultos ocuparam o espaço ao redor da pequenina, portando seus livrinhos de orações. A inocente, tão enlevada com as rosas, cravos, velas, santos e anjos, não percebeu o movimento ao seu redor. Em coro, soaram as vozes:

“Vinde espírito divino
Nossas almas renovai
Sobre os peitos que criastes
Dons celestes derramai.”

Quanto horror! Fugindo daquela gritaria dissonante, a criança, em prantos, desesperada, encontrou a tia:
– Não vá lá, não, tia. Não vá. É ‘horrivio’.
Desconsolada, a menina cresceu e nunca mais chegou perto de um altar.
Em outro ano, com a velha mãe já doente, as duas irmãs resolveram fazer uma grande reforma na casa, antes da festança. Estreantes na contratação de pedreiros e pintores, utilizaram o critério que julgaram mais adequado para a escolha do empreiteiro que conduziria a tão sonhada reforma. Não foram necessárias maiores reuniões familiares para a tomada de decisão. Entenderam-se silenciosamente: “Já temos o nosso pedreiro. Alto, forte, bonitão. Um figura vistosa. É tudo de que precisamos”.
Contratado, o operário chegava cedo à casa delas, sentando-se à mesa com a família, enquanto as irmãs ofereciam um pouco mais de café, um pedaço de bolo, mais uma fatia de cuscuz.
Diante das inegáveis qualidades do seu mestre-de-obras, concordaram em adiantar parte do pagamento. A obra seguia sem pressa, iniciando-se tarde, após a refeição matinal. Interrompia-se para o almoço, que, servido com todo apuro pelas irmãs, era seguido de uma pequena sesta. Retomado, o trabalho logo tinha que ser encerrado, pois entardecia e o garboso operário retirava-se antes do pôr-do-sol, tal um personagem de contos de fada.
Passado um mês nessa toada, a obra não avançava. Alguns parentes questionavam:
– O que está havendo com a reforma de vocês? Esse homem não sai daqui, mas a obra não anda. Vou tomar satisfações com ele.
– Não faça isso. – levantaram as duas. – Ele é muito cuidadoso e por isso o trabalho está demorando a ficar pronto. Ele quer que tudo saia certinho, bem feito.
Ao final do segundo mês, quando já não haviam mais créditos a receber, o galã desapareceu.
– O que será que aconteceu com ele? Só pode estar doente. Um rapaz tão competente, tão alto, tão bonito… – refletiu uma delas.
– O pior é que não temos o endereço dele, pois podíamos até ir ver se está precisando de algo.
Outro irmão, ao tomar conhecimento do embuste, não se conteve:
–  É bem merecido, para vocês pararem de ficar prestando atenção na beleza dos homens e tomar conta de suas vidas. Não vou ajudar. É uma lição para vocês.
Após a saída do irmão, as duas conversaram:
– E agora? O que vamos fazer? Já não temos dinheiro.
– Não se preocupe, eu vou dar um jeito.
No dia seguinte, a decidida irmã chega ao trabalho abatida, desgrenhada. O chefe da repartição preocupa-se:
– O que aconteceu contigo? Algum problema? Está doente?
– Eu não, doutor, mas a minha mãe está doente, o senhor já sabe. Ela não sai da cama e agora, com essa chuva que caiu no final de semana, a parede do fundo de minha casa desabou. Não sei o que fazer. Eu não me importo comigo. Dormiria até na rua, mas a minha mãezinha, coitadinha… Ela não vai resistir à friagem.
– Pode ficar tranquila. Eu vou te dar o dinheiro para consertar sua casa. Vou fazer melhor, vou mandar um engenheiro lá, para avaliar o dano.
– Não, doutor, precisa não… Eu já vi o que precisa fazer, é só levantar uma parede nova, refazer o telhado do fundo.
– Então me diga o valor e fica tudo resolvido. Agora sorria um pouco. Tenha fé em Deus, mulher, tudo vai ficar bem.
– Vai sim, doutor.
Contente, a irmã chegou em casa com a boa notícia e a indicação de um bom pedreiro, recomendado por colegas do trabalho. Franzino, raquítico, feinho, mas, segundo os comentários, muito trabalhador.
E, de fato, o novo operário realizou, em quinze dias, tudo o que o outro não conseguiu em dois meses. Chegava cedo, trazendo  a sua marmitinha e só ia embora após o anoitecer. Concluiu toda a obra a tempo de se realizar a famosa “reza” de Santo Antônio.
O diretor da repartição que custeara a reforma, disse à sua funcionária:
– Esse mês você faz a “reza” de Santo Antônio em sua casa, não é? Não esqueça de me convidar. Quero ver se sua mãe ficou bem acomodada.
– Sim doutor… O dinheiro foi bom, Deus há de pagar pelo conserto da casa, mas acho que nesse ano não vamos fazer a “reza”.
– Não vão fazer?
– Problemas de saúde… Fica para a próxima…
Ah! Se ele visse a reforma que haviam feito, ampliando a casa, acrescentando uma nova copa, outro banheiro e iniciando a construção do segundo andar…
No dia da “reza”, cabia sempre a uma das irmãs preparar o incenso, de maneira que exalasse o seu perfume no momento certo. Nunca se alcançou a sincronia desejada. Ou a fumaça tomava toda a casa ainda durante a “Salve Rainha”, expulsando os devotos sufocados, ou as rezadeiras tinham que repetir a cantoria duas ou três vezes, até que finalmente o incenso chegasse:

“Subi precioso incenso
Até o trono do Altíssimo
Incensai glorioso Antônio
Com perfume suavíssimo”.

Todos riam da confusão, mas muito discretamente, para não serem repreendidos pela mãe ou pelo irmão mais velho,sempre zelosos da seriedade do momento. Ria-se do incenso atrasado, do fumaceiro asfixiante, dos erros das “puxadoras de reza”, do advogado guloso, que escondia as empadinhas no bolso do paletó, de qualquer coisa. Ria-se mais do que se rezava. E Santo Antônio nunca deixou de ser louvado.
Triste foi aquele ano, após a morte de uma das irmãs, em que o incenso apareceu pontualmente no momento certo, sem erro, sem fumaça, sem confusão.

6 thoughts on “Glorioso Santo Antônio

  1. Filha você é “tudo de bom”
    Tudo que faz bem a uma mãe coruja.
    Parabéns minha escritora favorita. Adorei!
    Você é linda e talentosa.
    A mesma mãe coruja.

  2. Muito bacana, amiga! Li todos hoje. Fiquei fã e me tornarei leitora assídua… Sem dúvidas. Não esperava nem mais nem menos, conhecendo-a assim… Muito gostoso de ler… Sem contar que conheço muitos personagens descritos… BACANÉRRIMO!
    Bjs.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dezessete − 6 =