Por que ler?

Minha mãe teve uma vizinha que costumava dizer: “Lucinha, você gosta de ficar em casa, lendo. Eu prefiro a vida real. Saia desse mundo de sonhos!” Para aquela senhora, o passeio vespertino no antigo Shopping Iguatemi oferecia uma dose de realidade que escapava à literatura de Jorge Amado, autor favorito de minha mãe. Fico imaginando que espécie de “mundo de sonhos” ela pensava existir em “Terras do sem fim” ou “Capitães da areia” e a realidade exposta nas vitrines das antigas lojas Mesbla e Sandiz.

Outra pessoa próxima justificou seu desinteresse por livros afirmando que prefere viver as experiências na própria pele. Por essa razão, escolhe viajar, ver, tocar, comer, tomar topada. E afirma que nenhum livro pode substituir a percepção empírica da realidade. Respeito sua opinião, à qual não posso aderir sem grandes ressalvas. Não discuto o fato de que a experiência pessoal é necessária para a criação de uma perspectiva pessoal do mundo. Contudo, a vivência pessoal, infelizmente, nem sempre amplia a capacidade de enxergar a realidade sob a perspectiva do “outro”. Bem, cada um vive como quer e, afinal, nem todos gostam de ler. Discordo, porém, do argumento de que os livros representam fuga da realidade.

Alguns estudos relacionam a leitura de literatura tradicional ao quociente de inteligência emocional. Há uma explicação: o leitor de ficção compartilha intimamente a vida dos personagens e, com isso, amplia a sua capacidade de se colocar no lugar do outro. Ou seja, a literatura aumenta a empatia.

Ao acompanhar as alegrias e agruras dos personagens nos expomos a uma ampla gama de situações, de condições sociais e históricas diversas. Não preciso ser órfã e faminta para ser solidária às crianças carentes. Não é necessário que sofra na pele as dores e angústias da pobreza e da injustiça para compreender o desespero de quem vive às margens da sociedade. Não é necessário ser vítima ou algoz para experimentar o assombro com o mal que existe em cada um de forma latente e que, nos criminosos cruéis, se expressa com sua face mais sombria. A literatura me permite viver mil vidas em uma, viajar através do tempo e do espaço, ser mãe, irmã, amiga, amante, inimiga figadal de todos e de qualquer um. E essas experiências fictícias, longe de alienar, colaboram para enriquecer a vida, fortalecendo a sua dimensão humana.

“Eu gosto é de gente”, disse minha mãe, colocando um ponto final na lenga-lenga da vizinha. Certa ela.

2 ideias sobre “Por que ler?

  1. Olá Márcia!
    Eu também gosto de ler, mas não troco um bom passeio por um bom livro, não! A leitura é boa e necessária, mas quando estamos sem ter o que fazer, como: viagens longas, consultórios médicos, salões de beleza etc.
    Eu soube que Lucinha gosta muito de ler no banheiro. É outra opção!
    Beijos!
    Tenham uma noite tranquila com bons sonhos!

  2. Mårcia querida…
    Fique até emocionada quando vi que logo no primeiro parágrafo do seu texto, eu estava. É verdade, muita gente nunca entendeu a minha preferência por ficar em casa com os meus livros. Pessoas que gostavam muito de sair e queriam que eu as acompanhasse, não entendiam mesmo! Os que me conhecem bastante, como meu marido, meus filhos, meus netos, meus irmãos e minha mãe, sabem como gosto de ler!
    Seu texto está bem interessante, como sempre!

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