Isso me traz alegria e a arte da felicidade no trabalho

Marie Kondo, uma japonesinha de trinta e poucos anos, é conhecida como a “rainha da arrumação”. Autora do best-seller “A mágica da arrumação”, criou um método (KonMari) fundado em um princípio básico: conservar apenas aquilo que nos traz alegria. Em termos de organização doméstica – que é a proposta de Kondo –, isso significa a avaliação de todos os objetos existentes em casa, a fim de manter apenas aqueles que nos fazem felizes. Assim, à medida que analisamos cada tipo de objeto – roupas, livros, papéis, equipamentos elétricos, itens de cozinha – devemos ponderar sobre as razões pelas quais deveríamos conservá-lo.

Em 2016, li “A mágica da arrumação” e, agora no mês de julho de 2017, li “Isso me traz alegria”.  Embora ainda não tenha conseguido aplicar tal magia em minha casa, essas leituras levaram-me a algumas reflexões que transbordam a temática da organização doméstica.

Pensei em ultrapassar os limites domésticos e levar a tal “mágica da arrumação” para a vida. Comecei visualizando minha vida por categoria: profissão, família, bem estar… Seguindo as orientações de Marie Kondo, o primeiro passo é o descarte, o que deve ser feito de uma vez, sem dó nem piedade. É nessa escolha entre o que fica e o que sai que está o pulo do gato, pois, ao contrário do que geralmente se aprende, o que importa não é descartar o que não serve. Valiosa mesmo é a seleção do que vamos conservar, ou seja, aquilo que nos faz feliz. Diz Kondo: “mantenha apenas as coisas que lhe falam ao coração e tome coragem para jogar fora todo o restante”.

Passemos à vida: a família me traz alegria. Aprecio imensamente a companhia de minha filha, meus pais, irmãos, cunhadas, sobrinhos, primos, tios. Estar com a família é, portanto, algo que conservo porque me faz feliz. Tão feliz quanto estar com meu amado namorado, cuja companhia inigualável desejo preservar sempre.

Ler, escrever, ouvir música são coisas que também me deixam contente. Ocupo a maior parte de meu tempo livre com essas atividades que são extremamente introspectivas, exigindo certo isolamento para bem desfrutá-las. Esses momentos são muito prazerosos e, por trazerem tanta alegria, também conservo.

Vou à academia para combater o sedentarismo, mas até hoje não consegui extrair alegria da atividade física. Sou minimamente vaidosa, provavelmente por tal razão, recuso-me a ocupar tempo em demasia com compras, manicure, maquiagem etc.

Em termos profissionais, a aplicação do método KonMari não é nada simples, sendo, porém, de suma importância. Se observamos atentamente, a maior parte das pessoas não se sente feliz no trabalho. Às vezes, a insatisfação está relacionada à remuneração, outras vezes ao ambiente de trabalho ou à própria atividade desempenhada. Eu, felizmente, não integro essa maioria, e, apesar das dificuldades inerentes a qualquer profissão, sinto-me, como sempre senti, muito feliz com o trabalho. Não significa alienação ou indiferença às adversidades. Ocorre que os obstáculos e decepções não esvaziaram o sentido, o propósito que encontro em minha atividade. Todavia, o fato de encontrar felicidade no trabalho não significa inação. Cabe sempre permanecer atenta aos sinais quando a atividade perde a capacidade de manter engajada, interessada, motivada… Se isso acontecer, é o momento de mudar.

Levando em consideração a transitoriedade de tudo na vida, ponderei sobre a necessidade de encontrar uma atividade alternativa que me proporcione felicidade. Pensei no exemplo de meu pai que, ao aposentar-se, dedicou-se, durante alguns anos, ao trabalho voluntário em uma creche para crianças carentes. Assim, a remuneração não é, de forma alguma, o único critério para avaliar o grau de satisfação obtido com uma atividade. Não pretendo, com isso, dizer que devemos trabalhar de graça, mesmo porque não nos alimentamos, vestimos ou abrigamos gratuitamente. Pondero, todavia, sobre a vida após a aposentadoria – imaginando que conseguiremos nos aposentar ainda com saúde e algum vigor. Não é incomum constatar o tédio que se apodera de pessoas que se aposentaram precocemente, mas gozando de boa saúde. Dentro de minha linha de raciocínio, todos devemos trabalhar de alguma maneira, de forma remunerada ou não. A minha avó, com quase 95 anos, é um grande exemplo: ao lado dos cuidados médicos e do carinho recebido da família e amigos, a saúde e notável lucidez se conservam porque ela não abandona as suas atividades (escrever, desenhar), apesar das limitações impostas pela idade.

Há um livro escrito por Howard C. Cutler com o Dalai Lama chamado “A arte da felicidade no trabalho”. Dentre as muitas lições ali existentes, destaquei algumas:

  • Você não deve confundir contentamento com complacência. Não deve confundir satisfação no trabalho com não se importar, com não querer crescer, não querer aprender, com apenas permanecer onde está, mesmo que esteja ruim, e nem ao menos fazer um esforço para progredir, aprender e conseguir algo melhor.”

  • Se escolhemos um parâmetro externo para avaliar nosso sucesso interior, seja a quantidade de dinheiro que ganhamos ou a opinião dos outros a nosso respeito, ou o sucesso de algum projeto em que estejamos envolvidos, estamos fadados a, cedo ou tarde, sermos machucados pelas inevitáveis mudanças da vida.”

  • Se a sua vida torna-se apenas um meio de produção, grande parte dos bons valores e das características humanas se perdem e desse modo você não vai, não pode ser tornar uma pessoa completa. Por isso, se você está procurando um trabalho e tem como escolher, escolha um em que possa fazer algo criativo e passar algum tempo com a família. Mesmo que isso possa significar ganhar menos, pessoalmente acho que é melhor escolher um emprego que exija menos, que proporcione maior liberdade, mais tempo para estar com a família ou fazer outras atividades, ler, envolver-se em atividades culturais ou apenas se divertir. Acho que é melhor.”

  • Em qualquer tipo de emprego, com um pouco de atenção e esforço, podemos encontrar um significado maior para nosso trabalho.”

Bem, escrever esse texto semanal também me traz alegria e esse foi o principal desse retorno. Até o próximo domingo.

Bibliografia:

  • A mágica da arrumação, de Marie Kondo, Ed. Sextante

  • Isso me traz alegria, de Marie Kondo, Ed. Sextante

  • A arte da felicidade no trabalho, de Sua Santidade o Dalai Lama e Howard C. Cutler, Ed. Martins Fontes

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