Era uma vez…

Há muitos anos, havia uma garotinha que queria ser boazinha. Esforçando-se para sempre agradar, esperava receber atenção. Bem, crianças boazinhas não dão trabalho, não causam preocupação nem dores de cabeça, mas também não recebem atenção. A menina boazinha brincava quietinha, estudava muito, tirava boas notas, era sempre muito elogiada pelos professores, nunca brigava nem se metia em confusão, obedecia quando lhe mandavam tomar banho ou dormir. Não gostava de comer, mas também nunca adoecia. A menina boazinha passava despercebida. E tão boazinha era que não sabia escapar do seu manto de invisibilidade. Nunca centro das atenções, nunca pestinha, nunca estrela. A menina boazinha era definida por seu boletim escolar.

Além de boazinha, a menina era também bonitinha, embora isso ela não soubesse, pois, por ser transparente, ninguém notava e, portanto, não lhe dizia. A menina boazinha era mesmo invisível, exceto pelo seu cérebro, sempre celebrado. Em alguns momentos, um breve vento afastava a transparência e a garotinha era percebida. Invisível que sempre fora, sentia-se inadequada, desconfortável com sua própria existência material. Tão etérea crescera que ignorava a beleza que possuía. Surpreendeu-se e duvidou quando, ao tornar-se adolescente, deixou de ser invisível. As pessoas que não a conheceram quando criança insistiam em enxergá-la e para isso ela não havia sido preparada. Temendo desagradar aqueles que agora a viam, não sabia dizer não. Perder o manto de invisibilidade e tornar-se também matéria era um desafio e tanto.

Os anos passaram, a menina boazinha tornou-se adulta e descobriu que não precisava ser tão certinha. Melhor ainda, percebeu que, às vezes, tinha de ser má, muito má. Notou que a bondade que devia buscar não exige a anuência às solicitações alheias. Ser bom não é ceder sempre. Ser bom é também respeitar os próprios sentimentos. Ser bom é dizer um grande e sonoro não a todo e qualquer relacionamento abusivo. Ser bom é ter coragem de seguir o próprio caminho. Ser bom é ver refletida no espelho a sua essência. A menina boazinha abandonou o ideal de perfeição e decidiu ser feliz.

Em sua jornada de autoconhecimento, decepcionou muitas pessoas, magoou outras tantas, deixou de realizar muitas coisas que desejava, mas aprendeu, dolorosamente, que o caminho da perfeição é o melhor atalho para o sofrimento. Como sua lição mais valiosa, compreendeu que a auto-estima não tem relação com nenhuma conquista material ou física. E, encontrando-se enfim corporificada, seguiu em frente. Linda e maravilhosa, porque nasceu assim, mas, boazinha, não!

4 ideias sobre “Era uma vez…

  1. Parabéns, Márcia! Você escreve muito bem; sabe defender bem o seu ponto de vista.
    Sua mãe também faz belos textos.
    Gostei muito!
    Um abraço caloroso para ambas.
    De Terezinha.

  2. Olá Márcia!
    Você descreveu a menina dos meus sonhos. Quando eu pensava em ter uma filha, imaginava uma menininha exatamente assim, como a da sua história: meiga, delicada, linda, obediente, e, melhor que tudo, muito inteligente e estudiosa. Porém, na minha inexperiência junto ao egoismo, não pensei que uma menina tão perfeita pudesse se sentir relegada.
    Bem, o seu texto de hoje me leva a uma grande reflexão!
    Parabéns, você escreve muito bem!
    Te amo e admiro muito!

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